30.7.08

Do ser mãe

Estou contigo RITITI, apesar da minha tendência saloia de dar palpites sobre os filhos dos outros.

Aprende-se muito quando se anda de autocarro

Dos velhos

A M., essa está bem, já tem um lugar efectivo no lar.



Dos filhos adoptivos

A minha filha mais velha não tem filhos, só tem um adoptivo.

27.7.08

Notícias da minha terra, ou o milagre das estradas de Portugal



terra de umas 300 almas, à chegada irreconhecível, alguém me havia de ter preparado, da próxima vez que lá for há-de haver 4 faixas e separador central. Por agora um alcatrão novinho em folha, um mira-mondego nas fragas, a ponte com a casa do tio Zé (nota técnica: a casa do tio Zé era um cubo que guardava aparelhagem de medição do nível das águas, o tio Zé é um tio que tinha a fama de gordo e por isso a anedota de ter uma casa tão pequena, passei a minha infância a passar a ponte a gritar com os meus irmãos “olha a casa do tio Zé, olha a casa do tio Zé” até todos os ocupantes do veículo automóvel que nos transportava estarem surdos), a ponte com a casa do tio Zé, onde apanhávamos sol quando a sombra chegava lá abaixo ao rio, a ponte de onde víamos os avecs e outros exibicionistas mergulharem em saltos suicidas para um rio que ali não tinha mais que um metro de profundeza, a ponte e a fantástica curva que a antecedia que desapareceram, engolidas por uma ponte igual a todas as pontes, com grades verdes. E mais à frente uma cortada com uma placa resplandecendo indicando “V. Este”, numa terra com 300 almas, e descobrirmos pela primeira vez que vivemos em V. Oeste que por acaso não tem placa a assinalar.

25.7.08

Não perder a pose



Em 2001 estava a fazer um curso europeu perto de Paris e era quase Natal. Uma tarde os meus colegas, vindos dos sete cantos da Europa, decidiram que no fim das aulas iam em conjunto excursionar por Paris, a compras. No grupo havia uma romena, simpática, mas com um aspecto exterior completamente demodèe*, cabelo e modelitos que já não se viam nem na aldeia mais recôndita do Portugal profundo. Eu decidi que não ia a compras porque não tinha dinheiro e porque não me apetecia, aproveitando ela a deixa para confirmar “para que hei-de fazer compras em Paris e ir carregada, se na Roménia posso comprar exactamente os mesmos produtos? que disparate”. E não perdeu a pose, o que é, mais vezes do que se imagina, essencial. Também assim me sinto e ajo, muito mais vezes do que gostaria.




* Há uma história verdadeira e que seria engraçada se não fosse triste: a minha tia tinha uma amiga romena e um dia a minha tia escreveu à amiga a perguntar que número calçava porque lhe queria oferecer uns sapatos. Na volta do correio, a romena, professora de francês, enviava-lhe o nº dos sapatos de toda a família.

Do não partir para férias





Quando todos aqueles que ainda não partiram anseiam por férias, estranhos sentimentos me assaltam, estou quase como o Dr. Jaime em relação às saídas, que canseira, malas e hotéis. Está-se tão bem na cidade que é quase um crime abandoná-la logo agora que ela nos é tão agradável. Não há filas de trânsito nem correrias, nem muita gente, nem muito barulho, o dia flui sem grandes incómodos. Os dias são grandes e as esplanadas e a cerveja são óptimas ao fim da tarde. Há tempo para tudo porque terminou o corre-corre, levar o filho ao conservatório, levar a filha à aula de ballet, ir buscar o filho ao conservatório levá-lo ao treino de judo, ir buscar a filha à aula de ballet e levá-la ao conservatório. Os filhos mais velhos até andam a passear a irritação e as hormonas juvenis por outras paragens e telefonam ao fim do dia frescos e tranquilos, irreconhecíveis. Se tudo está bem no mais perfeito dos mundos, para quê ir de férias?

24.7.08

Catwalk




Marca de sapatos de luxo produzidos na Índia a menos de 7 dolares/par. Uma loja e a produção.

22.7.08

Do SNS: vivam as boas notícias*




* principalmente dadas por quem sabe

Notícias da gata


A gata Nini continua internada, a soro. Parece-me a mim que o veterinário viu em nós algum sinal exterior de riqueza (que não existe) e está a esticar a corda, que os tempos hão-de ir maus até para os veterinários (se calhar não). De maneira que hoje seja o veterinário a favor ou contra, gatinha vens para casa, havemos de arranjar onde pendurar o frasco do soro.
Para já as horas que passo na sala de espera da clínica dos animais fazem-me urticária, e não é alergia aos animais que por lá andam, é mesmo aos donos deles. Aquela transferência de afectos faz-me confusão. Depois começo a pensar, caramba o M. precisa de ir ao pediatra, e os meus óculos estão umas verdadeiras cangalhas, e mais me enervo. Fico também a saber que mesmo entre os animais de estimação há alguns mais iguais do que os outros, a minha vizinha de cadeira contou-me que o luluzinho dela foi atacado por uns cães vadios e que esteve ali internado entre a vida e a morte e que, na mesma noite, os mesmos cães atacaram também uma cadela que vivia ao lado “mas como os donos não tinham posses, morreu, coitadinha”. De outro tipo era a dona de um gato que estaria ali por motivo de constipação - o gato, não a dona - e que para além daquele, constipadíssimo, coitadinho, tinha mais dezassete gatos em casa e ainda três cães. E um pote de oiro no fundo do quintal, imagino eu.
Até à tentativa de suicídio desta gata pensava eu, ingenuamente, que os animais precisavam de comidinha, água e, vá lá, vacinas. Percebo agora que podem arruinar os donos (tansos). Outra dona conta-me que o gato quase lhe levou o subsídio de férias e que só pode comer um tipo de comida “muito especial” porque faz infecções urinárias sucessivas. É tudo doido ou já nem os animais de estimação são como os de antigamente?

21.7.08

trabalhar em sentido estrito, o sistema social inglês

Não me perguntem porquê, mas um certo dia, em Inglaterra, fui com a minha família a um pic-nic de budistas num parque lindíssimo de Bath. O pic-nic correu muito bem e nada estranhei, soube apenas depois que todos eles tinham utilizado ao máximo a sua força mental (ao que percebi uma das bases do budismo) para que naquele dia não chovesse, e conseguiram, porque tudo o que se quer com muita força consegue-se. Quando digo que era gente normalíssima minto, porque daquela gente toda poucos eram os que trabalhavam. Em sentido estrito, diziam eles. Uns podiam fazer umas pulseiras, outros umas horas de baby-sitting, nada mais que isso. Porque em Inglaterra é fácil viver de subsídios: porque se tem filhos, porque se é mãe solteira, porque se tem uma qualquer doença por pouco incapacitante que seja. A Inglaterra tem problemas graves com o alcoolismo, e um alcoólico é um doente (certíssimo), então como doente crónico pode ter casa paga, uma boa maquia ao fim do mês que se transforma em mais dinheiro para o pub, mas são quase inexistentes as terapias ocupacionais, os programas de reeducação, pouco mais existe do que sessões AA. Os ingleses são ricos e distribuir dinheiro é fácil...

O meu fim-de-semana dava um filme


Não que eu costume escrever posts destes, do género o que comi ao almoço, ou quantas vezes a minha cria mais nova foi ao WC, mas este fim-de-semana merece ser contado pela forma como se afastou do conceito que nós, trabalhadores com vidinhas mais ou menos organizadas, temos de fim-de-semana.
Sexta-feira começou com alvorada às 7 e entrada do team de pintores que haveriam de pintar todas as desgraçadas paredes da casa. Seguiu-se o primeiro de muitos telefonemas a darem conta de uma intoxicação alimentar de uma parte da família. Durante todo o dia intercalando com o tema intoxicação alimentar familiar, internamento e soro, houve que ouvir os cérebros do MIT num workshop de “neuroimaging”. Chegada a casa às 19.30 coincidindo com a saída dos pintores, a casa em pantanas, pó e sujidade e restos de tinta por todo o lado. Jantar de take-way, lava e esfrega, arrasta móveis e limpa, e lava e limpa e arruma e limpa, à meia-noite a casa estava aceitável, um dos familiares continuaria internado.
Sábado 9.30, concentração para continuar a ouvir os cérebros de Harvard e do MIT. Chegar a casa, não há comida, fast-food e compras, os convalescentes convalescem lentamente.
Domingo 7.30, tocam à campainha, a vizinha do lado vem-nos devolver a gata que, de varanda em varanda, lhes entrou pelo quarto dentro a desejar os bons dias. Vontade de nos metermos pelo chão dentro, a vizinha mostra-se muito compreensiva. Uma hora depois estou na cozinha a tomar o pequeno-almoço e vejo que a gata insiste em visitar os vizinhos do lado, nunca na sua curta vida lhe tinha dado para tal sociabilidade, mas ontem estava para ali virada, no segundo seguinte a gata despenha-se das grades da varanda do nosso 4º andar. Alguém desce a correr e recupera o animal num estado lastimável, que me inibo de descrever, mas vivo. Correr para as páginas amarelas à procura de clínicas, estão todas fechadas ao domingo de manha, há uns números para urgências, convencer os veterinários que a situação é mesmo urgente e que por isso "tirem o rabinho da cama". Correr para a clínica, os primeiros prognósticos são muito maus, possivelmente eutanásia, parte-se-me o coração apesar de nas ultimas semanas a ter ameaçado milhares de vezes de que a atirava pela janela (de cada vez que me estragava os amores-perfeitos), Rx, antibiótico, corticosteróides, analgésicos, pode ser que se safe sem mazelas, fica internada, a caução é escandalosa mas esqueço os amores perfeitos. Almoçar e voltar ao congresso. Acaba o congresso, visitar a gata, está a melhorar, vai continuar internada.
Fim de tarde, tempo para um concerto do Mário Laginha e do Bernardo Sassetti na inauguração do belíssimo anfiteatro ao ar livre da Quinta das Lágrimas.
Preciso urgentemente de um fim-de-semana.

20.7.08

Miséria é tudo isso



Vieira, miséria é também isso tudo. Aqui há uns anos apoiei um grupo, ligado a uma paróquia, na distribuição de alimentos do Banco Alimentar. Vêem-se as coisas mais extraordinárias, se é certo que há famílias viciadas na “caridade” facilmente identificáveis, outras há que exibem “sinais exteriores de riqueza”, mas que vivem em casas miseráveis e os filhos passam fome. Numa família que eu apoiava, levando o arroz e o leite que haviam de comer, os miúdos tinham telemóveis, numa altura em que até nem eram tão vulgares e diziam “ganhamos com os pontos”. Sim, mas se têm pontos é porque alguém fez as chamadas e as chamadas que eles faziam para os amigos etc, também custavam o dinheiro com que podiam comprar o leite. No entanto os miúdos passariam fome sem o nosso apoio porque tinham a mãe mais desmiolada que imaginar se possa, ficava com urticária cada vez que precisava de falar com ela, e viviam num sítio indescritível e o miúdo de dez anos não sabia que o rio da cidade dele se chamava Mondego. Num verão arranjei-lhes um campo de férias onde almoçavam e lanchavam de graça e eu ia busca-los e leva-los a casa. Se não podia ir busca-los dava-lhes senhas para o autocarro. Um dia em que me esqueci de lhes dar senhas, não foram ao campo de férias. Fiquei com vontade de matar a mãe, mas os miúdos não têm culpa de terem nascido naquelas condições e como se diz “a corrente de miséria, de miséria de todo o tipo” tem que ser quebrada. Conheci um caso de uma família em que se calhar dormiam todos na mesma cama, mas tinham caído no engodo daqueles aspiradores que se vendem porta a porta e que custavam para aí 500 contos em suaves prestações. Uma das minhas colegas conseguiu ajuda-los a “denunciar” o contrato. Miséria é isso tudo.
No outro dia estava à minha frente na caixa do supermercado uma cigana, um filho ao colo outra pela mão, numa operação complicada, a cada produto que passava o senhor da caixa dizia-lhe o montante e ela contava as moedas que tinha na mão, a certa altura ia mandar para trás, uns iogurtes da marca mais barata que existe, e partiu-se-me o coração ao ver a tristeza silenciosa nos olhos da pequenita, paguei-lhe os iogurtes. Se calhar em casa têm um plasma. E depois?

17.7.08

Do caril


A leitura do Doutor Homem veio recordar-me a minha bisavó Maria do Carmo. Na casa da minha bisavó, senhora nada e criada nas serranias do concelho de Arganil, e que de lá apenas saiu para vir para Coimbra e dar estudos aos filhos, pois na casa desta minha bisavó, ao domingo, religiosamente, tão certo como ir à missa, comia-se caril, maravilhosamente confeccionado pela bisavó. A sobremesa podia ser arroz-doce, aletria ou tigelada ou qualquer outra novidade, quanto ao resto, caril, sempre caril. Toda a gente sabe que a moda das especiarias indianas e das comidas apimentadas a gindungo nos chegou da colónia africana do Índico, mas a minha bisavó já fazia o caril muito antes de ter cruzado os oceanos para visitar a filha em Lourenço Marques (tinha ela mais de oitenta anos, viajou sozinha e ainda meteu na ordem o comissário de bordo que teve o descaramento de a tratar por avozinha). Certo que se existe essa coisa de povo português, uma das suas mais fantásticas características é esta suprema capacidade de aculturação, de apanhar coisas novas e de as misturar com as de sempre, não lhes chamemos gentes de vistas estreitas.

16.7.08

Vivera eu antes dos oitocentos


Esse “espírito de há dois e três séculos” e, portanto, as guerrilhas da tia Benedita explicavam-se, segundo o velho Doutor Homem, meu pai, pelo facto de “agora se trabalhar mais”. O que queria dizer, no fim de contas, que antes das escaramuças de Oitocentos os Homens viviam dos seus rendimentos e passavam bem. Júlio Dinis, ai de nós, falava do assunto nos Fidalgos, misto de romance e de panfleto que na família passou por ser obra cómica. Não era. Trata-se de uma tragédia sem consequências, que autorizou a substituição dos fidalgos do Cruzeiro e dos frades inactivos pelos baronatos e demagogos do seu tempo.

António Sousa Homem “Os males da existência”

15.7.08

A música é que me salva





quando os dias são cinzentos.

Uma das minhas predilecções,: Tchaikovsky, concerto para violino. Esta gravação é sublime, já não se fazem gentes com estas expressões faciais, o maestro no início, o solista Jascha Heifetz sempre , a mulher da assistência por volta do minuto seis e que abandona a sala ao minuto oito, o coração num turbilhão...
e no final... surprise.

14.7.08

As mães de Kandahar




parem filhos mortos
permanecem, vulvas rasgadas e úteros ao dependuro
nada que e o silencio e burka não sejam capazes de esconder
resta a hena, o kohl




11.7.08

Miguel Portas


Conheci o Miguel Portas, há quatro anos, numa sessão do BE com investigadores da UC. Estava uma tarde muito quente, a sala não tinha ar condicionado e eu estava no fim da gravidez, quando já não se tem posição e o corpo já não nos pertence. Tudo circunstâncias negativas para ouvir fosse quem fosse. No entanto saí de lá rendida, pela inteligência, pela cordialidade e pela elegância do Miguel Portas. Lembro-me particularmente de que, quando da parte da assistência saiu aquele muro de lamentações típico da comunidade universitária, o MP responder qualquer coisa como, “nós (BE) temos que ser a voz dos que a não têm, agora vocês... vão há luta”.

esta semana o Miguel Portas é entrevistado na Visão. Da entrevista já falou o Rui Bebiano. Eu destaco pela aparente utopia:

Visão: Ainda é comunista?
MP: Sou, no sentido em que continuo a pensar que é possível ao Homem construir uma sociedade de abundância, em que o Estado seja dispensável e em que a sociedade seja capaz de se organizar e de se auto-administrar de forma igualitária, para que cada um possa seguir os seus caminhos sem atropelar o próximo.

Do fagote

Já por aqui falei do nosso muito querido Diário de Coimbra, vulgo “calinas”, fonte de informação preciosa para quem vive em Coimbra. Ultimamente recebo-o, graciosamente, na minha caixa de correio, manobra de charme, julgo eu. Mas de que outra forma iríamos nós saber que no domingo, 13, a orquestra clássica do centro promove um concerto pedagógico dedicado ao fagote e ao oboé? Ora o fagote é, a par do contrabaixo, o instrumento preferido do pequeno M. “sabes, têm um som muito grave de que eu gosto”.

Muito obrigada TAP-air portugal


eu até gosto deles, sinto-me confiante nos aviões nacionais, sou das que acho que os nossos pilotos fazem as aterragens mais suaves e seguras, nada daqueles supetões e chiadeiras de outras companhias - embora muito me embaracem as palmas dos meus compatriotas companheiros de viagem - deploro apenas aquilo que nos servem e a que chamam refeição ligeira. Por isso, pela minha fidelidade, deveriam tratar melhor as minhas reclamações. Em Outubro de 2007, ao tempo que isso já foi, as águas que passaram desde aí, fui à Dinamarca tendo sido extremamente maltratada nos balcões de check-in de Copenhaga, como relatei aqui. Está bem, o pessoal era dinamarquês, mas vestia as cores da TAP, portanto vai dar no mesmo. Do acontecido apresentei reclamação à companhia. A 20 de Junho de 2008 (!) recebo um email da TAP que nem ia abrir pensando que era mais um spam-passageiro-frequente, sabe Deus porquê abri, e o que li foi isto:
“Fazemos referência ao comentário datado de 17 de Outubro de 2007, que nos enviou por ocasião da sua viagem entre Copenhaga e Lisboa, no voo TP505 do mesmo dia, a cujo conteúdo dedicámos a nossa melhor atenção.” Como o meu cérebro não anda a passar a melhor fase demorei a relacionar os acontecimentos, porque na verdade, coisa pouca, só tinham passado 8 meses desde a minha reclamação.
E continuava “Neste sentido, informamos que os comentários efectuados, que agradecemos, foram já transmitidos ao responsável pela área visada, para apreciação e adopção de acções tidas por convenientes.”, ora se eu quase não me lembrava, imagino o efeito que esses comentários tiveram em Copenhaga, como soi dizer-se, é para o lado onde dormem melhor.
Obrigada TAP, pelo zelo e solicitude com que tratas os teus clientes, mil vezes obrigada.

10.7.08

Sumol de Morango



A minha filha adolescente está de férias com as amigas no litoral alentejano. Telefona-me em grande excitação:

-mãe, estou na praia em Odeceixe, e sabes o que está a acontecer aqui?
pelo tom só pode ser algo de verdadeiramente extraordinário, arrisco:
-está a nevar?
-não, mãe, estão a gravar os morangos, mesmo à nossa frente, estão cá todos.


minha filha, porta-te bem, não envergonhes a tua mãe.

Sumol de laranja

assim sendo... irei dar.





ps1 Rosa, conheço-a de algum lado. De onde será?
ps2 Outro! Que anda a dar nesta gente?

8.7.08

mas toda a maldade e toda a perversão serão castigadas, como convinha ao puritano Defoe


“Throughout the infinite variety of this book, this fundamental is most strictly adhered to; there is not a wicked action in any part of it, but is first and last rendered unhappy and unfortunate; there is not a superlative villain brought upon the stage, but either he is brought to an unhappy end, or brought to be a penitent; there is not an ill thing mentioned but it is condemned, even in the relation, nor a virtuous, just thing but it carries its praise along with it. What can more exactly answer the rule laid down, to recommend even those representations of things which have so many other just objections leaving against them? namely, of example, of bad company, obscene language, and the like.”

Defoe (excertos do prefácio do livro)

The famous Moll Flanders*



The Fortunes and Misfortunes of the Famous Moll Flanders, Etc. Who was born in Newgate, and during a life of continu'd Variety for Threescore Years, besides her Childhood, was Twelve Year a Whore, five times a Wife (whereof once to her own brother), Twelve Year a Thief, Eight Year a Transported Felon in Virginia, at last grew Rich, liv'd Honest and died a Penitent. Written from her own Memorandums.


Daniel Defoe




*ou de como se vai para a forca por roubar uma peça de cetim – grandes tempos aqueles

O velho Doutor Jaime

O velho Doutor Jaime, médico muito sábio, tratou-me quando ele já tinha mais de 90 anos e eu enfrentava as crises da adolescência. Era um homem muito grande e habitava uma mansão de outros séculos, rodeada de velhas árvores e de um imponente muro de pedra. E, como era comum aos médicos de antanho, tinha consultório no rés-do-chão da própria casa. Apesar de abastado, fazia uma vida simples, contava ele ter feito as últimas férias em 1950 e qualquer coisa (ou outro ano qualquer, que para o caso não interessa) e acrescentava "não gostei, uma canseira de malas e hotéis". Assim, passava os meses de Junho a Setembro, enfronhado na biblioteca da casa, fresca e confortável, e atendendo os padecentes que lhe batiam à porta. Por retirado não estava menos informado das coisas do mundo e sobretudo da medicina. O que não lia em jornais - para quê se só trazem desgraças- sobrava-lhe em literatura, e lia o The Lancet de fio a pavio. Eu visitava-o muitas vezes, cheia de maleitas que não eram mais que angustias juvenis e ele, depois de me pôr a par das ultimas do The Lancet, acabava a consulta com “e não leias coisas complicadas, minha filha, lê Júlio Dinis, lê Júlio Dinis”.

isto não é um baby-blog



mas se no tempo que me sobra das 8 h de trabalho, e das mais algumas de trabalhos forçados de casa, cozinhar, lavar, no tempo quer me sobra, leio livros cheios de erudição, vejo séries tipo donas de casa desesperadas, telejornais, saio pouco, escrevo estes posts descabelados...
no tempo que tem que me sobrar crio três crias, com tudo o que acarreta de bom e de mau (muito mais bom do que mau). E o que poderia ser bastante mau, mas por várias circunstâncias não é (e explicarei a seguir quais circunstâncias) é a obrigação de contactar com outros pais de outras crias, nomeadamente em associações de pais, reuniões com pais e coisas dessas. Que do que oiço descrever e do pouco que já pude presenciar são coisa de fugir, lugar para todo o tipo possível e imaginário de idiossincrasias, terreno fértil para a psicanálise. Os meus filhos mais velhos frequentam/frequentaram uma escola privada dirigida por uma freira voadora e omnipotente, a escola funciona que é uma maravilha e só lá tem os filhos quem quer. Há uma associação de pais, muito democraticamente formada por indicação da dita freira voadora, e que promove convívios, rallies-paper, e uma assembleia anual onde é eleita (?). Os meus filhos andam por lá felizes e contentes e têm resultados que devem também alegrar a senhora ministra, por isso, tudo bem no melhor dos mundos. A cria mais nova anda num jardim infantil também privado, onde obviamente não há associação de pais. A directora e no caso educadora do meu filho para além das festas e festinhas promove três reuniões por ano com os pais: uma em que explica o que vão fazer, outras duas em que dá conta do que se fez. E prepara as reuniões tão bem, cheias de power-points e textos magníficos, que no fim os pais estão contentinhos e vão para casa em beatitude sem coragem para comentários ou dúvidas existenciais. Ontem, a coisa correu um bocadinho menos bem, estavam já os pais contentinhos e prontos para regressarem beatificamente a casa, quando uma mãe pergunta se o boato que corre de que talvez a auxiliar de educação vá mudar tem fundamento e a educadora diz que talvez, que ainda não sabe, que ainda não decidiu... oh calamidade, como vai a minha filhinha adaptar-se a outra pessoa, quando é com esta que está desde o um aninho, como é que vou preparar o meu filhinho para essa tragédia e etc etc e não houve quem os acalmasse. Percebem-me na minha aversão a reuniões de pais?

7.7.08

Vida de Puta



Nem de propósito esta linda crónica do Vasco Barreto:
Ontem seguíamos em direcção à praia, quando numa estrada, secundaríssima, uma mulher sem idade, ou com muita idade, sentada num caixote a fazer de banco... e alguém exclamou, aquela já ali estava no meu tempo de liceu, o meu tempo de liceu que já lá vai há muito, há muito. Daquelas vidas não conheço rigorosamente nada, mas penso para mim, ao menos no bordel ainda se poderá supor um arremedo de glamour, uma réstia de sedução, agora ali, na borda da estrada, o motorista a parar, a irem atrás de uma moita, toma, toma, o homem a apertar as calças satisfeito, a mulher a limpar-se com os toalhetes que trás na carteira barata ... e um nojo imenso pela raça humana.

Valha-me a Sophia... e que assim seja!

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

6.7.08

Aristides de Sousa Mendes


Já o escrevi noutra altura, mas vem de novo a propósito: quando tive que ir a um congresso em Viena verifiquei, não sem emoção, que a pequena alameda que conduz ao Palácio de Congressos tem o nome de Aristides de Sousa Mendes. Há uns poucos anos o “cromo” do vereador da cultura não considerou relevante, prioritário (etc.) dar o nome do diplomata a uma rua de Coimbra, porque tinha sido apenas mais um estudante de Direito que tinha passado por cá.

3.7.08

Syntagma




A história vem contada e ilustrada em dois diários portugueses, eu ouvi-a recontada na Antena 2 pelo Pedro Malaquias. Parece que uma mulher morreu numa sala de espera de um hospital de Nova Iorque e para ali ficou por mais de uma hora, caída de bruços, sem que os outros esperantes, seguranças e até um polícia movessem um dedo para averiguarem o que se passava ou prestarem auxílio (que as câmaras de vigilância registaram sinais de vida na mulher durante uma boa meia hora).
As histórias são como as cerejas e atrás de umas vêm outras:
Numa noite de Atenas estava eu a assistir a um filme mudo num écran gigante da Praça Syntagma (o que eu gosto do som da língua grega, quando a menina do metro dizia Syntagma, acentuando o á final, aquilo soava-me a uma cantata de Bach). Estava sozinha e mais do que assistir ao filme não me apetecia regressar ao hotel e por isso atendia mais a quem se sentava à minha volta, e não era muita gente. Duas cadeiras ao lado senta-se a mulher mais suja e mal-cheirosa que imaginar se possa, uma obesidade pornográfica coberta de andrajos. Por pouco tempo ficou a mulher sentada, porque o álcool era tanto que não se segurava e começou a resvalar perigosamente. Uma rapariga da assistência tenta ajudá-la, um polícia aproxima-se, a mulher nem os ouve. Percebo que os dois, de forma bem delicada, tentam convencer a andrajosa a sair dali, a ir dormir para banco mais confortável, em vão. O polícia afasta-se e regressa com dois pares de luvas, das que usam os médicos ou os enfermeiros, calça um dos pares e estende o outro à rapariga, juntam três ou quatro cadeiras, pegam na mulher e deitam-na na cama improvisada, como quem pega num filho adormecido. Toda esta humanidade se passou numa noite quente de um verão tardio, em Atenas, na Praça Syntagma.

Ingrid Betancourt libertada

2.7.08

da Antena 2 para sisudos



Recebo um email de um senhor que desconheço, e sabe Deus porque possuirá o meu endereço, cujo título espelha a indignação, Bach achincalhado na Antena 2. O título desperta-me a curiosidade, como terá conseguido a Antena 2 tal coisa? Achincalhar Bach! e começo a ler um longuíssimo texto, e olhem, a montanha pariu um rato, a coisa resume-se a isto, a Antena 2 utiliza um excerto do concerto para cordas BWV 1042 como som de fundo num spot autopromocional. Ele há gente que se leva muito a sério.


ps tomei conhecimento com a música de Carl Orff, há muitos muitos anos, através de uma publicidade do “Old Spice”, lembram-se? um belo exemplar da raça humana surfando numas ondas do Hawai; fazem mais pela grande música anúncios desses do que centenas de chatos como o senhor do email.




Crescer

-quando é que eu volto a fazer anos?
-ainda falta muito, só daqui a um ano.
-vejamos, daqui a pouco tempo temos os anos do pai, depois...
-do pai? o pai faz anos? para que é que o pai faz anos? o pai já é adulto.
-os adultos também fazem anos.
-para que é que os adultos fazem anos se já são crescidos? eu não quero que o pai cresça mais, eu não quero que o pai chegue ao tecto.


e assim ando eu

O infeliz está votado ao bocejar infinito. E tem por única consolação que os jornais lhe chamem e que ele se chame a si próprio - o Grande Civilizado.

Eça de Queiroz "A decadência do riso"



ontem procurei em três livrarias o "Os Males da Existência" do Dr. Homem e nada... na Bertrand a esperança de que "pode ser que ainda não tenha sido desencaixotado"!