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16.7.08

Vivera eu antes dos oitocentos


Esse “espírito de há dois e três séculos” e, portanto, as guerrilhas da tia Benedita explicavam-se, segundo o velho Doutor Homem, meu pai, pelo facto de “agora se trabalhar mais”. O que queria dizer, no fim de contas, que antes das escaramuças de Oitocentos os Homens viviam dos seus rendimentos e passavam bem. Júlio Dinis, ai de nós, falava do assunto nos Fidalgos, misto de romance e de panfleto que na família passou por ser obra cómica. Não era. Trata-se de uma tragédia sem consequências, que autorizou a substituição dos fidalgos do Cruzeiro e dos frades inactivos pelos baronatos e demagogos do seu tempo.

António Sousa Homem “Os males da existência”

8.7.08

mas toda a maldade e toda a perversão serão castigadas, como convinha ao puritano Defoe


“Throughout the infinite variety of this book, this fundamental is most strictly adhered to; there is not a wicked action in any part of it, but is first and last rendered unhappy and unfortunate; there is not a superlative villain brought upon the stage, but either he is brought to an unhappy end, or brought to be a penitent; there is not an ill thing mentioned but it is condemned, even in the relation, nor a virtuous, just thing but it carries its praise along with it. What can more exactly answer the rule laid down, to recommend even those representations of things which have so many other just objections leaving against them? namely, of example, of bad company, obscene language, and the like.”

Defoe (excertos do prefácio do livro)

The famous Moll Flanders*



The Fortunes and Misfortunes of the Famous Moll Flanders, Etc. Who was born in Newgate, and during a life of continu'd Variety for Threescore Years, besides her Childhood, was Twelve Year a Whore, five times a Wife (whereof once to her own brother), Twelve Year a Thief, Eight Year a Transported Felon in Virginia, at last grew Rich, liv'd Honest and died a Penitent. Written from her own Memorandums.


Daniel Defoe




*ou de como se vai para a forca por roubar uma peça de cetim – grandes tempos aqueles

8.4.08

Taj Mahal


O incrível wc de George Jennings (1884). Capaz de evacuar "dez maçãs e uma esponja numa descarga de dez litros".




Os americanos sempre confundiram bem estar com bem estar material, enquanto que os russos da URSS, coitados, ficavam-se pela sua superioridade moral. Há uma história maravilhosa, da qual já não lembro os detalhes, de uma soviética e de uma ocidental a compararem as suas roupas interiores, a soviética defendendo com unhas e dentes os seus horríveis e grossos soutiens de feira perante as rendas delicadas dos ocidentais...

Em 1959 Nixon inaugurou, em Moscovo, uma exposição sobre as conquistas tecnológicas americanas, que tinha como peça forte uma réplica à escala natural de uma casa americana, com todos os confortos da época, alcatifas, electrodomésticos, duas casas de banho, etc. Como é bom de ver estes símbolos do capitalismo só podiam colher o cepticismo e o despeito dos soviéticos que, prontamente, baptizaram essa “maravilha” de Taj Mahal, e Nikita Khrushov terá afirmado, frente a um espremedor eléctrico de citrinos, que ninguém no seu perfeito juízo compraria uma coisa tão tola. Feitios...



esta história do Taj Mahal é também contada por Alain de Botton

Não há bem que sempre dure

Nos primeiros tempos de vida ninguém se importa muito com o que nós fazemos, a nossa existência é só por si suficiente para nos granjear um afecto incondicional. Podemos arrotar, gritar a plenos pulmões, não ganhar dinheiro nenhum, não ter amigos importantes – e sermos valorizados mesmo assim.

Status Ansiedade, Alain de Botton

Status Ansiedade*

Tivesse Alain de Botton conhecido António Aleixo e citá-lo-ia amiúde:

Eu não sei porque razão
certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer



* de Alain de Botton, um livro muito divertido

25.3.08

Descrença: o livro

Pronto, agora li o livro, e tenho que dizer que o livro me reconciliou com a sua autora, uma mulher que não anda cá por ver andar os outros. Neste mundo do ter, eu mulher de pouca fé, faço uma vénia a uma mulher tão profundamente religiosa, mesmo quando duvida.
Uma vez ouvi um padre jesuíta dizer que crescemos em tudo menos na fé, adultos mantemos a fé da nossa primeira comunhão e por isso nos sentimos insatisfeitos. Tem carradas de razão.

6.3.08

Da literatura

Há já muito que não falo aqui dos livros que ando a ler. Tudo por causa do Laurence Sterne e “A vida e opiniões de Tristam Shandy”. Se é o livro da vida de tanta gente, eu tinha no mínimo que ler. Trouxe da biblioteca municipal os dois volumes, e já fui devolver o segundo. E mesmo assim estou cheia de remorsos, porque me disseram que têm lá uma fila de leitores à espera do volume que tenho em mãos (uma boa oportunidade para comprarem mais exemplares). Porque me perco nas referências históricas e literárias, porque me perco nas páginas, sempre o Shandy ainda não nascido ou acabado de nascer, e estou sempre a voltar atrás. No entretanto já recomecei pela terceira vez o segundo capítulo de “Atonement” do Ian McEwan, o que é uma estupidez porque se já tinha lido a tradução portuguesa... e o “Atonement” inglês não casa bem com o Sterne, mesmo em português, e não ando boa para tarefas difíceis. No entretanto vou também lendo umas páginas de um Goethe em que tropeço pela casa “As afinidades electivas”, cuja melancolia me está a fazer bem, mas como na contracapa já me avisam da “quebra constante das expectativas do leitor” bem me parece que terá o destino dos outros dois. No entretanto encontrei um John Seteinbeck na estante “Ratos e homens” . E o Steinbeck eu sei que leio do princípio ao fim sem parar para respirar. Haja quem me reconcilie com a literatura

2.2.08

As crianças terríveis



Na última semana li dois livros que separados por 50 anos abordam a mesma temática, a tragédia de duas famílias que o não são, porque nelas não existem adultos. Se o “Jardins de Cimento” (1978) de Ian McEwan é estranho, inquietante e terrível, “As crianças terríveis” (1929) de Jean Cocteau leva os três adjectivos à sua máxima expressão.
De como as coisas são como são independentemente da época em que ocorrem,

21.1.08

Arca de Noé, 3ª classe




Todas as noites tenho lido uma história da Arca de Noé para o meu filho de três anos, lemos sempre a mesma história, a do grilinho que estava a ver a sua vida a andar para trás por causa de uma abóbora menina que não parava de crescer “dormia e crescia, crescia e dormia” e que estava quase a impedi-lo de entrar (ou de sair) da sua toquinha. A linguagem de Aquilino é rica e difícil, por vezes substituo alguns vocábulos, mas se calhar não era necessário porque o meu filho adora a história mesmo cheia de palavras difíceis.

15.1.08

fala Susan Barton

“Não sou uma história, senhor Foe. Posso dar a impressão de ser uma história, porque comecei o conto de mim própria sem preâmbulo, deslizando borda fora e lançando-me para a praia. Mas a minha vida não começou nas ondas. Houve uma vida anterior à água, que remonta às minhas buscas infrutíferas no Brasil, e daí aos anos em que a minha filha ainda estava comigo e daí ao dia em que nasci. Tudo isto forma uma história que não desejo contar. Escolho não contar, porque a ninguém, nem mesmo a si, devo provas de que sou um ser consistente com uma história com substância no mundo.”



"A ilha" J.M. Coetzee

14.1.08

A ilha “Foe”

Na semana que passou li dois Coetzee, os meus primeiros Coetzee que a minha vida não dá para tudo. Li “A Desgraça” e a “Ilha”. Os livros de Coetzee, pelo menos estes dois, vivem muito de diálogos empolgantes e por isso são curtos em extensão e lêem-se com avidez. Li primeiro “A desgraça” e fui passando por emoções várias, da empatia à irritação.
Com a “Ilha” foi o fascínio. A “Ilha” fala da arte de contar uma história e a relação da história contada com o que realmente aconteceu. E o que é que realmente aconteceu?; onde acaba a vida e começa a criação literária e porque será esta história melhor, no sentido de contar melhor (com mais verdade? e o que é a verdade?) do que aquela outra?

11.12.07

O tempo é lerdo, a vida baça...

Brilha o céu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça, o gesto flácido. Debaixo de sombras irisadas, leio e releio os meus livros, passeio, rememoro, devaneio, pasmo, bocejo, dormito, deixo-me envelhecer. Não consigo comprazer-me desta mediocridade dourada, pese o convite e o consolo do poeta que a acolheu. Também a mim, como ao Orador, amarga o ócio, quando o negócio foi proibido. Os dias arrastam-se, Marco Aurélio viveu, Cómodo impera, passei o que passei, peno longe, como ser feliz?


Um Deus passeando pela brisa da tarde, Mário de Carvalho

O tempo é lerdo, a vida baça...



Brilha o céu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça, o gesto flácido. Debaixo de sombras irisadas, leio e releio os meus livros, passeio, rememoro, devaneio, pasmo, bocejo, dormito, deixo-me envelhecer. Não consigo comprazer-me desta mediocridade dourada, pese o convite e o consolo do poeta que a acolheu. Também a mim, como ao Orador, amarga o ócio, quando o negócio foi proibido. Os dias arrastam-se, Marco Aurélio viveu, Cómodo impera, passei o que passei, peno longe, como ser feliz?


Um Deus passeando pela brisa da tarde, Mário de Carvalho

5.12.07

Laços de Ternura

-Ficarei contigo, querida Helen; ninguém me levará daqui.
-Estás quente, querida?
-Estou.
-Boa noite, Jane.
-Boa noite, Helen.
Beijou-me e eu beijei-a; não tardou que ambas adormecêssemos.
Quando acordei, era dia; um movimento desusado despertou-me. Olhei. Estava ao colo de alguém. Era a enfermeira que me levava para o dormitório. Não me ralharam por ter saído da minha cama; tinham mais em que pensar; não responderam às minhas perguntas; só um ou dois dias depois soube que, quando Miss Temple voltara de manhã para o quarto, me encontrara deitada na cama com a cara no ombro de Helen e os braços em volta do pescoço. Eu dormia e Helen ... estava morta.

Charlotte Brontë, Jane Eyre

Laços de Ternura

-Ficarei contigo, querida Helen; ninguém me levará daqui.
-Estás quente querida?
-Estou.
-Boa noite, Jane.
-Boa noite, Helen.
Beijou-me e eu beijei-a; não tardou que ambas adormecêssemos.
Quando acordei, era dia; um movimento desusado despertou-me. Olhei. Estava ao colo de alguém. Era a enfermeira que me levava para o dormitório. Não me ralharam por ter saído da minha cama; tinham mais em que pensar; não responderam às minhas perguntas; só um ou dois dias depois soube que, quando Miss Temple voltara de manhã para o quarto, com a cara no ombro de Helen e os braços em volta do pescoço. Eu dormia e Helen ... estava morta.

Charlotte Brontë, Jane Eyre

Jane Eyre

Acabei de ler “Jane Eyre” cuja história já conhecia de uma série de televisão. No ano passado li uma biografia fascinante das irmãs Brontë e pus na minha lista os livros da Emily e da Charlotte. No entretanto também li alguma coisa de Jane Austen. Comparando as três, a Jane Austen e a Emily são umas meninas ao pé de Charlotte. Charlotte é uma grande, grande romancista, caracterizadora perfeita do que de mais fundo existe em cada ser humano.

18.9.07

Da felicidade e do infortúnio

Na barraca da sua prisão, Pierre ficou ciente, não só com a inteligência mas com todo o seu ser, com a sua vida, de que o homem foi criado para a felicidade, que a felicidade residia no próprio homem, na satisfação das suas necessidades humanas naturais, e que toda a desgraça não provinha da carência mas do excesso; mas agora, nas três últimas semanas de marcha, ficou ciente de mais uma nova verdade consoladora: no mundo nada havia de assustador. Ficou a saber que, do mesmo modo que não existia uma situação em que o homem fosse totalmente feliz e livre, também não existia para o homem uma situação de infelicidade absoluta e de privação total da liberdade. Ficou a saber que havia um limite para o sofrimento e um limite para a liberdade, e que estes limites estavam muito próximos; que o homem que dormia num leito de rosas, ao ver uma pétala enrolada, sofria tanto como Pierre ao adormecer agora na terra fria e húmida, com um lado do corpo gelado e outro quente; ficou a saber que, quando dantes ele calçava os seus sapatos estreitos de baile, sofria tanto como agora que andava descalço (o calçado dele há muito que se desfizera), com os pés cheios de feridas. Ficou a saber que, ao casar-se com a sua mulher de livre vontade (como lhe parecia naquela altura), não era mais livre do que agora em que o fechavam de noite na cavalariça.


Leon Tolstói, Guerra e Paz

17.9.07

Despedidas


Despeço-me agora de Pierre, Pétia, Nicholas, Helena, Sónia, Andrei, Natacha, Princesa Mária, do Imperador Alexande I e de Napoleão “Buonaparte” e de mais uma corte de Príncipes e Princesas, Condes e Condessas, e de um exército de generais, hussardos, soldados, cossacos, de toda uma multidão que me acompanhou no ultimo mês e meio. Deixo para amanhã uma página das reflexões de Pierre sobre a felicidade e a desgraça.