Showing posts with label fé e religião. Show all posts
Showing posts with label fé e religião. Show all posts

11.4.08

A blasfema que há em mim


Nem sempre vou à missa, cada vez menos, mas quando vou à missa comungo, para mim faz sentido. Um dia um padre jesuíta disse-me que deve comungar quem mais precisa, talvez por isso...
A Igreja Católica, por considerar que o casamento é um sacramento e por isso indissolúvel, veta aos divorciados que voltem a casar o sacramento da comunhão. Diz D. António Marto, bispo de Leiria*, “Temos de acolher estes homens e mulheres, que trazem dentro de si estas feridas, aproximando-nos com uma solicitude de mãe, de misericórdia. Mas, se deve haver uma atitude de acolhimento e de integração, não se pode passar por cima da verdade das situações. Por isso participam em várias actividades mas não se devem abeirar da sagrada comunhão”.
A blasfema que há em mim responde-lhe, não seria o senhor, D. António Marto, ou qualquer outro homem à face da terra, que mo havia de proibir, estivesse eu nessa situação. A Deus o que é de Deus.

*Na revista Visão desta semana

25.3.08

Descrença: o livro

Pronto, agora li o livro, e tenho que dizer que o livro me reconciliou com a sua autora, uma mulher que não anda cá por ver andar os outros. Neste mundo do ter, eu mulher de pouca fé, faço uma vénia a uma mulher tão profundamente religiosa, mesmo quando duvida.
Uma vez ouvi um padre jesuíta dizer que crescemos em tudo menos na fé, adultos mantemos a fé da nossa primeira comunhão e por isso nos sentimos insatisfeitos. Tem carradas de razão.

24.3.08

PÁSCOA E VIDA ETERNA: O QUE QUEREMOS REALMENTE?




Porque em devir e abertos ao futuro, a esperança é princípio constituinte do cosmos, do Homem e da História. A abertura ao futuro torna-se espera no animal, que precisa de procurar o que lhe falta. Tanto o animal como o Homem esperam, com uma diferença: o animal fica satisfeito, quando obtém o que procura, mas o Homem, após a realização de cada projecto, continua ilimitadamente aberto a um para lá, que o move, num transcendimento sem fim. Segundo essa abertura ao futuro aconteça na confiança ou na desconfiança, a espera configura-se como esperança ou desesperança.

A esperança tem um duplo pólo: subjectivo e objectivo, devendo assim falar-se de esperança esperante e esperança esperada. Neste quadro, é fácil constatar no Homem a diferença constitutiva entre a primeira e a segunda: por mais que a esperança esperante se materialize nas suas realizações concretas, nunca se realiza adequadamente, continuando insuperável um abismo, de tal modo que se impõe um plus ultra, um para lá de todo alcançado. Aí está a razão por que todo o ser humano morre inacabado, insatisfeito, sempre por fazer adequada e plenamente.

Insere-se aqui a esperança pessoal para lá da morte, mas uma esperança tal que salve o ser humano real, de modo pessoal, e não numa "imortalidade" impessoal, apenas pela continuação na família, nas obras, na natureza, na sociedade...

A esperança não é certeza. Tem razões, mas não é demonstrável cientificamente. Não consiste em mero desejo, não pode ser wishful thinking. Tem de fundamentar-se no possível, em potencialidades reais. Assim, quando se pensa na vida eterna pessoal, entende-se que só Deus pode ser fundamento dessa esperança. Como viu São Paulo na Carta aos Romanos, "só o Deus que criou a partir do nada pode ressuscitar os mortos". Na sua continuação, Kant postulou a imortalidade, mas simultaneamente postulou o Deus criador como seu garante. Imortalidade pessoal e Deus pessoal criador implicam-se mutuamente.

Mas será que queremos a vida eterna?

Na sua segunda encíclica, sobre a esperança (Spe salvi), Bento XVI debate-se honestamente com esta pergunta. Reconhece que muitos hoje recusam a fé porque "a vida eterna lhes não parece algo desejável". Querem a vida presente, e a vida eterna é "um obstáculo". Continuar a viver para sempre, numa vida interminável, "mais parece uma condenação do que uma graça". Quereríamos adiar a morte, mas viver sempre, sem um final, tornar-se-ia, em última análise, "insuportável". A eliminação da morte - pense-se no romance de José Saramago: As Intermitências da Morte - faria da vida na Terra uma impossibilidade, e que benefícios poderia trazer para o indivíduo? Então, na nossa existência, há uma contradição: por um lado, "não queremos morrer", mas, por outro, "também não desejamos continuar a existir ilimitadamente nem a Terra foi criada com esta perspectiva." Que queremos então realmente?

Esta pergunta abre para outra: "que é realmente a 'vida' e que significa verdadeiramente 'eternidade'?"

O Papa responde apelando para algumas das nossas experiências - a beleza, o amor, a criação --, em que nos aproximamos do que seria verdadeiramente viver, de tal modo que aí até dizemos: assim deveria ser sempre.

No fundo, queremos esta vida, que amamos, mas plena. Queremos a bem-aventurança, a felicidade. Não sabemos exactamente o que queremos, pois é o desconhecido -- um "não sei quê --, mas neste não saber sabemos e experienciamos que essa realidade tem de existir: é ela que nos arrasta e é para ela que somos impelidos.

Não sabemos o que queremos dizer com "vida eterna". Apenas podemos pressentir que "a eternidade não é um contínuo suceder-se de dias no calendário, mas como o instante pleno de satisfação, no qual a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade". Seria o instante da submersão na imensidade do ser, na vida plena, "no oceano do amor infinito, no qual o tempo já não existe."

Na Páscoa, o que se celebra são estes mistérios do cosmos, do Homem e da História, da vida, da morte e da vida eterna.

crónica do Padre Anselmo Borges no DN do último sábado (sublinhados meus)

20.3.08

E Dawkins é o seu profeta

Zealous atheism renews some of the worst features of Christianity and Islam. Just as much as these religions, it is a project of universal conversion. Evangelical atheists never doubt that human life can be transformed if everyone accepts their view of things, and they are certain that one way of living - their own, suitably embellished - is right for everybody. To be sure, atheism need not be a missionary creed of this kind. It is entirely reasonable to have no religious beliefs, and yet be friendly to religion. It is a funny sort of humanism that condemns an impulse that is peculiarly human. Yet that is what evangelical atheists do when they demonise religion.

John Gray no The Guardian