20.7.08

Miséria é tudo isso



Vieira, miséria é também isso tudo. Aqui há uns anos apoiei um grupo, ligado a uma paróquia, na distribuição de alimentos do Banco Alimentar. Vêem-se as coisas mais extraordinárias, se é certo que há famílias viciadas na “caridade” facilmente identificáveis, outras há que exibem “sinais exteriores de riqueza”, mas que vivem em casas miseráveis e os filhos passam fome. Numa família que eu apoiava, levando o arroz e o leite que haviam de comer, os miúdos tinham telemóveis, numa altura em que até nem eram tão vulgares e diziam “ganhamos com os pontos”. Sim, mas se têm pontos é porque alguém fez as chamadas e as chamadas que eles faziam para os amigos etc, também custavam o dinheiro com que podiam comprar o leite. No entanto os miúdos passariam fome sem o nosso apoio porque tinham a mãe mais desmiolada que imaginar se possa, ficava com urticária cada vez que precisava de falar com ela, e viviam num sítio indescritível e o miúdo de dez anos não sabia que o rio da cidade dele se chamava Mondego. Num verão arranjei-lhes um campo de férias onde almoçavam e lanchavam de graça e eu ia busca-los e leva-los a casa. Se não podia ir busca-los dava-lhes senhas para o autocarro. Um dia em que me esqueci de lhes dar senhas, não foram ao campo de férias. Fiquei com vontade de matar a mãe, mas os miúdos não têm culpa de terem nascido naquelas condições e como se diz “a corrente de miséria, de miséria de todo o tipo” tem que ser quebrada. Conheci um caso de uma família em que se calhar dormiam todos na mesma cama, mas tinham caído no engodo daqueles aspiradores que se vendem porta a porta e que custavam para aí 500 contos em suaves prestações. Uma das minhas colegas conseguiu ajuda-los a “denunciar” o contrato. Miséria é isso tudo.
No outro dia estava à minha frente na caixa do supermercado uma cigana, um filho ao colo outra pela mão, numa operação complicada, a cada produto que passava o senhor da caixa dizia-lhe o montante e ela contava as moedas que tinha na mão, a certa altura ia mandar para trás, uns iogurtes da marca mais barata que existe, e partiu-se-me o coração ao ver a tristeza silenciosa nos olhos da pequenita, paguei-lhe os iogurtes. Se calhar em casa têm um plasma. E depois?

4 comments:

vieira do mar said...

Contar moedas para o iogurte do filho e ter um plasma em casa não me parece a primeira definição de "miséria" nem de "pobreza", mas sim de "estupidez". Ou puro e simples egoísmo. E, se a Isabel fala com conhecimento de causa, eu também, portanto - e sem ofensa - poupe-me o discurso moralista de quem se acha mais "boa pessoa" do que os outros.

Sofia

Isabel said...

Sofia, eu mais do que boa pessoa que espero ser sou pragmática e acho que o mundo não é a preto e branco. Acho também que as crianças não têm que ser vítimas da estupidez (e estupidez e ignorância também são miséria) dos pais. Para além de dinheiro e casas essas familias precisavam de profissionais competentes que as obrigassem a mandar as crianças à escola, ao médico, que transmitissem outros valores às crianças e jovens. A solução não é de certeza mandar todos os adultos para a cadeia e as crianças para instituições, mas obviamente não defendo a desresponsabilização desses adultos.

Eva Lima said...

Mais importante que dar o peixe é ensinar a pescá-lo, nestas situações é a verdade mais palpável.
Apoio o rendimento mínimo e afins mas, acho que devia haver um maior controlo da sua aplicabilidade, essencialmente no que toca às crianças. Países há onde até o abono de família está dependente da ida à escola.

isabel said...

Eva, mas aqui também, tenho uma pessoa muito proxima que trabalha num programa de eliminação do abandono escolar e é uma das armas que utilizam nas familias que recebem o rendimento minimo, se calhar há é poucos tecnicos sobretudo tecnicos competentes.