31.12.08

Feliz 2009





Admiro a minha candura, levei "porrada" durante todo o ano que agora finda e estou para aqui com um sorriso imbecil estampado cheia de esperança no que lá vem.

30.12.08

Vemos ouvimos e lemos não podemos ignorar

Tão actual hoje como há 40 anos




Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D’África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado

Sophia de Mello Breyner

29.12.08

O menino triste


Conheço o João Mascarenhas dos tempos da Ay-o-Linda. Depois encontrávamo-nos em Coimbra-B a caminho de Lisboa. Em tempos muito antigos, antes da guerra do golfo e dos telemóveis. Redescubro-o agora e vejo que desenha cada vez melhor, já era o ilustrador de serviço nessa época distante. Ainda não consegui comprar o livro, mas já o recomendo.

Israel



Sofia, ponho só esta simples reflexão, a escala é capaz de não ser exactamente a mesma... eu conheço todos os dias portugueses e europeus que se deslocam a Israel pelos mais vários motivos, trabalho, turismo, turismo religioso, conheço muitos que vão a congressos científicos ou por motivo de colaborações científicas com universidades israelitas. Algum deles alguma vez deixou de lá ir por se sentir inseguro? Quantos conhece que tenham ido para a Gaza? Eu nenhum. Em primeiro lugar, e vejo por mim, que até nem sou especialmente pessimista nem medrosa, principalmente pela insegurança, nomeadamente de um raide aéreo israelita que não mata 10 mas 100. Em segundo lugar, que iriam fazer a uma terra destruída?

Com isto serei talvez acusada de anti-semitismo, é só mais uma classificação para a minha lista de antis.

Recebi esta missiva de uma representante da Jewish Voice for Peace (os sublinhados são meus):


Jewish Voice for Peace joins millions around the world, including the 1,000 Israelis who protested in the streets of Tel Aviv this weekend, in condemning ongoing Israeli attacks on Gaza. We call for an immediate end to attacks on all civilians, whether Palestinian or Israeli.

Israel's slow strangulation of Gaza through blockade has caused widespread suffering to the 1.5 million people of Gaza due to lack of food, electricity, water treatment supplies and medical equipment. It is a violation of humanitarian law and has been widely condemned around the world.

In resisting this strangulation, Hamas resumed launching rockets and mortars from Gaza into southern Israel, directly targeting civilians, which is also a war crime. Over the years, these poorly made rockets have been responsible for the deaths of 15 Israelis since 2004.

Every country, Israel included, has the right and obligation to protect its citizens. The recent ceasefire between Israel and Hamas in Gaza shows that diplomatic agreements are the best protection for civilian life.

Moreover, massive Israeli air strikes have proven an indiscriminate and brutal weapon. In just two days, the known death toll is close to 300, and the attacks are continuing. By targeting the infrastructure of a poor and densely populated area, Israel has ensured widespread civilian casualties among this already suffering and vulnerable population.

This massive destruction of Palestinian life will not protect the citizens of Israel. It is illegal and immoral and should be condemned in the strongest possible terms. And it threatens to ignite the West Bank and add flames to the other fires burning in the Middle East and beyond for years to come.

The timing of this attack, during the waning days of a US administration that has undertaken a catastrophic policy toward the Middle East and during the run-up to an Israeli election, suggests an opportunistic agenda for short-term political gain at an immense cost in Palestinian lives. In the long run this policy will benefit no-one except those who always profit from war and exploitation. Only a just and lasting peace, achieved through a negotiated agreement, can provide both Palestinians and Israelis the security they want and deserve.

23.12.08

Do ser uma teórica e Feliz Natal





sim, eu já sabia tudo de Os Deolinda sem nunca lhes ter ouvido uma nota. Que eu sou elitista e só oiço a Antena 2, leio muito, e depois acontecem estas coisas. Durante muito tempo duvidavam de mim quando eu dizia que nunca tinha ouvido um desafino ou uma brejeirice do Zé Cabra, e é verdade, continua a ser verdade. Mas este video me encantou, a rapariga tem uma bela voz, gosto da desconstrução e, neste caso, da entourage a recordar-me os meus saudosos tempos da Damaia de Baixo, sim que eu sou uma elitista mas tenho um passado, um passado que também passou por viver na Damaia de Baixo a fazer a linha de Sintra pendurada fora do comboio porque lá dentro não havia espaço. E com esta me vou e vos desejo um Feliz Natal.

19.12.08

They need, they deserve our support

Prémio o Melhor Post Natalício

Miss Allen.





E não interessa se ainda só estamos a 19, impossível surgir um melhor neste mundo e arredores.

75%



Parece-me um bom número. Porque a coisa começa mal e bem mais atrás. É normal encontrar numa turma de secundário mais de 50 % de alunos que querem ser médicos, desses 50 % nem 5 % o vão conseguir. Nas turmas de humanidades muitos alunos querem entrar em Direito embora devam ter como certo o desemprego no fim do curso, mas com dezoito anos é-se simultaneamente inconsciente, idealista e optimista; alguns podem querer ser historiadores (mas mais facilmente irão trabalhar num supermercado), poucos muito poucos querem ser professores de liceu. Na psicologia idem, um curso muito atractivo, mas com um índice de desemprego assustador. Nos últimos anos algumas engenharias e bons cursos de gestão e economia estão em alta, mas nem sempre foi assim. Dos poucos rapazes e raparigas que indicam como primeira escolha, à entrada no ensino superior, as ciências exactas ainda menos são os que querem vir a ser professores de meninos ou adolescentes.
Sempre me fez muita confusão ver, primeiro como aluna e depois como colega, engenheiros a ensinar matemática, economistas a ensinar matemática ou disciplinas relacionadas com a sua licenciatura no secundário, engenheiros químicos ou farmacêuticos a darem física e química ou ciências, arquitectos na educação visual. Não será errado admitir que foram para o ensino porque não conseguiram singrar nas suas vocações por falta de investimento ou de oportunidade, mas também porque estava mais à mão ou porque lhes dava mais tempo livre para apoio à família ou outras actividades (ainda há bem pouco tempo o dia livre era uma instituição e as férias mais que muitas) para além da segurança de se ser funcionário público. Mas não, certamente, sem alguma frustração à mistura.
Depois, e não menos importante, para se dar aulas a adolescentes/jovens (que muitas vezes não são pêra-doce) é preciso gostar deles, é necessária uma grande capacidade de empatia, é muita psicologia junta. E muitos dos que estão no ensino não têm essa capacidade nem vontade, são até nulos, como poderão gostar de dar aulas? Se somarmos a tudo isto a perda real de alguns privilégios ocorrida nos últimos tempos, e que eram apanágio exclusivo desta classe de profissionais, alguém se admira que 75% dos professores digam agora que escolheriam outra profissão. E já agora, qual?

18.12.08

vale (muito, muitíssimo) a pena conhecer

gente que faz a diferença

Lavandaria

tudo lava a água do rio: roupa colorida, louça, corpos pequenos, mamas e umbigos gigantes, dores e vozes, choros e cantos, gamelas e panos de embalar filhos; tudo com sabão azul





Ricardo França, textos de Ruth Geraldes, “São Tomé – aqui não passa avião”

São Tomé



Tudo deve cair para que aqui possamos morar,
as paredes devem ficar velhas, as janelas partidas,
para que todo o ar entre, para que não existam mais
separações: que cheguem as ervas, os lagartos,
os mosquitos; que todo o estuque se desfaça:
que a terra nos dê o que bem lhe apetecer...


Ricardo França, textos de Ruth Geraldes, “São Tomé – aqui não passa avião”

17.12.08

Da retórica


Do que eu mais gosto no Parlamento é daquele fenómeno Dupont et Dupont, as vozes off grossas e plenas de convicção de APOIADO, MUITO BEM, É ISSO MESMO, transversais a todas as bancadas. Do que eu mais gosto é daqueles senhores que ainda se acham no sec XIX, nos tempos dos Conselheiros Acácio. Há um bocado ouvi o clarividente Jorge Sampaio contar esta boutade a propósito da ausência de deputados no hemiciclo. Disse qualquer coisa como isto, quando durante dois anos foi líder parlamentar era comum olhar para trás e ver as bancadas vazias. Um dia deu conta de um deputado a ler o jornal “A Bola” e primeiro indignou-se, mas logo reconsiderou, o que é que aquele senhor ali atrás podia fazer se não ler “A Bola”... ele, Jorge Sampaio, não podia fazer o mesmo só porque ocupava a fila da frente.

Público versus privado, post sem o mínimo interesse



porque reflecte apenas a minha (ou a dos meus filhos) experiência pessoal. Os meus filhos, por muitas e variadas razões, frequentaram sempre estabelecimentos de ensino privados. No pré escolar as razões são óbvias, as escolas públicas acompanham os horários e as férias escolares do ensino básico e complementar, o que torna a logística familiar muito complicada. A partir do básico frequentaram um colégio católico daqueles dos rankings e este ano o mais velho passou para a escola-pública-dos-rankings. O rapaz anda satisfeito e com bons resultados escolares na pública tal como sempre aconteceu na privada.
O que já deu para notar na comparação, em ambas a maioria dos professores serão bons profissionais, o grau de exigência era maior na privada (é só uma pequena impressão), o número de “meninos bonitos” é equivalente nas duas (esta escola pública, como é do conhecimento geral serve uma população muito favorecida social e culturalmente).
As grandes diferenças: o grau de organização, a escola privada deve ter cerca do dobro dos alunos da pública e se calhar metade dos funcionários de secretaria, na privada muito antes do princípio do ano já se sabe ao minuto tudo o que vai decorrer ao longo do ano lectivo. Na pública, os horários são conhecidos na véspera, na próxima semana (dia 22) tenho uma reunião como representante dos EE e ainda não fizeram o favor de me anunciar a hora (coisa de somenos) e etc.
A maior diferença, o aspecto humano, enquanto que no colégio cada aluno é um aluno, apesar dos mais de mil alunos, se eu perguntar pelo J. toda a gente sabe quem é o meu filho, na escola pública, desde que não dê muitos problemas, cada aluno é apenas mais um aluno. É claro que no colégio têm as santas freirinhas que ajudam muito nesse aspecto e os miúdos mesmo na rebeldia da adolescência gostam delas (ou então transformam-nas no seu ódio de estimação o que também é saudável, para além de aumentar a consciência de grupo). No outro dia a C. foi para o colégio com uns calções para lá de curtos embora levasse por baixo uns “collants” opacos. Quando lhe perguntei como tinha corrido o dia disse-me, Ah estive a falar com a irmã O. (a coordenadora do ano dela) por causa dos calções e ela disse-me que se eu usasse estas meias não fazia mal. A mais doce de todas, a irmã da enfermaria, chegam lá os e as adolescentes, que por esta idade sofrem de muitas dores de cabeça, e ela diz “deita-te aí um bocadinho, que eu faço-te um chá de limão e isso passa já” (“mesmo quando estamos quase a morrer, mãe”) um chazinho, uma bolacha e raramente um analgésico e lá estão os miúdos prontos para voltar para a aula. São estes pequenos pormenores que a escola pública podia aprender com os bons exemplos do privado.*


* para além de que desde sempre tiveram aulas de substituição, de aprenderem inglês, latim e as origens greco-romanas da nossa civilização dentro dos curricula normais, para além da disciplina ser mantida de uma forma simples e eficaz (não, não é com castigos corporais).

16.12.08

Para que ninguém mais me pergunte



Sim, faço experiências em que utilizo animais, no meu caso ratos e ratinhos. A experiência animal é incontornável, nomeadamente nas ciências da vida. E quem pensa o contrário é ignorante. Sobre esse assunto já escrevi há algum tempo noutro local.
O Investigador que faz experiência animal tem que obter um certificado após um curso muito intensivo e que é praticamente igual em todos os países europeus.
Do que mais importante aprendemos: os 3Rs

Reduce- reduzir o número de animais utilizados
Replace – sempre que possível e cientificamente razoável substituir experiências com animais por experiências em tecidos, em células, por modelação computacional, etc.
Refine– este R refere-se ao bem estar animal, antes e depois da experiência, respeito pelos seus ritmos fisiológicos, analgesia, anestesia etc.

Há um quarto R que compete ao investigador R de Responsability!

O mais difícil


Aturamos-lhes tudo, adormecemos a dar-lhes de mamar, dormimos à porta da neonatologia quando foi caso disso, mudámos centenas de fraldas, aguentámos todas as birras, deixámos de sair, de ir ao cinema, emagrecemos a nossa bolsa até ao infinito. Tudo com um sorriso nos lábios. Mas ninguém nos preparou para isto: para ser mãe de uma filha adolescente. Quando resvalamos entre a irritação, a revolta e o sentimento de culpa. E sim, é uma questão de género.

15.12.08

De 20 anos


Quase todos, por diferentes fundamentos e motivos, se afastaram fisicamente de Coimbra. O ritmo junto ao Mondego é vagaroso, “leve-leve”, como naquelas ilhas que adoptaram o “Equador” de Miguel Sousa Tavares como livro nacional, e as pessoas têm que partir e fazer pela vida noutros lugares. Não obstante, a cidade renova incessantemente a sua sombra – e é difícil escapar-lhe. Sobretudo a 5000kms de distância.




Num dos últimos sábados juntei-me a amigos a maioria dos quais já não via há quase vinte anos. Quase todos, por diferentes fundamentos e motivos, se afastaram fisicamente de Coimbra. Pertencemos à que eu chamo, sem a mínima modéstia, a geração de oiro do TEUC, éramos muito bons (!) e penso que nenhuma geração deu tanta gente para as artes do palco profissionais. Mas outros são professores, médicos ou psicólogos, quase todos com filhos, as coisas normais. Quase todos, por diferentes fundamentos e motivos, se afastaram fisicamente de Coimbra. Eu era das poucas que dizia, eu moro já ali abaixo. Vinte anos, um dos homens disse-me, sabes, vocês as mulheres estão melhores, mais produzidas, mais sofisticadas, nós os homens, pelo contrário, só mais velhos. Não é verdade. Mas foi muito bom, genuíno e quente. O que talvez se deva, também, à sombra da cidade, sombra a que ninguém escapa.

das mulheres

Todos os dias passo as calças e a camisa do Luís. E nestas coisas ninguém acredita. As pessoas acham que sou uma depravada que escreve poesias eróticas ou então sou lésbica.


Maria Teresa Horta, Pública de ontem

Agora senti-me atingida*



Quando descobri esta pérola:

OS MELHORES PROFESSORES ESTÃO CONTRA O MINISTÉRIO. OS MELHORES PAIS ESTÃO COM OS PROFESSORES.

Ridículo e de um mau gosto inexcedível. Felizmente para eles eu, como tantos outros pais, não metemos todos os professores neste saco de mau gosto.

*porque se refere à escola onde anda um dos meus filhos (e que não fosse...) e a um comunicado da Associação de Pais dessa escola no qual não me revejo.

Ler


Ponto alto do último número “A última entrevista de António Barahona”, mérito do entrevistado (com um entrevistador à sua altura). A anos luz desta que comentei ali abaixo (desmérito do entrevistado).

Uma boa notícia

O Aba de Heisenberg de novo em velocidade de cruzeiro.

Ainda os professores (II)



Na mesma crónica Frei Bento Domingues dá conta de uma notícia do DN(6/12). A notícia vale o que vale e não percebo se não é uma interpretação do jornalista, mas, é, de qualquer modo, “inquietante”:

“A Plataforma dos Professores reúne-se com o presidente da Confederação Episcopal Portuguesa, D. Jorge Ortiga, em Fátima, para lhe pedir a bênção para os protestos contra Maria de Lurdes Rodrigues. Os portugueses estão fartos de agitação, mas são muito católicos...”

Ainda os professores (I)

“Os alunos, ao verificarem que os professores não estão dispostos a serem avaliados – a não ser como eles quiserem - podem começar também a não aceitar exames, a faltar quando lhes apetecer, a impedir os professores de entrar na sala de aulas, a não ser para os humilhar com slogans usados pelos professores nas manifestações”.

Frei Bento Domingues, Público 14/12/08

13.12.08

Aqui não passa avião

São Tomé , hoje, na FNAC de Coimbra.

11.12.08

Batata doce

Porque é que eu gosto do Brasil (onde nunca estive), dos brasileiros, e de quase (eu disse quase) tudo o que vem de lá? Alguma vez algum português de Portugal teria uma escrita assim gostosa?



via ardeu a padaria

Plano nacional de leitura: um lobo culto


Se encontrarem por aí esta história, não percam, comprem, ofereçam aos vossos filhos, sobrinhos, netos, amigos. Porque é uma história lindíssima que conta que um lobo esfomeado chega a um prado onde encontra uma vaca, um porco e um pato refastelados, cada um a ler o seu livro. O lobo, pensando na refeição garantida, salta a cerca e solta o seu mais terrível uivo. Os animais nem se mexem, o pato, não lhe liguem. O lobo desconcertado, oh seus animais, vocês não vêem que eu sou um lobo terrivelmente feroz e esfomeado. A vaca absolutamente blasée, sim está bem, mas fala mais baixo e vai ser feroz e esfomeado para outro lado que nos estás a incomodar, tu não vês que estamos a ler. Olha pega num livro e junta-te a nós. O lobo está de queixos caídos e murmura sem se dar conta, mas eu não sei ler. O porco, eu vi logo que era esse o teu problema, farias melhor se fosses aprender a ler.

A história continua com o lobo a sentar-se com muito tino na carteira da escola, a frequentar bibliotecas e a gastar os últimos tostões em livrarias. Até que um dia pode exclamar orgulhoso, eu já sei ler! E acaba com o lobo, a vaca, o porco e o pato a formarem uma troupe de contadores de histórias encantando crianças por essas aldeias e cidades fora.

10.12.08

Estou cansada dos professores


Não deste, nem daquela, ou daquela outra em particular. Mas de todos os que andam a passar o discurso do desgraçadinho e do desânimo eivado de estoicismo do, quando entramos na sala de aula esquecemos todas as nossas humilhações porque amamos o dever, amamos os nossos alunos. Ainda não descobriram que essas atitudes enjoam? Porque a seguir afirmam, querem-nos avaliar pelo sucesso/insucesso dos nossos alunos, o que daí virá, inflação de notas, facilitismo, aí está, o professor estóico e amante do dever depressa põe de parte a ética profissional em prol da sua própria avaliação. Leio que é este o modelo de avaliação na Finlândia, paradigma de todos os sucessos educativos. Já há não sei quantas semanas ou meses ou anos que não preparo uma aula em condições (porque tenho resmas de papéis para preencher), é coisa que se diga? publicamente? acham que os vossos alunos são surdos? acham que é assim lhes vão granjear o respeito de cuja falta tanto se queixam.

Andei a adiar esta escrita porque sei que só a pouca visibilidade deste blog me salva do linchamento, de ser adjectivada de negacionista, mas já não há paciência. Falta-me a paciência que me faltava perante os manifestos para que se não nascesse em Espanha, que me faltava há um ano perante os abandonados do hospital da Mealhada, que me faltava perante um país a discutir a sorte da filha do coração. E não lhes nego a justeza de algumas das reclamações.

CXLVI



É bastante doentio engolir os sentimentos a grandes colheradas, dizia Musil. A descrição da dor de Andrómaca é um bocado isto, livrou-se, da indigestão o pobre Heitor. Nós já nem usamos colheres, preferimos sorver directamente a televisão dos bertoldinhos.
Seja. Continuo a preferir os sentimentos em escabeche. O vinagre faz muita falta.



Filipe Nunes Vicente, “Amor e Ódio” na Quetzal

Dos antigos: as coéforas



fala Corifeu:

Eis pois a terceira tempestade cujo sopro regenerador se abateu sobre o palácio real. Primeiro foram as desgraças de um pai que devorou os seus filhos. Depois os reais sofrimentos dum herói, chefe de exército dos Aqueus, assassinado no banho: E agora, pela terceira vez, acaba de nos chegar o quê? A salvação? A ruína? Quando acabará, quando, por fim, se deterá adormecida, a cólera de Ate?



As Coéforas” de Ésquilo, o TEUC com encenação de Rogério de Carvalho. Esperem pela reposição oh vós que, tal como eu, amam o sentimento trágico da vida, os discursos hiperbólicos, as falas sem meias palavras. Numa encenação rigorosa e bela do Rogério de Carvalho, como sempre.

3.12.08

Istambul (VI): epílogo


Falo dos autocarros desgraçados apinhados de gente e de raparigas muito pintadas que exibem com orgulho os seus cabelos ocidentais invariavelmente loiros e olham com desdém as outras, as outras que usam com resignação ou orgulho (vá o turista saber) o véu islâmico, das crianças demasiado agasalhadas para um tépido mês de Outubro, dos autocarros que não conseguem furar por entre ruas de passeios de frigoríficos e fogões velhos à porta de lojas de motores e peças enferrujadas; falo de uma menina resignadamente sentada entre os seus pais muito jovens num autocarro dos subúrbios, uma menina de gorro de lã apertado debaixo de pescoço e com tanta roupa vestida que os bracinhos ficam afastados do corpo, falo dos pais que tagarelam sem parar e da menina que silenciosamente me pede socorro, falo da criança que sentada no chão, ao lado do avô que vende não sei o quê numa rua de Beyoglu, faz os deveres da escola sob a luz mortiça de um candeeiro da rua; dos vendedores de castanhas, coisa mais linda a maneira como exibem as castanhas alinhadas, como pode ser bela uma venda de peixes, as guelras expostas com arte.


estive em Istambul em Outubro de 2005

Istambul (V): o Hüzün


"Agora, no entanto, esforço-me por falar não da melancolia de Istambul, mas do hüzün
(muito próximo da melancolia), um sentimento interiorizado com orgulho e ao mesmo tempo partilhado por toda uma comunidade.


Falo dos fins de tarde que chegam cedo, dos pais que voltam para casa de saco de plástico na mão, sob os candeeiros de rua dos bairros afastados. Falo também dos alfarrabistas idosos que, depois de mais uma crise económica, esperam o cliente todo o dia, arrepiados de frio na sua loja, falo dos barbeiros que se queixam de que, depois das crises, as pessoas se barbeiam menos vezes; falo dos marinheiros que, de balde na mão, limpam os velhos vapur do Bósforo amarrados aos embarcadouros desertos, com um olho virado para a pequena televisão a preto e branco colocada um pouco mais longe, antes de mergulharem no sono dentro do barco; falo das crianças que jogam à bola nas ruas estreitas e empedradas por entre os carros; falo das mulheres de lenço islâmico que, de saco plástico na mão, esperam em silêncio, numa paragem perdida, um autocarro que decididamente não chega; falo dos estaleiros de caíques vazios dos antigos yali, dos cafés a abarrotar de desempregados, dos proxenetas pacientes que, nas noites de Verão, deambulam pelos passeios com a esperança de encontrarem um turista bêbado na maior praça da cidade.
Falo das multidões que nas noites de Inverno, se apressam para não perderem o vapur, das mulheres que, esperando o marido que nunca mais chega, entreabrem as cortinas para espreitarem para a rua;


das criancinhas pequenas que tentam vender lenços de papel a todos os transeuntes, das torres com os seus relógios para onde ninguém olha, da pancada que as crianças levam em casa à noite, assim como das vitórias otomanas que elas lêem nos seus livros de história, "


Orham Pamuk, Istambul, memórias de uma cidade