28.3.08

aos filhos

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-1a.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.
E por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.



Jorge de Sena
Carta a meus filhos
Sobre os fuzilamentos de Goya

O Mundo é teu





Aos 3 anos M. gosta muito do Pedro e o Lobo, de Mikis Theodorakis e de alguns trechos da Aida, gosta muito do som do contrabaixo e do fagote.

M. não é um menino prodígio, é um menino que em casa ouve essas músicas.

27.3.08

Vertigo




Vertigo, a specific type of dizziness, is a major symptom of a balance disorder. It is the sensation of spinning or swaying while the body is stationary with respect to the earth or surroundings.
The effects of vertigo may be slight. It can cause nausea and vomiting and, if severe, may give rise to difficulty with standing and walking.
The word "vertigo" comes from the Latin "vertere", to turn + the suffix "-igo", a condition = a condition of turning about.


Nos sonhos nunca fui grande coisa, mas ultimamente isso está a mudar:

Sonhei que era a artista principal do Moulin Rouge e que devia aparecer em cena vinda do céu no costumeiro baloiço. A produção hesitava nas vestimentas, haveria de aparecer de mamas à mostra ou mamas tapadas, a mim preocupavam-me as vertigens. A cena continuava com a Amália Rodrigues, no seu sumptuoso vestido negro, a subir a um escadotinho de três míseros degraus e a recolher-me nos braços. Percebi tudo menos a Amália Rodrigues.

Eles os homens

Fellini diz que antes de começar um novo filme enche cadernos com desenhos de cus e mamas (descomunais).

Noi le donne





Se existe um amor masculino, ele enrola-se na posse. O corpo delas, evidentemente, mas também a cabeça. O ciúme masculino é sempre um adiantamento que a imaginação faz ao lençol. Mas esgota-se quando chega o novo catálogo. É um amor igual ao que as mulheres têm por um par de sapatos novos.

FNV no Mar Salgado

E a culpa é da VODAFONE

quando me falavam do inferno dos sms dos adolescentes não sabia do que falavam. Um dia percebi porquê, os adolescentes aqui de casa ainda não tinham aderido à vodafone. Por aqui o tempo mede-se em antes e depois da vodafone. Antes: uns adolescentes relativamente tranquilos a utilizarem o telefone fixo, o messenger ou o telemóvel de forma mais ou menos controlada. Depois: sms a cada minuto, a cada segundo, no banho, à mesa do jantar, às duas da manhã, 1000* sms enviados por semana, muitíssimos mais recebidos. Por isso daqui apelo:

Pais e Mães de todo o Mundo uni-vos contra a Vodafone!


* Não tem graça nenhuma e é pena se não se pode fazer nada: a Vodafone “oferece” 1000 mensagens “grátis” por semana. Obviamente não oferece nada, quando muitos tarifários já não têm carregamentos obrigatórios este obriga a 12.5 euros mensais, para não falar no preço das chamadas.

26.3.08

5 anos após

A Helena Matos continua a não existir:

“Hoje, quando se pede a retirada das forças de coligação do Iraque, está a contrapor-se o quê para aquele país?”

“... parece-me muito mais grave que, escassos anos depois*, se resolva retirar porque as sondagens não estão a correr pelo melhor e porque as dificuldades são muito maiores que as inicialmente previstas**.”


Helena Matos no Público de ontem

*escassos muitos milhares de mortos depois, escassas cidades destruídas depois, escasso aumento do fundamentalismo e da insegurança depois...

** está a falar de uma guerra, de uma invasão, de um país, de gente a sério, ou de um jogo de estratégia de tabuleiro numa tarde de domingo? Quem paga à Helena Matos?

O mundo é teu

Observa interessado a faneca frita no meio do prato:

Fascinado – tchi, tem uns dentes enormes!

Perplexo – mas olha, o peixe está morto!

25.3.08

Indisciplina nas escolas



Sofia, é verdade ser professor não é para todos, principalmente ser professor de adolescentes, hormonas em turbilhão. É verdade, Rui (parabéns pelo post), a adolescência agora dá para tarde, já tinha reparado, e a universidade está cheia de adolescentes a precisarem de um bom par de estalos. Fui professora e de início fiz muitos disparates, ninguém me ensinou, aprendi à minha custa, e nos últimos anos consegui manter uma boa relação “de autoridade” com os alunos, era considerada pelos miúdos, uma profe fixe. Não me satisfazia dar aulas, mas adorava os miúdos, numa idade em que são tão espontâneos. O que não me leva de maneira nenhuma a desculpar a atitude inqualificável da menina do Porto. Quando os meus alunos me diziam de um outro professor ou de uma outra professora que ele/ela não sabia manter o respeito na aula, respondia-lhes que não era o meu colega que tinha que manter o respeito, eles, alunos, é que tinham a obrigação de se portar bem. Desculpabilizar os miúdos nessa idade só serve para que eles nunca percebam o lugar que ocupam na sociedade e o lugar que têm que ocupar pela vida fora. Na escola, na rua e em casa. Nunca aceitaria que um dos meus filhos fosse malcriado com um professor, por muito bera que fosse o professor.
Só há uma situação em que desculpo os alunos na relação com os professores: quando os professores não respeitam os alunos. E não são poucos os exemplos de professores capazes de chamar atrasado mental, ou quadrúpede a um aluno. No início de cada ano perguntava sempre aos meus alunos que tinham dois nomes próprios por qual dos nomes preferiam ser chamados, porque às vezes tinham nomes que nem ao diabo lembram. Tinha uma aluna chamada, Otelina Marina, e a professora de Ciências insistia em chamar-lhe Otelina, o que a miúda detestava. Um dia chamei a atenção da colega para isso. Resposta “e eu quero lá saber, chamo-lhe Otelina e pronto”. Depois queixam-se.
Outro dado interessante para a discussão é a falta de solidariedade entre os colegas professores, são frequentes as conversas do tipo “A sério, eles portam-se mal nas tuas aulas? Na minha são impecáveis”, acompanhadas do um sorriso entre o condescendente e o maldoso, o que faz com que, muitas vezes, seja impossível tomar as tais atitudes concertadas.

Voltarei a este assunto

Descrença: o livro

Pronto, agora li o livro, e tenho que dizer que o livro me reconciliou com a sua autora, uma mulher que não anda cá por ver andar os outros. Neste mundo do ter, eu mulher de pouca fé, faço uma vénia a uma mulher tão profundamente religiosa, mesmo quando duvida.
Uma vez ouvi um padre jesuíta dizer que crescemos em tudo menos na fé, adultos mantemos a fé da nossa primeira comunhão e por isso nos sentimos insatisfeitos. Tem carradas de razão.

24.3.08

PÁSCOA E VIDA ETERNA: O QUE QUEREMOS REALMENTE?




Porque em devir e abertos ao futuro, a esperança é princípio constituinte do cosmos, do Homem e da História. A abertura ao futuro torna-se espera no animal, que precisa de procurar o que lhe falta. Tanto o animal como o Homem esperam, com uma diferença: o animal fica satisfeito, quando obtém o que procura, mas o Homem, após a realização de cada projecto, continua ilimitadamente aberto a um para lá, que o move, num transcendimento sem fim. Segundo essa abertura ao futuro aconteça na confiança ou na desconfiança, a espera configura-se como esperança ou desesperança.

A esperança tem um duplo pólo: subjectivo e objectivo, devendo assim falar-se de esperança esperante e esperança esperada. Neste quadro, é fácil constatar no Homem a diferença constitutiva entre a primeira e a segunda: por mais que a esperança esperante se materialize nas suas realizações concretas, nunca se realiza adequadamente, continuando insuperável um abismo, de tal modo que se impõe um plus ultra, um para lá de todo alcançado. Aí está a razão por que todo o ser humano morre inacabado, insatisfeito, sempre por fazer adequada e plenamente.

Insere-se aqui a esperança pessoal para lá da morte, mas uma esperança tal que salve o ser humano real, de modo pessoal, e não numa "imortalidade" impessoal, apenas pela continuação na família, nas obras, na natureza, na sociedade...

A esperança não é certeza. Tem razões, mas não é demonstrável cientificamente. Não consiste em mero desejo, não pode ser wishful thinking. Tem de fundamentar-se no possível, em potencialidades reais. Assim, quando se pensa na vida eterna pessoal, entende-se que só Deus pode ser fundamento dessa esperança. Como viu São Paulo na Carta aos Romanos, "só o Deus que criou a partir do nada pode ressuscitar os mortos". Na sua continuação, Kant postulou a imortalidade, mas simultaneamente postulou o Deus criador como seu garante. Imortalidade pessoal e Deus pessoal criador implicam-se mutuamente.

Mas será que queremos a vida eterna?

Na sua segunda encíclica, sobre a esperança (Spe salvi), Bento XVI debate-se honestamente com esta pergunta. Reconhece que muitos hoje recusam a fé porque "a vida eterna lhes não parece algo desejável". Querem a vida presente, e a vida eterna é "um obstáculo". Continuar a viver para sempre, numa vida interminável, "mais parece uma condenação do que uma graça". Quereríamos adiar a morte, mas viver sempre, sem um final, tornar-se-ia, em última análise, "insuportável". A eliminação da morte - pense-se no romance de José Saramago: As Intermitências da Morte - faria da vida na Terra uma impossibilidade, e que benefícios poderia trazer para o indivíduo? Então, na nossa existência, há uma contradição: por um lado, "não queremos morrer", mas, por outro, "também não desejamos continuar a existir ilimitadamente nem a Terra foi criada com esta perspectiva." Que queremos então realmente?

Esta pergunta abre para outra: "que é realmente a 'vida' e que significa verdadeiramente 'eternidade'?"

O Papa responde apelando para algumas das nossas experiências - a beleza, o amor, a criação --, em que nos aproximamos do que seria verdadeiramente viver, de tal modo que aí até dizemos: assim deveria ser sempre.

No fundo, queremos esta vida, que amamos, mas plena. Queremos a bem-aventurança, a felicidade. Não sabemos exactamente o que queremos, pois é o desconhecido -- um "não sei quê --, mas neste não saber sabemos e experienciamos que essa realidade tem de existir: é ela que nos arrasta e é para ela que somos impelidos.

Não sabemos o que queremos dizer com "vida eterna". Apenas podemos pressentir que "a eternidade não é um contínuo suceder-se de dias no calendário, mas como o instante pleno de satisfação, no qual a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade". Seria o instante da submersão na imensidade do ser, na vida plena, "no oceano do amor infinito, no qual o tempo já não existe."

Na Páscoa, o que se celebra são estes mistérios do cosmos, do Homem e da História, da vida, da morte e da vida eterna.

crónica do Padre Anselmo Borges no DN do último sábado (sublinhados meus)

20.3.08

E Dawkins é o seu profeta

Zealous atheism renews some of the worst features of Christianity and Islam. Just as much as these religions, it is a project of universal conversion. Evangelical atheists never doubt that human life can be transformed if everyone accepts their view of things, and they are certain that one way of living - their own, suitably embellished - is right for everybody. To be sure, atheism need not be a missionary creed of this kind. It is entirely reasonable to have no religious beliefs, and yet be friendly to religion. It is a funny sort of humanism that condemns an impulse that is peculiarly human. Yet that is what evangelical atheists do when they demonise religion.

John Gray no The Guardian

Descrença




Segui a sugestão do Eduardo Pitta porque o tema me pareceu atraente e porque o Padre Anselmo Borges é sumamente interessante. Só não dei o meu tempo por perdido porque considero que podemos tirar o melhor de cada situação, mas aprendi pouco naquela noite. Encontrei um grupo de “católicos alternativos” e de mulheres umbiguistas e amarguradas e senti-me asfixiar em fé e amargura.





F I N I S

And now that you have just got to the end of these four volumes the thing I have to ask is, how you feel your heads? my own akes dismally as for your healths, I know, they are much better TrueShandeism, think what you will against it, opens the heart and lungs, and like all those affections which partake of its nature, it forces the blood and other vital fluids of the body to run freely thro' its channels, and makes the wheel of life run long and chearfully round.
Was I left like Sancho Pança, to chuse my kingdom, it should not be maritime or a kingdom of blacks to make a penny of no, it should be a kingdom of hearty laughing sub-jects: And as the bilious and more saturnine passions, by creating disorders in the blood and humours, have as bad an influence, I see, upon the body politick as body natural and as nothing but a habit of virtue can fully govern those passions, and subject them to reason I should add to my prayer that God would give my subjects grace to be as WISE as they were MERRY; and then should I be the happiest monarch, and they the happiest people under heaven.
And so, with this moral for the present, may it please your worships and you reverences, I take my leave of you till this time twelve-month, when (unless this vile cough kills me in the mean time) I'll have another pluck at your beards, and lay open a story to the world you little dream of.






F I N I S.

14.3.08

Semana Santa




Gosto da semana que aí vem. Não por ser a semana que vem, que nessa hei-de trabalhar como uma galega - trabalham muito os galegos? - e só na quinta-feira respirarei, mas gosto da Semana Santa em abstracto. Gosto das cerimónias pesadas -cerimónia pesada deve ser um pleonasmo- da Semana Santa de Braga e de Sevilha, e nunca lá estive. Gosto dos altares vestidos de roxo nas ruas de Guimarães. Gosto do roxo. E gosto de Paixões, segundo S. João, segundo S. Mateus, não sou esquisita com os evangelistas. Na minha terra os sinos repicavam às três horas e sentia-se um friozinho na barriga. O jejum de sexta-feira que nunca fiz. E no fim da semana a leveza do dia de Páscoa, os adoráveis e delicados doces da Páscoa , as amêndoas de cores e as de licor, o cheiro da Primavera e do doce branco.





amanhã o Requiem de Mozart em Santa Clara

Semana Santa





Gosto da semana que aí vem. Não por ser a semana que vem, que nessa hei-de trabalhar como uma galega, trabalham muito os galegos?, e só na quinta-feira respirarei, mas gosto da Semana Santa em abstracto. Gosto das cerimónias pesadas (cerimónia pesada deve ser um pleonasmo) da Semana Santa de Braga e de Sevilha, e nunca lá estive. Gosto dos altares vestidos de roxo nas ruas de Guimarães. Gosto do roxo. E gosto de Paixões, segundo S. João, segundo S. Mateus, não sou esquisita com os evangelistas. Na minha terra os sinos repicavam às três horas e sentia-se um friozinho na barriga. O jejum de sexta-feira que nunca fiz. E no fim da semana a leveza do dia de Páscoa, os adoráveis e delicados doces da Páscoa , as amêndoas de cores e as de licor, o cheiro da Primavera e do doce branco.






amanhã o Requiem de Mozart em Santa Clara

Esta noite sonhei com o chefe


F. Bacon


o chefe a chamar-me para me dizer, O SEU PROJECTO NÃO VALE NADA, e eu sumida, mas foi aprovado pela fundação, NÃO INTERESSA, NÃO VALE NADA. E O POUCO QUE SE APROVEITA FOI COPIADO DO MEU e a minha auto-confiança a sumir, a sumir. E JÁ AGORA EXPLIQUE-ME, COMO ALTERARIA ESTA LIGAÇÃO ÉSTER? O chefe não percebe nada de química, mas eu não soube responder. Ainda bem que hoje é sexta.

Caruma e eu estava lá (III)



os bailarinos e as coreografias, fantásticos!

Caruma e eu estava lá (II)



a música do Carlos Bica, fantástica!

Caruma e eu estava lá (II)



a música do Carlos Bica, fantástica!

Caruma e eu estava lá (I)



apareço ali num canto entre os segundos 58 e 59 a fazer a difícil tarefa de me sentar; antes, embora não visível, andei, vassoura em punho, no meio dos varredores de caruma.

13.3.08

Mário de Carvalho

No fim-de-semana li na Visão uma entrevista a Mário de Carvalho e gostei de quase tudo o que li. Revi-me na afirmação da importância que partidos como o partido comunista continuam a ter para uma sociedade que se quer mais justa (concordo com ele, sobretudo por serem oposição, Deus nos livre – digo eu -de os ter como governo). Hoje ouvi o Mário de Carvalho na Antena 2, de um pessimismo descabido, pessimismo em relação ao futuro, leia-se. Dizia ele, caminhamos para um país inviável; dava como exemplo as aberrações urbanísticas e arquitectónicas – ora, em Portugal nunca houve décadas tão más como as de 70 e 80, basta ver os mamarrachos que ainda pululam por aí (em Coimbra tudo o que é muito mau é dessa época); dava como exemplo a desconfiança no sistema judicial, pergunto-me se estará a piorar ou se será apenas mais visível; dava como exemplo o primado da economia sobre a política, de acordo, mas num mundo global comandado por potências económicas será difícil fugir a esta tendência e, portanto, será o mundo que se tornará inviável, espero que não. Dou como contra-exemplos uma maior consciência ecológica, um maior sentido de solidariedade, basta ver a quantidade de movimentos desse cariz que aparecem todos os dias. Definitivamente estou optimista.

12.3.08

Portugal um retrato social, ou de como isto não muda do dia para a noite

Quando eu comecei a dar aulas, em 1987, apesar de não ser licenciada, consegui um bom horário numa escola perto de Coimbra. Nessa altura tinha-se habilitação suficiente para ensinar desde que se tivesse feito 12 cadeiras (ou ainda menos, dependendo das áreas) de um curso superior. O ensino estava cheio de engenheiros, economistas, farmacêuticos e arquitectos, licenciados ou não, que não conseguiam emprego nas suas áreas e viam no ensino um meio de ganharem a vida (mesmo ganhando pouco) com pouco esforço. Ninguém se chateava muito com os inúmeros atestados médicos apresentados e o artigo 4º (desconto de dias ou horas por conta das férias) e o "dia livre" eram instituições. Eram assim muitos, mas mesmo muitos, professores.

Os alunos: não podemos esquecer que Portugal, ao tempo do 25 de Abril, tinha uma imensa percentagem de analfabetismo, enquanto que, nos países escandinavos, a obrigatoriedade do ensino até ao 9º ano vem do sec XIX. E que são necessárias várias gerações para que os resultados das políticas educativas se façam sentir e ainda que a massificação tem custos. Miúdos e miúdas como a J. e os colegas da J. encontrei eu muitos durante a meia dúzia de anos em que fui professora do liceu:




“J. , uma graça de uma rapariga. Vinha de uma família complicadíssima, com mães, pais, companheiros de mães e companheiros de pais a formarem uma teia difícil de compreender. A mãe tinha tido o primeiro filho aos dezasseis anos e a irmã de J. aos dezasseis anos estava grávida, o que fazia da mãe de J. a avó mais jovem que eu alguma vez conhecera. J. estava integrada na pior turma de míudos a quem eu alguma vez dei aulas. Como é possível ensinar física a adolescentes que não têm o mínimo dos mínimos dos conhecimentos, nem de português nem de nada, criados a porrada e a vinho? A minha luta durante todo o ano que passei com eles foi para os conseguir por a ler qualquer coisa, um livro ou o Record.
No meio da turma J. era um oásis, escolheu um livro para ler - não recomendaria o livro por ela escolhido, mas menos mal - e ia-me dando conta do ritmo de leitura. Mas J. não conseguia alcançar os objectivos mínimos (acho que era assim que se dizia), o que não era admiração nenhuma. A mãe de J. vendia no mercado municipal e J. levantava-se todos os dias às 4 h da manhã para carregar a camioneta com a fruta e os legumes. No fim do ano J. andava aflitíssima porque a mãe tinha-a ameaçado de que se chumbasse não voltava para a escola. E ambas as coisas eram mais que certas, chumbar e abandonar a escola. O conselho de turma confirmou-o, J. tinha mais negativas do que o que era permitido para passar de ano. Na minha disciplina, muito honestamente, e por mais que eu gostasse da rapariga, também deveria ter negativa. Hesitei até ao último momento, mas quando descobri que se a J. tivesse positiva a física passava de ano, mudei a nota, perante a indignação de alguns dos meus colegas. E poucas vezes me senti tão bem com a minha consciência.”

já publicado

Os poemas da minha juventude

de quando eu amava, amava perdidamente



adeus


já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
gastámos tudo menos o silêncio.
gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava!
acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos eram peixes verdes.

hoje são apenas os teus olhos.
é pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

já gastámos as palavras.
quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

e, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

não temos nada que dar.
dentro de ti
não há nada que me peça água.
o passado é inútil como um trapo.
e já te disse: as palavras estão gastas.

adeus.


Eugénio de Andrade

9.3.08

A Marcha

De facto os professores deviam estar indignados com a falta de qualidade do ensino, com o absentismo, com a ausência de participação dos pais e encarregados de educação no processo educativo, com o desrespeito de que são alvo, com a falta de disciplina, com a falta de rigor, com a ausência de formação, com a falta de dignificação da profissão docente, com o as promoções automáticas, com a inadequação de muitos profissionais, com a falta de exigência, com a normalização medíocre, com a ausência de prémio a quem merece.



Não faço ideia de quem é esta Sofia, mas não podia estar mais de acordo com ela. Estranho que nunca nada tenha movido tantas paixões e tanta gente como a questão da avaliação. E soam a muito falso os muitos que oiço dizer "Eu sou a favor da avaliação, mas não desta forma" . Dizem isto porque é esta a "forma" que está na mesa, diriam o mesmo fosse qual fosse a forma assumida.

7.3.08

Os vivos

Ontem fomos ao bando. Andámos pela Praça da República, de MP3 nos ouvidos, atrás de uma mulher e de um adolescente, misturados com todas as mulheres, homens e adolescentes que também por ali andavam. Estava muito frio. Vimos que estávamos no teatro quando a mulher e o adolescente entraram num carro que já não existe. De um café ouviam-se uns gritos, parece que o Benfica jogava aquela hora. Mais tarde o carro também entrou no teatro e no fim comemos broa fresca. A peça era sobre aqueles que não morrem com a morte, um tema muito do meu agrado. O João Brites surpreende-me sempre.

6.3.08

Da literatura

Há já muito que não falo aqui dos livros que ando a ler. Tudo por causa do Laurence Sterne e “A vida e opiniões de Tristam Shandy”. Se é o livro da vida de tanta gente, eu tinha no mínimo que ler. Trouxe da biblioteca municipal os dois volumes, e já fui devolver o segundo. E mesmo assim estou cheia de remorsos, porque me disseram que têm lá uma fila de leitores à espera do volume que tenho em mãos (uma boa oportunidade para comprarem mais exemplares). Porque me perco nas referências históricas e literárias, porque me perco nas páginas, sempre o Shandy ainda não nascido ou acabado de nascer, e estou sempre a voltar atrás. No entretanto já recomecei pela terceira vez o segundo capítulo de “Atonement” do Ian McEwan, o que é uma estupidez porque se já tinha lido a tradução portuguesa... e o “Atonement” inglês não casa bem com o Sterne, mesmo em português, e não ando boa para tarefas difíceis. No entretanto vou também lendo umas páginas de um Goethe em que tropeço pela casa “As afinidades electivas”, cuja melancolia me está a fazer bem, mas como na contracapa já me avisam da “quebra constante das expectativas do leitor” bem me parece que terá o destino dos outros dois. No entretanto encontrei um John Seteinbeck na estante “Ratos e homens” . E o Steinbeck eu sei que leio do princípio ao fim sem parar para respirar. Haja quem me reconcilie com a literatura

Memories

Ando por aí e as recordações vêm ao de cima, como se já fosse muito muito velha. No f-world a música de Laurie Anderson, aquela precisamente. E como se fosse muito muito velha, uma peça do TEUC, sei que no meu tempo do TEUC houve um espectáculo com esta música, esta precisamente, mas não me lembro em que espectáculo. Mais nítida, naquele tempo morava numa casa sem porta, qualquer um podia entrar e dizer estou aqui. E numa tarde de Verão, em que como de costume não estávamos a estudar e oferecíamos música para toda a rua, as velhotas há muito que se tinham habituado, entrou um americano, alto e loiro, porta dentro e disse, sou mórmon e fui atraído para aqui por esta música. E não ficámos surpreendidos, porque naquele tempo poucas coisas nos surpreendiam.

Creio que virá a segunda hipótese.

Nestas alturas lembro a poesia apenas por dislate; há um poema de Manuel António Pina em que se reflecte sobre «a origem da poesia» e a sua «natureza», para depois, diante de um velho funcionário de uma repartição, amedrontado no seu guichet, se fazer esta pergunta: «E o que fez a poesia por este senhor?» Fomos ficando insensíveis, provavelmente.

5.3.08

No dicionário das Pequenas Coisas






Gabela – montinho, molho; na última semana fiz gabelas (de caruma) todos os serões.
Não vem na wikipedia.

AGENDA

e ainda só é quarta-feira


sexta-feira 7

Aniversário do Café Com Arte*: com João Gentil no acordeão e Luís Formiga na bateria

“O acordeão nas mãos de João Gentil é um bilhete de avião com destino às músicas de todo o mundo: a Musette, a Polka, o Tango, a Bossa Nova e ainda o Jazz! Astor Piazzolla, Richard Galliano e Tom Jobim são cicerones do virtuosismo de João Gentil”

*na Avenida Dr Elíseo de Moura

sábado 8

11h -20hMercado do Quebra Costas: música ao vivo, livros, moda, artesanato etc. etc.


sábado 8

12h30 nos corredores da Fac Letras:

Pequenas Lembranças

15h30 na sala de Leitura da Biblioteca Geral da UC:

Abrigo I - Peça coreográfica de conjunto descobrindo em simultâneo o movimento do seu corpo e o movimento arquitectónico da Universidade. (Madalena Victorino)

16h30 na sala do Exame Privado – Reitoria da UC:

Abrigo II - Peça coreográfica e dramatúrgica partindo de uma análise das figuras dos mestres representados nesta Sala construindo um coro de movimentos sobre o poder.
(Madalena Victorino).

17h15 Pátio das Escolas:

Auprès de ma blonde - Apresentação final de espectáculo - concerto, resultante do workshop com a Fanfarra e Manu Théron.

18h30 TAGV :

Teatro Radiofónico - Partindo do processo que levou ao resultado sonoro d'Os Vivos, colocando também novas hipóteses sobre o modo e intencionalidade do texto. (João Brites)

18h-20h-21h-23h Museu da Ciência :

Lembranças (teatro) – Madalena Victorino

4.3.08

Chavez a despacho




Este homem não existe: cómico se não fosse trágico.

Tendências



Tendo para a Hillary. E bem lá no fundo sei porquê: por ser mulher. O que é uma razão menos absurda do que apoiar o Obhama por ele ter sangue negro.

Maria dos Prazeres, 76 anos, profissão, puta.





Maria dos Prazeres, puta das Ramblas, sonhou, um dia, uma noite, que morreria antes desse Natal.
Que a morte para ela não era nada, mas morrer sem ter ninguém que a chorasse na sepultura partia-lhe a alma. E em Barcelona morre-se facilmente sozinho, ainda mais naquela profissão. Restava-lhe Nói, caniche estúpido e adorado.
Maria dos Prazeres dedicou o que achava serem os seus últimos dias a ensinar Nói a chorar, depois a reconhecer a sua sepultura vazia no cementério de Montjuic e, finalmente, a fazer o caminho que vai das Ramblas ao cementério.
Ia Novembro adiantado no dia do ensaio geral, Nói trotando pelo Paseo da Gracia, Maria dos Prazeres, coração oprimido, vigiando-lhe o trote a partir do autocarro. Chegada ao cementério colou-se à terra fria e esperou.
Au, au, era Nói, Nói! Nói! Nói que chegava suado e babado e se aninhava na sepultura. E Maria dos Prazeres soube, nesse instante, que já podia morrer descansada, sem temer não ter ninguém que a chorasse.
Mas não morreu antes do Natal. Porque Maria dos Prazeres era uma puta séria mas, não era vidente.


Maria dos Prazeres, uma história da Caruma

3.3.08

Universidade oblige

Nada disto teria grande importância não fosse o caso servir de pretexto para o pessoal do costume falar da coisa como se estivéssemos em Cuba ou na Coreia do Norte.
O pessoal do costume só pode desconhecer a aristocracia universitária, tão impermeável quanto possível (aristocracia oblige) às leis do mundo que a rodeia. E até me parece, oh ironia, quase saudável o que se passou em Braga, porque, raramente, os aristocratas se metem, às claras, na vida privada dos seus pares. O que fazem pelas costas, tchi, isso daria centenas de páginas num romance de costumes. Sei do que falo, muito raramente esse é o modus operandi dessa ilustre classe. O estilo é muito mais subtil...
Sou eu que o afirmo, trabalhadora numa universidade, com um contrato mais que precário e com filhos para criar.


O dito blogue não tem o menor jeito, é uma coisinha descabelada, mas isso não interessa.

os manifestantes

Oiço os manifestantes e não os entendo. Não os entendo nas suas ameaças, se os pais soubessem como o ensino vai piorar saíam para as ruas para nos apoiar. Mas vai piorar porquê? porque eles vão passar a ter uma avaliação com que não concordam? Mas que raio de excelentes profissionais são eles?

Uns mais iguais do que os outros

-E quando procuras trabalho faz diferença se estudaste no Conservatório Nacional ou na escola xpto de Paris?
-Nenhuma, ninguém me contrata sem conhecer o meu trabalho, e às vezes leva muito tempo até que conheçam o meu trabalho.

Pos-graduação

um mergulho no mundo dos bailarinos a recibos verdes, andamos todos a recibos verdes.