29.2.08

Le Code civil nous en parlerons plus tard





Je suis d'un autre pays que le vôtre, d’un autre quartier, d'une autre solitude.
Je m'invente aujourd'hui des chemins de traverse. Je ne suis plus de chez vous.
J'attends des mutants. Biologiquement je m'arrange avec l'idée que je me fais de la biologie: je pisse, j'éjacule, je pleure. Il est de toute première instance que nous façonnions nos idées comme s'il s'agissait d'objets manufacturés.
Je suis prêt à vous procurer les moules. Mais...





Léo Ferré, La Solitude

25.2.08

CARUMA

é um espaço para anjos nascidos da terra e humanos caídos do céu. Bailarinos, música, acções em catadupa saem de um tapete de caruma. Emergindo do centro da vida, recontam-se no fluxo de um tempo musical. Pessoas da rua, bailarinos e músicos põem o público em contacto com uma comunidade que é a sua, confundindo-o e iluminando-o nessa ideia de unir o centro da sua cidade às margens da arte.





Um projecto de Arte Comunitária coreografado por Madalena Victorino, música de Carlos Bica e produção da Companhia Instável , 1, 2 e 3 de Março no TAGV

23.2.08

Não há paciência

para frases feitas como esta:

O destino de Portugal é, como sempre foi, apodrecer ao sol.

VPV no Público

Em que ficamos?

Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

Oiço na rádio um porta-voz da CE dizer que Portugal está no bom caminho em termos de emprego, leio no jornal que a SEDES, organização isenta e credível, profetiza calamidades sociais para Portugal. Eu sei que o índice de emprego é só um dos factores de estabilidade social, mas é importante, não é? Em que ficamos?

A carramulita

Fui a primeira filha, a primeira neta e primeira bisneta, a primeira sobrinha, a primeira. A Isabelinha, o bebé lindo do seu pai.
O meu reinado foi curto, um ano depois nascia o meu primeiro irmão e, logo a seguir, a minha irmã parvinha. A minha irmã pequenina e engraçadinha, a escolhida para todas as representações, porque se era assim, uma delícia de criança, e eu... a carramulita. Ainda fui uma vez escolhida para menina das alianças, mas na hora de as entregar ao Padre fugi pela igreja fora. Menina das alianças nunca mais, até porque havia a minha irmã. Ainda fui uma vez a escolhida para levar o ramo de flores numa cerimónia protocolar, mas entreguei o ramo à pessoa errada e dei cabo do protocolo. Entregar ramos de flores em cerimónias oficiais nunca mais, porque felizmente para os adultos, havia a minha irmã, que nunca se enganava na pessoa a quem devia entregar as flores - e se se enganasse era imediatamente desculpada, tão engraçadinha.
A minha irmã era a minha vergonha e o meu pesadelo. Um dia, casava-se o meu tio e a minha irmã parvinha ia ser a menina das alianças, num vestido de bordado inglês, touquinha branca na cabeça. Eu nem havia de ir mas, na hora da cerimónia, não tiveram a quem me deixar e, à pressa, enfiaram-me num vestido horrível, xadrez castanho, castanho! como se fora menina de orfanato. Fecho os olhos e vejo-me como se estivesse no cinema, eu, no meu horrível vestido castanho, as pernas muito magras e uns óculos na cara, a coser-me pelos cantos, observando de longe a minha irmã, touquinha branca, vestido de bordado inglês, esbanjando charme, tão engraçadinha.

Do riso

Muitas vezes temo ser demasiado parecida com o frade cego do “Nome da Rosa”, aquele que considerava o riso obra do diabo. Detesto o riso desbragado, o riso grosseiro, o riso de quem se acha muita piada a si próprio, e o humor óbvio, e o humor a que o meu pai chamava “humor lisboeta”. Irritam-me os engraçadinhos.
Muito pequena, a minha bisavó, que inventava palavras e inventava nomes para as pessoas, chamava-me carramulita, o que significava qualquer coisa como criança séria e sem graça. Era em tudo o oposto da minha irmã, eu alta e escanzelada, ela pequenina e redondinha, uma graça. A minha irmã que, por se saber engraçada, não perdia uma oportunidade de dizer uma daquelas parvoíces que os palermas dos adultos deliram ouvir da boca de uma criança. E eu de longe a olhá-la com desdém.

21.2.08

A menina Cunegundes

Por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos


David Mourão Ferreira

A semana:

A entrevista: foi mole, muito mole, não sei se por mérito do pm se por desmérito dos jornalistas, possivelmente as duas coisas. Teorias de conspiração é que já enjoam.

O Kosovo: quando aterrei no aeroporto de Lubliana em 2003 dei conta que o aeroporto serve, para além da Eslovénia, muito da ex-Jugoslávia . Na partida, no balcão de check-in anunciava-se em letras garrafais, proibido viajar com “guns” na bagagem. E mais à frente: proibido transportar mais do que (um nº com dezemas de zeros) tolares em dinheiro. De onde que conclui o que já sabia, por ali há muita gente de pouca confiança.

Dalila Rodrigues: acompanhei o "folhetim" da saída de Dalila Rodrigues do Museu Nacional de Arte Antiga. Ontem a Dalila esteve no canal 2, a propósito de um livro publicado e da Casa da Música e não gostei do que vi. Um discurso vácuo numa imagem de afectação. Que desgosto.

Cuba: falar de Perestroika parece-me no mínimo um exagero.

Amigos da Cultura: ainda não consegui perceber o que se passou ontem no TAGV.

19.2.08

As mães

"No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e
apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas."



Herberto Helder, Fonte II
in "Poesia Toda"

Migas

Numa casa com dois adolescentes o frigorífico e a despensa estão sempre vazios e nas idas ao supermercado o carrego de iogurtes, bolachas e fruta é sempre tão grande que não sobra espaço, paciência e dinheiro para coisas mais exóticas. Eis porque esta receita me convém e muito. É estranha porque parece alentejana, mas como não tem coentros nem poejos é transmontana. Cortam-se fatias de pão, de centeio para ser trasmontana, e colocam-se num prato, ferve-se água com alho, sal e azeite bastante e molha-se o pão com este caldo, estrela-se um ovo em azeite (o que eu gosto de ovos estrelados), o ovo vai para cima do pão, no azeite de estrelar o ovo aloira-se um dente de alho e rega-se tudo com este azeite e come-se muito quentinho. Simples e bom.

Stabat mater

por um momento debruçadas
na escada para o vão da escada
olhando tão fixamente
que os olhos se cruzam e os pontos
se reúnem num só ponto cego

Ontem seguia atrás de uma ambulância do INEM que rodava muito devagarinho, e um nó a apertar-me as tripas; que ao menos vá para o hospital dos adultos, que vá para o hospital dos adultos, e a estúpida da ambulância a virar para o das crianças.
São assim as mães, como se fora um filho delas.

18.2.08

Num jornal de referência*

O que o jornalista escreve:

Portugal irá reconhecer Kosovo "na altura própria" e depois de "ponderadas as circunstâncias"

leio e interrogo-me “mas para que raio adiar se já afirma que vai reconhecer”

O que o ministro dos NE disse:

"na altura própria, ponderadas as circunstâncias", Portugal tomará a decisão "que entender deve ser tomada".


o que para o jornalista é o mesmo.

Ainda se isto não fosse o pão-nosso de cada dia.


*no Público on-line

Kosovo: que independência?

imagem retirada de http://www.publico.clix.pt/



quando oiço que os milhares de manifestantes empunhavam bandeiras da Albânia e dos Estados Unidos.


O “Amor de Perdição”, contado às crianças

“Domingos Botelho Meneses, apesar de ser mesmo muito horroroso, ao ponto de assustar o medo e pôr a noite a fugir a sete pés, era um homem inteligente”

“quando chegaram a Vila Real, D. Rita pôs-se logo a mandar vir com o marido”,



Inacreditável?

ao cuidado dos incautos: I am a rock

A rock


You Are Rock

Powerful and overbearing, you intimidate people with your presence.
People know they can't push you around, and they respect that.
Deep down, you are calm, confident, and unmovable.
You take everything pretty seriously, and you think deeply about all aspects of your life.

You tend to feel smothered by paper people.

You don't mind crushing the spirit of a scissors person.

When you fight, you: Use all of your strength

If someone makes you mad: You're likely to throw something at them

16.2.08

O vinho e a literatura, duas magníficas coisas

Bernard Pivot, intelectual, divulgador cultural (Bouillon de Culture etc.) e escritor francês, conta na Visão desta semana, histórias de vinho e de livros e a certa altura recorda histórias de encontros com escritores que, simultaneamente, foram grandes bebedores:


“O caso mais evidente foi o de Bukowsky, que bebeu duas garrafas durante a emissão e se foi embora a meio para ir à casa de banho, depois de tentar tocar nas coxas da senhora ao lado. Estava insuportável! Um episódio divertido foi o de Nabokov. Disse-me que beberia uísque durante o programa, mas não queria dar maus exemplos. Eu que deitasse o uísque num bule e lhe perguntasse se queria chá. Assim fiz.”

15.2.08

Emigrantes



via A Ervilha Cor de Rosa



Desde muito pequena tive que partilhar as minhas férias de verão com os avecs. Passava as férias numa aldeia da Beira Alta e as famílias de emigrantes eram os intrusos que nos roubavam uma coisa a que só nós tínhamos direito: o rio, que nos enchiam as tardes de espalhafato, de Ricardô viens ici, e o rio de sabão, porque iam para lá também para tomar o banho que nas casas onde veraneavam não podiam tomar.
Muito mais tarde fiz uma viagem inesquecível desde Paris, sozinha, num autocarro de emigrantes. Calhou-me por companhia, atravessando a Espanha numa noite sem sono, um português, com um bócio até aos joelhos, que tinha em Paris a bonita profissão de coveiro. Contou-me a vida desde pequenino, falou sobretudo da desgraçada da mulher que o tinha abandonado, que o tinha trocado por outro (pelo meio havia umas histórias de infidelidades da parte dele, coisas de somenos importância). Pela madrugada, à medida que nos aproximávamos de Vilar Formoso e o meu cansaço aumentava, aumentava também o volume e o tom das músicas gravadas cheias de Portugal e de bacalhau.
Quando, pela minha vez, fui uma pseudo-emigrante, num país de que desconhecia a língua, embora com a enorme vantagem de ser uma pessoa culta a falar a língua franca, percebi melhor algumas das muitas dificuldades por que passaram aquelas gentes, incultas, idas dum país medievo, dificuldades de que em muitos casos (na maioria dos casos?) foram vencedores. O meu respeito aumenta quando vejo fotografias como estas.

Na foto uma menina portuguesa, numa "bidon ville", transporta a boneca seguindo a tradição das mães e avós portuguesas.



“Por uma vida melhor”, fotografias de Gérald Bloncourt, a partir de 18 de Fevereiro no Museu Colecção Berardo

Caruma

Muitos anos depois volto a pisar o palco. O “Caruma”, espectáculo de arte comunitária, viaja pelo país e, quando chega a uma cidade, convida os residentes a participarem no espectáculo ao lado dos bailarinos e músicos profissionais. Em Coimbra vão estar em palco desde bebés que começam agora a andar a velhos de 80 anos. E eu também.
Ontem tivemos a primeira reunião com a coreógrafa/encenadora Madalena Vitorino. A Madalena é uma mulher linda, de profundos olhos verdes que cativam ao primeiro olhar. O design do espectáculo fez-me recordar os meus tempos do D. Quixote com o TEUC, naquele mesmo palco, tal como agora sentindo a proximidade do público que partilhava o palco connosco.

Ficámos todos ansiosos por começar os ensaios.


O espectáculo “Caruma” vai estar em cena no TAGV nos dias 1,2 e 3 de Março.

14.2.08

Da fé

Acredito na crença -. Ou melhor tenho fé em ter fé. No entanto, sou ateu - ou ‘bright’, designação actualmente preferida por alguns. Então como é isto possível? É importante ter fé, mas não necessariamente em Deus. A fé é importante muito para além do mundo da religião: termos fé em nós próprios, noutras pessoas, na existência da verdade e da justiça.

(Tor Norretranders, escritor dinamarquês)

no De Rerum Natura

Democrata ou Republicana?

You Are 72% Democrat

You have a good deal of donkey running through your blood, and you're proud to be liberal.
You don't fit every Democrat stereotype, but you definitely belong in the Democrat party.



via Controversa Maresia

Ok, se fosse americana votaria nos Democratas, não precisava de ter feito o quiz para saber isso. Mas seria mais “democrata”, de acordo com o quiz, se tivesse escolhido como verdadeira a afirmação “Gay people are fabulous - you love them”, mas como não generalizo, mesmo conhecendo alguns bem fixes...

13.2.08

Da Infância

Tenho na minha frente uma edição de 1942 do livro de Monteiro Lobato “A Chave do Tamanho”: Historia da maior reinação do mundo, na qual Emília, sem querer, destruiu temporariamente o tamanho das criaturas humanas, que foi comprada num alfarrabista por tuta e meia, por ter sido considerado que o livro estava em mau estado.

Abre-se na primeira página e lê-se, escrito a tinta azul, numa letra de menina muito desenhada a aparo:

Ao nosso querido irmão
oferecemos este livro
como recordação do seu 9º aniversário.

Maria Luiza e Orlando, Salve 12-8-43


fica-se sem saber o nome do irmãozinho que fez 9 anos e a quem foi oferecido o livro, mas não se duvida de que se divertiu muito a lê-lo, que o leu e releu, que junto com os irmãos brincaram muito ao Pedrinho e Narizinho e que, nessas brincadeiras, Orlando tinha que fazer de Emília, porque Maria Luiza, tão bem comportada, nunca acederia a ser uma boneca tão desastrada.

Medeiros Ferreira sobre o governo de José Sócrates

Dizia alguém muito antigo, tão antigo que já não me lembro quem, que a principal arte de governar consistiria em saber ceder. Impor é uma mera questão de poder, enquanto ceder envolve uma questão do poder consigo mesmo. Filosofias que não merecem ser ensinadas nos tempos modernos.

Coisas que me irritam ainda mais

A facilidade com que hoje em dia se utilizam as palavras destruir, fascismo, se chama o 1984 ao discurso, se apelida à esquerda e à direita de ignorante, ditador. Alguém acredita que o comum dos mortais ande a ler relatórios de 400 páginas para depois se poder pronunciar? e para quê? basta ler as gordas dos jornais, ouvir meia dúzia de patacoadas e já se pode empregar qualquer dos vocábulos supracitados, e de preferência todos juntos e adicionar o isto está cada vez pior, com a máxima das autoridades.

Coisas que me irritam

a expressão mai nada.

Padre António Vieira, um optimista?

Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas terras para a sepultura. Para nascer, pouca terra, para morrer, toda a terra; para nascer Portugal, para morrer o mundo.

a citação que anda por aí.

Vê-se logo




Há quanto tempo não fazia um quiz. E este fez-me loiríssima, pele muito clara...olhos apaixonados.



hoje à noite, o Dexter Serial Killer justiceiro

12.2.08

La donna è mobile

a barra ali do lado vai mudando ao sabor dos apetites, la donna è mobile/
qual piuma al vento
, e nem sempre me apetece chocolate, que nunca ninguém se sinta ofendido por de lá ter saído, mas nunca digo não ao vinho tinto com pão e queijo, muta d'accento/ e di pensiero.

Meninos






São várias famílias a morarem na mesma casa. Moram na ladeira do pára-arranca e por isso as vejo todos os dias no meu caminho para o trabalho. São naturalmente romenas, e todos os dias as vejo, mulheres e crianças que também saem para o trabalho. Se o meu dia se fizesse por ali, haveria de as encontrar pelas ruas da Baixa, a lerem a sina ou simplesmente a mendigarem. Mas ontem, que diferença, as crianças corriam alegres à frente das mães, as crianças iam de bibe azul claro e de mochilinha às costas, as mães também iam felizes. E o meu dia começou mais leve.

da razão porque ontem não fui ao TAGV



Zidane, um Retrato do Séc. XXI
de Douglas Gordon e Philippe Parreno




porque só de ouvir o nome do zizou fico enjoada. Se tivessem, como eu, passado 3 semanas a ouvir de manhã à tarde e à noite uma nação aos gritos de Zidane, Zidane va gagner, Zizou, Zidane, Zizou. Se quisessem ler um jornal e desde o Liberation ao Le Monde a capa fosse invariavelmente Les Bleus e dentro dos azuis Zidane e Zizou e Zidane, se tivessem de ver todo um povo em transe tentando adivinhar o que é que um italiano de um raio teria dito ao zizouzinho e que lhe fez perder a compostura e um presidente da república mais república do mundo a vir a público para defender o zizouzinho que se enervou. C'etait La France.

8.2.08

todos temos um passado

Segunda-feira, 4 de Fevereiro, Vila Nova de Gaia, Avenida da República

Rodin




1º Juízo do Tribunal ... , 12 h.

Se o inferno existe fica ali naquela secretaria e os(as) funcionários(as) não passam de almas penadas. Naquele inferno as almas penadas encontram-se literalmente mergulhadas em resmas de processos, olha-se e só se vêem montanhas de papel branco alternando com algumas folhas azuis, nas estantes, no chão, em cima das secretárias, em cima do balcão de atendimento, parece-me que até penduradas do tecto. Nada mais que papel e almas penadas que aparecem e desaparecem periodicamente. Tem que se esperar pacientemente que uma das almas se encontre à vista e “Pst, sou advogado, Processo .... , venho consultar o processo”. A alma penada nº 1 movendo-se sem quase tocar com os pés no chão é incrivelmente rápida e eficaz a encontrar o referido processo e a desaparecer imediatamente. Outras almas penadas pairam por ali. “Pst, eu não queria levar o processo, poderei fazer umas cópias?”. “De momento não lhas posso fazer, mas pode ir ali à tabacaria da esquina...” e desaparece. A tabacaria da esquina está fechada, foram de Carnaval. “Pst, vou deixar cá o processo e peço-lhe que logo que possível me faça as seguintes cópias... quer tomar nota...?”. As almas penadas evitam qualquer contacto com os mortais, por isso sussurram de longe “Importa-se o Sr. Dr. de anotar o que quer? Tem aí uma folha em branco.” e desaparecem de novo.

4.2.08

De como eu não posso vir a ser primeira-ministra

Nos fins dos anos 60 inventava coisas que não tinha e não fazia para impressionar as minhas amigas. Nos anos 70 roubei algumas vezes chocolates nos supermercados. Nos anos 80 fiz a maior trapalhada de curso, tive exames especiais, fizeram-me orais que não existiriam normalmente (no meu curso não havia orais) só para verem se me tiravam dali. Em 1989 passei um cheque careca de 2 contos e só vim a saber do caso quando muitos anos mais tarde soube que o meu nome estava na lista negra. Nos anos 90 fiz menos um dos exames de acesso a um mestrado porque o meu filho nasceu no dia do exame e o coordenador do mestrado entendeu dispensar-me do exame. Por umas quantas vezes declarei nas finanças ser trabalhadora independente quando na verdade trabalhava todos os dias das 9 às 5 para uma só instituição (parece-me que neste caso a instituição recibos verdes é que devia ir para o banco dos réus, mas nunca se sabe). E por tudo isto ser verdade, e sei lá que mais verdades existirão ainda, não sou ministeriável, nem secretariavel e estarei condenada a viver feliz com o meu passado obscuro.

2.2.08

As crianças terríveis



Na última semana li dois livros que separados por 50 anos abordam a mesma temática, a tragédia de duas famílias que o não são, porque nelas não existem adultos. Se o “Jardins de Cimento” (1978) de Ian McEwan é estranho, inquietante e terrível, “As crianças terríveis” (1929) de Jean Cocteau leva os três adjectivos à sua máxima expressão.
De como as coisas são como são independentemente da época em que ocorrem,

O regresso



muitos, muitos anos depois regresso à fase clerasil.*


*expressão da Alexandra