23.2.08

Do riso

Muitas vezes temo ser demasiado parecida com o frade cego do “Nome da Rosa”, aquele que considerava o riso obra do diabo. Detesto o riso desbragado, o riso grosseiro, o riso de quem se acha muita piada a si próprio, e o humor óbvio, e o humor a que o meu pai chamava “humor lisboeta”. Irritam-me os engraçadinhos.
Muito pequena, a minha bisavó, que inventava palavras e inventava nomes para as pessoas, chamava-me carramulita, o que significava qualquer coisa como criança séria e sem graça. Era em tudo o oposto da minha irmã, eu alta e escanzelada, ela pequenina e redondinha, uma graça. A minha irmã que, por se saber engraçada, não perdia uma oportunidade de dizer uma daquelas parvoíces que os palermas dos adultos deliram ouvir da boca de uma criança. E eu de longe a olhá-la com desdém.