28.12.07

Onde guardaste?



Minha mãe, onde guardaste
o retrato de um bebé
que tu dizes que era o meu
e agora já não é?

Minha mãe, onde guardaste
as botas de cabedal
que tu dizes que eram minhas
e onde não cabe o meu pé?

Minha mãe, onde guardaste
o raminho de alecrim
que tu dizes que eu te dei
para tu o receberes de mim?

Minha mãe, onde guardaste
a caixinha das tolices
que tu dizes eu troquei
por um saco de meiguices?

Minha mãe, onde guardaste
os sonhos que eu não sonhei
que tu dizes que eram meus
e agora já não são?

Maria Alberta Meneres

Onde guardaste?





















Minha mãe, onde guardaste

o retrato de um bebé

que tu dizes que era o meu

e agora já não é?


Minha mãe, onde guardaste

as botas de cabedal

que tu dizes que eram minhas

e onde não cabe o meu pé?


Minha mãe, onde guardaste

o raminho de alecrim

que tu dizes que eu te dei

para tu o receberes de mim?


Minha mãe, onde guardaste

a caixinha das tolices

que tu dizes eu troquei

por um saco de meiguices?


Minha mãe, onde guardaste

os sonhos que eu não sonhei

que tu dizes que eram meus

e agora já não são?


Maria Alberta Meneres

27.12.07

Benazir Bhutto






Benazir Bhutto 1953-2007

Sem Palavras




Benazir Bhutto 1953-2007

Pastelinhos de Bacalhau

O Jamie Olivier só inventa. O homem é bastante engraçado, algumas vezes inspirador, mas não o levem demasiado a sério.
Contaram-me (contaram-me porque eu não vi o programa, mas confio em quem me contou) que ele no outro dia estava a fazer pastelinhos de bacalhau (uma receita brasileira ! (sic)) na companhia de um brasileiro (ou mais? não retive esse pormenor). Como não tinha bacalhau seco, utilizou um outro peixe seco (quem me contou não conseguiu perceber qual) e depois entendeu da receita que aquilo levava muita salsa, o Jamie abusa das ervas como quem o conhece já sabe. Mas achou que só salsa era pouco criativo e toca de juntar... o quê?... Hortelã! bolinhos de bacalhau, que não são de bacalhau, mas sabe Deus de que peixe seco, com hortelã (nhec!).

Prémio "A melhor história de Natal 2007"

A do Pai Natal da Ericeira do Pedro Rolo Duarte.

21.12.07

Um Poema de Natal

Para mim conto de Natal é o conto do Garrinchas do Miguel Torga Andava a pensar nisso, nos mais belos contos e poemas de Natal. Ontem fui à Quinta das Lágrimas ouvir a minha prima Inês e o Victor de Sousa interpretarem o que a Inês chama “as mais belas canções portuguesas”. Embora não fizesse parte do programa, porque estamos no Natal, o Victor de Sousa disse, e disse muito bem, este poema, também do Miguel Torga.


Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.


Miguel Torga, Antologia Poética, Coimbra, Ed. do Autor, 1981

Veneza



Para mim, que nunca saí da Europa, as duas cidades mais fascinantes são Istambul e Veneza. Para o que muito contribui a história, para o que muito contribui a água.
Estive em Veneza num mês de Junho, dizem que é mais bela no Inverno.... Dormi numa pousada na Giudecca e nunca hei-de esquecer o apanhar do último vaporeto na Praça de S. Marcos, numa noite quentérrima e muito, muito, húmida. Sei um bocadinho de italiano, e por estupidez e ideias preconcebidas sempre achei que o nome da ilha, Giudecca, devia derivar de giochi, jogo. A minha faceta turista a vir ao de cima, Veneza, Carnaval, Máscaras, Jogo. Hoje a ouvir uma gravação do Questões de Moral, do Joel Costa, fiquei a saber que a Giudecca era a ilha dos judeus (muito mais óbvio). Que lá viveram e prosperaram (pelo menos alguns) até que em 1519, a Sereníssima República, bem pouco serena, os resolveu enviar e enclausurar numa outra ilha. Nessa ilha fundiam-se metais para produzir as munições que defenderiam a Sereníssima, e a essa actividade chamavam os italianos guettar (não sei se com esta ortografia), de onde surgiu a denominação de Guetto dada aquele local. O primeiro gueto da história.

20.12.07

O Porto do Pireu



Quando estive em Atenas fui passear até ao Pireu. Fui sozinha, ninguém quer ir passear ao Porto do Pireu. Todos os meus colegas tinham ido no dia anterior, para embarcarem nos cruzeiros das ilhas dos parolos, nos cruzeiros de turistas, em que servem maus almoços de turista acompanhados de genuínas danças populares gregas para turista. Eu vaguei pelo meio dos navios enormes, pelo meio dos imensos ferry-boats que levam pessoas a sério, aqueles que vivem mesmo nas ilhas e que vieram a Atenas para ir ao médico, ou visitar familiares, ou tratar do passaporte que lhes permita ir morar para longe. O Porto do Pireu não tem nada de bonito, de bonito só as uvas vendidas aos cestos na estação dos comboios. Mas eu tinha que ir ao Pireu, tinha de ir lá e imaginar-me a entrar num navio de viajante, nunca num cruzeiro de turista.

O pai, a mãe, os filhos, o colégio, as notas e as grandes cabeças

Ontem vi-o de novo, ao sabujo ronc ronc. Estava a família completa, o pai porquinho a mãe porquinha e os dois filhos porquinhos. Suavam ansiedade na espera das notas do colégio. Eu desesperava numa fila de pais, odiando aqueles que se sentavam em frente à directora e que nunca mais de lá saíam, como se o futuro dos filhos fosse ali decidido, ali, naquele preciso momento. Chegou a vez da família porquinha sabuja, nem deram por mim, tanta era a ansiedade. De longe ouvia-lhes uma palavra aqui, outra ali, discutiam as percentagens dos testes e comparavam com as notas do final do período, ronc, ronc, ronc, ronc...
A certa altura ouvi claramente o pai porquinho “mas ele tem uma boa cabeça, não tem?” e vi a directora abanar a cabeça para cima e para baixo. E tornou o pai porquinho “Pois ele tem uma boa cabeça, isso é o que interessa. Há-de ir longe, ronc, ronc”.

19.12.07

Sin las niñas non se puede vivir

Sin las niñas non se puede vivir, como no puede vivir la terra sin luz.
El niño ha de trabajar, de andar, de estudiar de ser fuerte, de ser hermoso: el niño puede hacerse hermoso aunque sea feo; un niño bueno, inteligente y aseado es siempre hermoso. Pero nunca es un niño más bello que cuando trae en sus manecitas de hombre fuerte una flor para su amiga, o cuando lleva del brazo a su hermana, para que nadie se la ofenda: el niño crece entonces, y parece un gigante: el niño nace para caballero, y la niña nace para madre.

José Martí, La Edad de Oro, 1889

14.12.07

Fernanda Botelho

Tenho quase a certeza absoluta de que nunca li uma obra de Fernanda Botelho, talvez tenha lido alguns excertos nas antologias de português do secundário que durante anos a fio devorei. Durante muito tempo o título “Esta Noite Sonhei com Brueghel” fez parte dos meus sonhos, não sei porquê. Acontece-me fixar-me obsessivamente num conjunto de palavras, mesmo que às vezes nem lhe perceba o sentido, desde muito pequena que sou assim. Não me recordava sequer da figura da Fernanda Botelho, vejo-a agora, distinta e elegante. Condizendo com a beleza sensível e triste deste excerto que encontrei no Portugal dos Pequeninos:

“Tudo à minha volta assume um cariz gerôntico. Estou a viver como uma espécie em vias de rápida extinção, ao lado da minha irmã, também ela invadida pela poeira branca do tempo, a esboroar-se rapidamente (...) Que torturada morte é esta ainda estúpida vida?"

11.12.07

Green Mountain

O tempo é lerdo, a vida baça...

Brilha o céu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça, o gesto flácido. Debaixo de sombras irisadas, leio e releio os meus livros, passeio, rememoro, devaneio, pasmo, bocejo, dormito, deixo-me envelhecer. Não consigo comprazer-me desta mediocridade dourada, pese o convite e o consolo do poeta que a acolheu. Também a mim, como ao Orador, amarga o ócio, quando o negócio foi proibido. Os dias arrastam-se, Marco Aurélio viveu, Cómodo impera, passei o que passei, peno longe, como ser feliz?


Um Deus passeando pela brisa da tarde, Mário de Carvalho

O tempo é lerdo, a vida baça...



Brilha o céu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça, o gesto flácido. Debaixo de sombras irisadas, leio e releio os meus livros, passeio, rememoro, devaneio, pasmo, bocejo, dormito, deixo-me envelhecer. Não consigo comprazer-me desta mediocridade dourada, pese o convite e o consolo do poeta que a acolheu. Também a mim, como ao Orador, amarga o ócio, quando o negócio foi proibido. Os dias arrastam-se, Marco Aurélio viveu, Cómodo impera, passei o que passei, peno longe, como ser feliz?


Um Deus passeando pela brisa da tarde, Mário de Carvalho

10.12.07

Da educação das crianças



A série ODI et AMO do Filipe Nunes Vicente, tem já um imenso clube de fãs na blogosfera. Como mãe e educadora destaco hoje o ODI et AMO (LVIII). A ler de manhã e ao deitar.



7.12.07

A cimeira das incertezas?

A boa notícia é que os responsáveis europeus afirmaram que confrontarão politicamente o presidente do Zimbabué sobre a questão dos Direitos Humanos no seu país. Mas a má notícia é que não se percebe porque é que os demais conflitos em curso no continente não hão-de ser discutidos, bem como a má governação e a corrupção que estão a privar muitos africanos dos benefícios do desenvolvimento social que se pretende construir com a iniciativa da cimeira; nem porque os responsáveis políticos do Congo, de Angola, do Sudão, do Ruanda, da Etiópia, da Eritreia, da Somália não hão-de ser também confrontados sobre a questão dos Direitos Humanos e das liberdades nos seus países.

Excerto do editorial da Além-Mar, sublinhados meus, ler aqui.

6.12.07

Turismo Infinito

Tive o privilégio e o prazer de ter trabalhado, embora durante muito pouco tempo, com o Ricardo Pais. Uma das vantagens de se pertencer (no caso de ter pertencido) a um grupo de teatro universitário, TEUC, é a possibilidade de se trabalhar com encenadores e com outros profissionais de teatro de topo. O Ricardo Pais, senhor de um ego desmesurado, é excelso como encenador e acompanha-se sempre de cenografias lindíssimas. Infelizmente agora não tenho oportunidade de ver muitos dos seus espectáculos. O último foi “A Castro” no Teatro de S. João, já lá vão alguns anos. Hoje adivinhei-lhe a voz na Antena 1 e não vou perder o Turismo Infinito, ainda por cima tendo por base textos de Fernando Pessoa.
Quando procurei saber mais sobre o espectáculo encontrei a carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro da qual reproduzi um pequeno trecho no post abaixo, dias assim triunfais só muito pouquinhos os podem ter.

O Dia Triunfal de Fernando Pessoa


“O dia triunfal da minha vida”

Sobre a génese dos heterónimos

Fernando Pessoa*

Ano e meio, ou dois anos, depois lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta, mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 –, acerquei-me de uma cómoda alta e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, “O Guardador de Rebanhos”. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio também, os seis poemas que constituem a “Chuva Oblíqua”, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente… Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.
Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.

* Excerto de Carta a Adolfo Casais Monteiro (13 de Janeiro de 1935). In Correspondência: 1923-1935. Lisboa: Assírio & Alvim, 1999. p. 342-346.


retirado daqui

5.12.07

O Regabofe

Todos os dias lamento o tempo que passo nisto dos blogs. Todos os minutos em que por aqui ando penso que devia estar a fazer coisas mais importantes, que podia estar a fazer coisas mais interessantes e para as quais depois já não me sobra tempo.
Tive um tio-avô, muito rigoroso e disciplinado e que, se calhar por assim ser, morreu como muito mais de 90 anos. Um dia esse meu tio contou-me que um médico lhe havia receitado um cálice de vinho do Porto todas as noites (não sei para que mazela). E o meu tio, obediente e disciplinado, todas as noites bebeu o cálice de vinho do Porto. Até que numa das noites descobriu que já não podia passar sem ele, que lhe apetecia. E desde essa noite nunca mais bebeu. O meu tio não gostava de vícios, dizia ele. Pois eu ultimamente sofro até de enjoo, não sei se da vesícula biliar se dos blogs, e digo a mim mesma, nunca mais, nunca mais, vejo-me até esverdear. O mal passa-me quando descubro coisas preciosas como esta (via Luís, obrigada).

Laços de Ternura

-Ficarei contigo, querida Helen; ninguém me levará daqui.
-Estás quente, querida?
-Estou.
-Boa noite, Jane.
-Boa noite, Helen.
Beijou-me e eu beijei-a; não tardou que ambas adormecêssemos.
Quando acordei, era dia; um movimento desusado despertou-me. Olhei. Estava ao colo de alguém. Era a enfermeira que me levava para o dormitório. Não me ralharam por ter saído da minha cama; tinham mais em que pensar; não responderam às minhas perguntas; só um ou dois dias depois soube que, quando Miss Temple voltara de manhã para o quarto, me encontrara deitada na cama com a cara no ombro de Helen e os braços em volta do pescoço. Eu dormia e Helen ... estava morta.

Charlotte Brontë, Jane Eyre

Laços de Ternura

-Ficarei contigo, querida Helen; ninguém me levará daqui.
-Estás quente querida?
-Estou.
-Boa noite, Jane.
-Boa noite, Helen.
Beijou-me e eu beijei-a; não tardou que ambas adormecêssemos.
Quando acordei, era dia; um movimento desusado despertou-me. Olhei. Estava ao colo de alguém. Era a enfermeira que me levava para o dormitório. Não me ralharam por ter saído da minha cama; tinham mais em que pensar; não responderam às minhas perguntas; só um ou dois dias depois soube que, quando Miss Temple voltara de manhã para o quarto, com a cara no ombro de Helen e os braços em volta do pescoço. Eu dormia e Helen ... estava morta.

Charlotte Brontë, Jane Eyre

Jane Eyre

Acabei de ler “Jane Eyre” cuja história já conhecia de uma série de televisão. No ano passado li uma biografia fascinante das irmãs Brontë e pus na minha lista os livros da Emily e da Charlotte. No entretanto também li alguma coisa de Jane Austen. Comparando as três, a Jane Austen e a Emily são umas meninas ao pé de Charlotte. Charlotte é uma grande, grande romancista, caracterizadora perfeita do que de mais fundo existe em cada ser humano.

3.12.07

Matem! Matem!

Domingo, três da tarde. Atravesso a ponte pedonal sobre o Mondego empurrando o carrinho do M, 3 anos. A ponte está cheia de passeantes. À minha frente segue um sujeito, cabelos compridos, pretos e muito bem cuidados, um sobretudo de veludo preto quase até aos pés, na mão leva uma trela de cão, sem cão. Um pouco mais à frente duas crianças pequenas (entre os quatro, seis anos), quando se viram vejo-lhes os rostos lindos, angelicais, emoldurados por cachos de caracóis negros, vestem roupas caras. O pai chama os miúdos e diz em voz alta, podem começar a matar, matem! matem! Reparo que os miúdos têm em cada mão um revólver, uma boa imitação das armas verdadeiras, mas parecem não perceber o que é que o pai quer que eles façam, estão incomodados. Pasmo. Quando ultrapasso os miúdos, o mais velho pára a olhar para o meu filho. O pai reparando no interesse do miúdo acirra-o, mata-o, mata-o. Não digo nada, que poderia eu dizer? Sigo o meu caminho a pensar: não configurará isto um caso para a Comissão de Protecção de Menores?