28.3.06

Da Tolerância – o que verdadeiramente importa ler

O Islão, na sua forma mais genuína, é uma religião pacífica. Aliás, o termo tem raiz na palavra «assalam», que quer dizer precisamente paz. Esta é a minha experiência de oito anos na Etiópia, um país em que cristãos e muçulmanos vivem lado a lado, num ecumenismo de boa vizinhança.

Porém, recentemente a situação começou a mudar, com a chegada ao país de missionários islâmicos preparados nas madrassas da Arábia Saudita. Trouxeram consigo um Islão conflituoso e agressivo, imposto como contrapartida pelas ajudas sauditas e financiado pelos petrodólares. A Casa de Saud diz-se guardiã do Islão. O que defende é o seu poder e influência através do Wabbismo, uma versão distorcida e fundamentalista da religião. .
Como a Arábia Saudita repousa sobre os lençóis de petróleo que alimentam o nosso bem-estar, os governos ocidentais assobiam para o lado e confrontam o dito terrorismo islamista em países pobres e indefesos
O mundo contemporâneo está cada vez mais plural. No mesmo espaço geográfico convivem culturas, tradições, religiões diferentes. O futuro de paz passa pelo diálogo inter-religioso concertado, deixando de lado provocações, confrontos e revanchismos. E assumindo os erros históricos que cada grupo cometeu, sarados através do perdão mútuo. Ou será que as democracias ocidentais não podem viver sem um «inimigo de estimação»?

José Vieira “Além-Mar” de Março,

sublinhados meus

24.3.06

Um Milagre

Era Agosto, sábado, um dia muito quente, e estávamos em férias na serra: avós, filhos e netos. Pela hora de almoço recebemos um telefonema do meu irmão, o único que não nos tinha podido acompanhar “Puseram-nos um bebé à porta de casa! está num caixotinho, com umas fraldas e um biberão”. Alguma confusão (nunca ninguém está preparado para uma notícia destas), instruções para trás e para a frente “deve ter para aí dois meses”, “ferve água e dá-lhe às colherinhas”. Etc etc etc.
O bebé foi para o hospital para ser avaliado, tirando uma ligeira desidratação estava óptimo e os médicos calcularam que deveria ter uns quinze dias. Foi-lhe dado um nome e a seu tempo foi registado, seguiu-se o inquérito policial que não lhe encontrou os pais.
Entretanto o bebé crescia em graça e em segurança numa instituição em que os bebés são realmente amados. E final feliz, o processo de adopção correu rápido e o menino já passou o Natal com os que são agora os seus pais.
Hoje recebi uma carta da directora da instituição que o acolheu : “hoje o menino veio visitar-nos, está grande e muito muito bem tratado, como já era antes é muito tranquilo e observador, um amor de bebé, este menino é um milagre!”.


23.3.06

O que verdadeiramente importa ler

Durão Barroso: o erro compensa.

Da vida pequenina dos nossos dias


Esta fotografia (passe a publicidade, não sou accionista da empresa em questão) fez-me lembrar o meu T0 de Basileia. No espaço de menos de 2 m2 tinha a banca da cozinha com o frigorífico por debaixo, o fogão, e sem qualquer porta a separar, apenas uma cortina de plástico, o chuveiro. Felizmente tive uma alma caridosa para me esclarecer das vantagens daquela geografia: podes tomar o teu duche e lavar os pratos ao mesmo tempo, depois só tens que os atirar para a bancada para secarem.
Este ano devo ir passar uma temporada a Paris e pasmo com os anúcios: “deux piéces, 25 m2 “, alguns ainda se atrevem a chamar espaçoso a um apartamento de 30 m2. O preço? Uma agradável surpresa – acima de 1000 euros/mês. Pior que isso só os hotéis “de gavetas” que me dizem haver no Japão.

21.3.06

Primavera

"Good morning, how are you?
The weather's fine, the sky is blue-
It's perfect for our seminar..."


r.e.m

Me and the TV

Todos os dias, ou pelo menos sempre que posso, ligo a televisão às 20.45 no canal 2:. Durante meia hora rio com as vidas, só aparentemente intricadas, dos “Friends”. Nem sempre consigo sincronizar as minhas gargalhadas com as gargalhadas enlatadas, aliás preferia que não me avisassem de quando devo rir. Mas passo uma boa meia hora prozacquiana.
A seguir desligo o aparelho. Até ao dia seguinte às 20.45. O que só tem vantagens, sobra-me mais tempo para o que realmente me interessa, não me exalto com o que os outros me dizem ser de exaltar, nem me perco nos 99% de lixo que por lá passa.

As notícias que são verdadeiramente importantes ainda o serão passados quinze dias ou um mês, e ao sábado leio o jornal.

E ainda evito que “aquele cujo nome não pronuncio” me entre pela casa dentro. Nessas alturas sempre me lembro do meu bisavô que, na demência dos últimos anos, antes de se despir desligava a televisão que tinha no quarto para as meninas não o verem, em minha casa também só entra quem eu quero.

20.3.06

O meu avô José

O meu avô José faria anos por estes dias de Março. Nasceu numa aldeia minhota e era filho de lavradores mais ou menos abastados. Nunca deixou de ser um minhoto dos pés à cabeça. Apesar de não ter nascido no pior dos berços não passou pela cabeça dos meus trisavós pô-lo a estudar. O meu avô tinha duas irmãs e não havia outro varão para herdar e cuidar das terras. E é o meu avô José que conta na sua Autobiografia:

- O primo de Virães mandou-me perguntar
Um dia, em que me ouviu cantar atrás do arado,
Se em vez de lavrador, de certo um depenado,
Não queria tomar uma outra actividade;
Tirar um cursozinho (como era vontade
Sua e da mana). Se fosse do meu gosto,
Se eu sentisse desejo e estivesse disposto
A estudar com os primos da casa do Outeiro,
Pagavam do seu bolso, davam-me dinheiro,
Para estar num colégio ou em qualquer pensão.


A mana do primo de Virães era madrinha do meu avô e resolvera custear os estudos do afilhado. Tinha o meu avô José dezasseis anos quando rumou à casa do Padre Álvaro Cruz que o preparou para o exame do segundo ano do liceu. Depois, entre Guimarães e Braga, acabou o liceu e chegou a Coimbra.

E como ele conta:

Consegui encafuar-me na rua das Flores,
Onde alguém me guardara um quarto pequenino
A fim de prosseguir, feliz, o meu destino.
Não tendo luz eléctrica – em casa não havia –
Estudei alemão, inglês, filosofia.
Estudei com prazer, também literatura,


Foi colega de curso do Vitorino Nemésio e privou com o Miguel Torga e José Régio. Foi aluno do Paulo Quintela a quem temia. Os versos dedicados ao Vitorino Nemésio no Livro de Curso são da autoria do meu avô e ao que me parece os dois eram bastante chegados. Contava o meu avô que ia estudar amiúde para casa do Nemésio, que, ao contrário dele, era rico e vivia confortavelmente. E que, durante as tardes de estudo, a criada trazia para a mesa pratinhos com línguas de gato, mas quando chegava a hora do lanche apenas o Nemésio era convocado, ficando o meu avô às voltas com o buraco que tinha no estômago.
E apesar do afortunado amigo se ter tornado escritor e poeta famoso enquanto ele, que também tinha pretensões a poeta, coleccionava filhos e ensinava línguas a meninos do liceu, apesar disso, o meu avô José nunca perdeu a estima pelo colega açoriano. Sempre recordo a quase veneração com que assistia aos “Se bem me lembro” do Nemésio – ai do neto que fizesse barulho ou o distraísse do programa.

Eu também compro

Que não é por esse senhor agora ser o Presidente de todos os portugueses que passei a achar, como muitos, que ele está mudado e a gostar mais "daquele cujo nome não pronuncio".

O que importa verdadeiramente ler

Não podemos ter leis do Canadá e respostas sociais da Tanzânia.

17.3.06

Da verdadeira solidão

A verdadeira solidão é quando se olha
para uma flor maravilhosa
e não se pode dizer: repara como esta flor é bela.
Nisso consiste a verdadeira solidão,
Em não poder partilhar essa beleza com alguém.


Gino
um homem que vive na rua

Michel Collard e Colette Gambiez “Quando o excluído se torna o eleito”

16.3.06

Amnésia

A primeira vez que o vi, foi à porta da sala de aula. Era a primeira aula da manhã, hora sempre difícil. Mesmo assim tive a certeza de nunca ter visto o rapaz, muito menos naquela turma. Porque o ano já ia em Março.
-Olá, és novo por aqui? A resposta veio desconcertante: -Não me lembro.
- Bom, vamos entrar, falamos lá dentro.
Os colegas começaram todos a querer falar ao mesmo tempo- chegou ontem, e é maluco.
-Ordem na sala, aqui ninguém é maluco. Vens transferido de outra escola?
-Não me lembro. Eu estava a fazer fisioterapia no Hospital da Universidade.
-Ah, estiveste doente?
-Não sei- e insistia na história da fisioterapia.
Era mesmo maluco. – Ok, falamos no fim da aula.
Era esta a história: o rapaz, pelos treze anos, andou meses a ser tratado da sinusite, só que a sinusite era um tumor cerebral. O rapaz foi operado, a operação não terá corrido bem e passou meses em coma. Já ninguém acreditava nele quando um dia resolveu acordar. E quando acordou ninguém sabia o que fazer com o rapaz: era amnésico, sobretudo tinha perdido a memória de tempos curtos.
E um dia apareceu na porta da minha sala de aula. E todo o apoio que eu e os meus colegas tivemos foi: façam o melhor que puderem. E ali fiquei eu, a fazer o melhor que podia, com um rapaz inteligente, mas que a meio da aula se esquecia de onde estava e a fazer o quê.
Ser professor tem estas coisas fantásticas e escrevo esta história para que um dia não me venha a esquecer disso.

15.3.06

A Alma Gémea


Após meses de mensenger estavam ambos certos de ter encontrado no outro a sua alma gémea. Prepararam cuidadosamente o primeiro encontro ao vivo. Nenhum pormenor foi descurado e a ansiedade era muita.
O encontro foi muito breve. Intenso, mas muito breve. Afinal eles já se conheciam, tinham mesmo sido casados durante alguns anos.

13.3.06

Adolescentes (III)

J. , uma graça de uma rapariga. Vinha de uma família complicadíssima, com mães, pais, companheiros de mães e companheiros de pais a formarem uma teia difícil de compreender. A mãe tinha tido o primeiro filho aos dezasseis anos e a irmã de J. aos dezasseis anos estava grávida, o que fazia da mãe de J. a avó mais jovem que eu alguma vez conhecera. J. estava integrada na pior turma de míudos a quem eu alguma vez dei aulas. Como é possível ensinar física a adolescentes que não têm o mínimo dos mínimos dos conhecimentos, nem de português nem de nada, criados a porrada e a vinho? A minha luta durante todo o ano que passei com eles foi para os conseguir por a ler qualquer coisa, um livro ou o Record.
No meio da turma J. era um oásis, escolheu um livro para ler - não recomendaria o livro por ela escolhido, mas menos mal - e ia-me dando conta do ritmo de leitura. Mas J. não conseguia alcançar os objectivos mínimos (acho que era assim que se dizia), o que não era admiração nenhuma. A mãe de J. vendia no mercado municipal e J. levantava-se todos os dias às 4 h da manhã para carregar a camioneta com a fruta e os legumes. No fim do ano J. andava aflitíssima porque a mãe tinha-a ameaçado de que se chumbasse não voltava para a escola. E ambas as coisas eram mais que certas, chumbar e abandonar a escola. O conselho de turma confirmou-o, J. tinha mais negativas do que o que era permitido para passar de ano. Na minha disciplina, muito honestamente, e por mais que eu gostasse da rapariga, também deveria ter negativa. Hesitei até ao último momento, mas quando descobri que se a J. tivesse positiva a física passava de ano, mudei a nota, perante a indignação de alguns dos meus colegas. E poucas vezes me senti tão bem com a minha consciência.

10.3.06

Gemendo e chorando

E eu que até tinha começado o dia contentinha. Tinha que vir alguém lembrar-me desta tristeza, desta vergonha.
Nós tristes munícipes de Coimbra concordamos consigoJorge Melícias (veja aqui e aqui e aqui e ...), mas que havemos nós de fazer, o homem não vai embora, nem quem de direito o põe na rua.

9.3.06

Parabéns Matilde

A bailarina


Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.


Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.


Cecília Meireles

7.3.06

Adolescentes (II)

C., 15 anos, uma estranha mistura de raças, vivia numa instituição. Dizia-se que era filha de uma relação entre uma jovem muito rica e de um seu serviçal. Dizia-se. Dizia-se que a mãe não a tinha reconhecido e que ao fim de pouco tempo o pai também desaparecera deixando-a a uma ama, que por sua vez quando lhe faltou o dinheiro para as fraldas e para o leitinho decidiu que não tinha qualquer obrigação de a criar. Dizia-se.
De certo sei que C. aos 15 anos tinha como verdadeira obsessão vir a encontrar os pais. Na altura, passava na televisão um programa de encontrar pessoas e a C. todos os dias me falava em como tinha que lá ir. C. foi minha aluna após um ano que passou parcialmente num serviço de psiquiatria. Foi-me apresentada com o rótulo de esquizofrenia. Uma vez por semana dava-lhe uma aula individual e acabei por ter com ela uma relação muito chegada. Era uma rapariguita tímida e desintegrada que se sentia em segurança junto a adultos. Muitas vezes pedia-me boleia para casa e conversávamos… Deixei de dar aulas e perdi-lhe o rasto. Encontrei-a três anos mais tarde, na rua, muito feliz com um bebé de colo, “é o meu menino”. Já não vivia na instituição e obviamente não tinha encontrado os pais, mas também não fiquei a saber onde vivia. Pobre C., pobre menino.

6.3.06

O pior dessa coisa chamada blogosfera (II)

Depois de ler alguns dos centos de comentários aos posts do VPV fico muito satisfeita com a média de 0.23 comentários por post das pequenas coisas.

As Botas


Mr Brontë desejava fazer dos filhos crianças rijas e indiferentes aos prazeres da mesa e do vestuário.
...
Mas dava-se a esse objectivo com pródigos cuidados. A enfermeira de Mrs. Brontë contou-me que um dia em que as crianças tinham andado pela charneca debaixo de chuva, convencida de que elas traziam os pés molhados, tratou de procurar umas botas de cor que uma amiga lhe dera. Depois foi pô-las ao pé do fogão da cozinha, para que aquecessem. Quando as crianças voltaram as botas tinham desaparecido. Por toda a parte notava-se um cheiro intenso a cabedal queimado. Mr. Brontë, que entrara na cozinha, ao ver as botas, e entendendo que eram demasiado vistosas e ricas para os seus filhos, e que podiam incutir neles o amor do luxo, resolveu queimá-las.

As Irmãs Brontës, Margaret Lane.

Adolescentes (I)

M. tinha 14 anos quando foi meu aluno numa turma de 8º ano. M. vivia numa roulote colocada num terreno baldio nos arredores da cidade. Começava o dia com coca-cola e na escola pouco comia porque não lhe agradava a ementa. De início tivemos algumas disputas por causa de um boné que ele teimava em nunca tirar e que, mandava a boa educação e as regras da escola, que ele não devia usar na aula. Ganhou ele e o boné, pelo menos nas minhas aulas. Mau aluno como convém a um rapaz que vive numa roulote – e o local onde vivia não devia ser o seu maior problema- era um rapaz sensato e perspicaz. Um dia no fim da aula deixou-se ficar para trás e atirou-me “Oh Prof posso perguntar-lhe uma coisa?”, claro que podia. “A Prof está grávida?”, embatuquei, estava, mas ainda ninguém sabia lá na escola. Ao meu espanto perante a pergunta, rematou “Por nada… nota-se!”.

2.3.06

Um poema para a minha amiguinha Matilde

Boa Noite

A Zebra quis
ir passear
mas a infeliz
foi para a cama

- teve de se deitar
porque estava de pijama.

Sidónio Muralha

Da Literatura

“Se gostas de poesia, é bom que gostes de poesia de primeira ordem: Milton, Shakespeare; Thomson, Goldsmith, Pope (se quiseres, pois eu não o admiro nada), Scott, Byron, Campbell, Wordsworth e Southey. Não te assustes com os nomes de Shakespeare e de Byron. Ambos foram grandes homens e as suas obras parecem-se com eles. Saberás como escolher o bom e evitar o mau, as mais belas páginas são sempre as mais puras, as más são invariavelmente revoltantes, nunca te apetecerá tornares a lê-las. Omite, as comédias de Shakespeare e o Dom Juan, talvez o Cain, de Byron, embora o último seja um poema admirável, e lê o resto sem receio algum. Não poderá deixar de ser um espírito depravado aquele que encontre malícia no Henry VIII, no Richard III, no Macbeth, no Hamlet e no Julius Cesar. A poesia suave, bárbara, romântica de Scott não te pode fazer mal nenhum. Como o não farão nem Wordsworth, nem Campbell, nem Southey – a maior parte do que ele escreveu, pelo menos. Algumas das suas obras são, realmente, discutíveis. Em matéria de história lê Hume, Rollin e a História Universal, se puderes, eu nunca foi capaz. Quanto a ficção, lê o Scott apenas, todos os romances escritos depois dele não valem nada.”

De uma carta da adolescente Charlotte Brontë a uma amiga que lhe pediu uma lista de livros.

In As Irmãs Brontës, Margaret Lane.

Dias sem árvores


Ontem fomos a Vale de Canas.
As chuvas de Inverno levaram as cinzas e os esqueletos das árvores foram cortados.
Alguns, desportistas, teimam em correr na paisagem lunar.
Aqui e ali há a promessa de que tudo volte a ser como antes*.
*Com menos eucaliptos e mais carvalhos e castanheiros, espera-se.