28.1.09

Intermezzo




afogada em dead-lines.

26.1.09

Há 16 anos

desisto, quero ir para casa, não sei como há mulheres que têm mais que um filho*, desisto, não quero mais.





* e no entanto, um ano depois, lá estava outra vez, sorriso imbecil estampado no rosto, fui uma parideira frustrada, só tive três filhos.

Hope








"clique" numa das imagens.

23.1.09

Que alguém o diga (III)

Hoje (contrariamente ao que acontece em certas sociedades primitivas) uma ética da guerra é uma aberração.


José Gil,

Visão, 22/01/09

Do amor

A sua imagem acompanhava-me mesmo até aos locais mais hostis a qualquer romance.




James Joyce, Gente de Dublin

22.1.09

o Sr Jardim


Sempre fui muito má com figuras de estilo, no 10º ano (?) a professora de português desesperava porque eu era bastante boa aluna, mas na análise dos Lusíadas nunca me ocorriam mais do que as metáforas e as personificações. Por isso tenho ainda mais dificuldades do que o Rui em classificar «Alberto João Jardim vai estar no dia 23 no Clube dos Pensadores.»!

Da minha infância


Em minha casa havia muitas crianças, mas também uns pais atenciosos e tivemos sempre uma empregada interna. Nunca adormeci sem um “com Deus me deito, com Deus me acho lá vai a I. pela cama abaixo”, umas cócegas e um beijo. Gritos só os das crianças, não me lembro de os meus pais gritarem connosco, coisa de que os meus filhos não se podem gabar. Quando o meu pai estava uns dias fora, em trabalho, guerreávamos para dormir na cama da mãe.
No entanto:
Quando eu tinha 7 anos e andava na 1ª classe o meu irmão mais novo, com dois anos, ficou doente e teve que ser internado no hospital. Todos os dias, no fim da escola, eu rumava sozinha ao hospital. Ainda recordo o silêncio de um corredor muito comprido e branco com muitas portas grandes amareladas. O meu irmão ocupava um “quarto particular” também enorme, uma cama imensa para o tamanho dele, ao lado a minha mãe esperava que eu, 7 anos, a revezasse a fazer companhia e brincar com o meu irmão enquanto ela ia dar aulas ou ver como andava a nossa casa. Hoje, quando penso nisso, parece-me inacreditável.
Um bocadinho mais velha, mas ainda na escola primária, havia outro irmãozinho lá em casa (lá em casa havia com muita frequência um irmãozinho novo), quando ele tinha um ano dormia no meu quarto, e a minha mãe preparava à noite um biberão que eu lhe dava de manhã antes de ir para a escola. Hoje, quando penso nisso, parece-me inacreditável.

21.1.09

Será o Benedito!


Na semana que passou um amigo, chegado do Brasil ,trouxe para o meu filho mais novo um livro de Mário de Andrade com o conto que aqui se transcreve. Livro que venha pela mão deste meu amigo é sempre belíssimo. Desta vez alertou “M. vai ter que ser sua mãe a contar para você, que isto às vezes é meio complicado”. É! a ilustração de Odilon Moraes é linda, mas tive que explicar mais ou menos a tuberculose, ainda bem que o Benedito tinha desistido de ir para a cidade, e acabei com o Benedito a levar o coice do burro mas a ficar vivinho. O conto (crónica, assim se designa) fica aí para que se deliciem.



"A primeira vez que me encontrei com Benedito, foi no dia mesmo da minha chegada na Fazenda Larga, que tirava o nome das suas enormes pastagens. O negrinho era quase só pernas, nos seus treze anos de carreiras livres pelo campo, e enquanto eu conversava com os campeiros, ficara ali, de lado, imóvel, me olhando com admiração. Achando graça nele, de repente o encarei fixamente, voltando-me para o lado em que ele se guardava do excesso de minha presença. Isso, Benedito estremeceu, ainda quis me olhar, mas não pôde aguentar a comoção. Mistura de malícia e de entusiasmo no olhar, ainda levou a mão à boca, na esperança talvez de esconder as palavras que lhe escapavam sem querer:

— O hôme da cidade, chi!...

Deu uma risada quase histérica, estalada insopitavelmente dos seus sonhos insatisfeitos, desatou a correr pelo caminho, macaco-aranha, num mexe-mexe aflito de pernas, seis, oito pernas, nem sei quantas, até desaparecer por detrás das mangueiras grossas do pomar.

***

Nos primeiros dias Benedito fugiu de mim. Só lá pelas horas da tarde, quando eu me deixava ficar na varanda da casa-grande, gozando essa tristeza sem motivo das nossas tardes paulistas, o negrinho trepava na cerca do mangueirão que defrontava o terraço, uns trinta passos além, e ficava, só pernas, me olhando sempre, decorando os meus gestos, às vezes sorrindo para mim. Uma feita, em que eu me esforçava por prender a rédea do meu cavalo numa das argolas do mangueirão com o laço tradicional, o negrinho saiu não sei de onde, me olhou nas minhas ignorâncias de praceano, e não se conteve:

— Mas será o Benedito! Não é assim, moço!

Pegou na rédea e deu o laço com uma presteza serelepe. Depois me olhou irônico e superior. Pedi para ele me ensinar o laço, fabriquei um desajeitamento muito grande, e assim principiou uma camaradagem que durou meu mês de férias.

***

Pouco aprendi com o Benedito, embora ele fosse muito sabido das coisas rurais. O que guardei mais dele foi essa curiosa exclamação, "Será o Benedito!", com que ele arrematava todas as suas surpresas diante do que eu lhe contava da cidade. Porque o negrinho não me deixava aprender com ele, ele é que aprendia comigo todas as coisas da cidade, a cidade que era a única obsessão da sua vida. Tamanho entusiasmo, tamanho ardor ele punha em devorar meus contos, que às vezes eu me surpreendia exagerando um bocado, para não dizer que mentindo. Então eu me envergonhava de mim, voltava às mais perfeitas realidades, e metia a boca na cidade, mostrava o quanto ela era ruim e devorava os homens. "Qual, Benedito, a cidade não presta, não. E depois tem a tuberculose que..."

— O que é isso?...

- É uma doença, Benedito, uma doença horrível, que vai comendo o peito da gente por dentro, a gente não pode mais respirar e morre em três tempos.

— Será o Benedito...

E ele recuava um pouco, talvez imaginando que eu fosse a própria tuberculose que o ia matar. Mas logo se esquecia da tuberculose, só alguns minutos de mutismo e melancolia, e voltava a perguntar coisas sobre os arranha-céus, os "chauffeurs" (queria ser "chauffeur"...), os cantores de rádio (queria ser cantor de rádio...), e o presidente da República (não sei se queria ser presidente da República). Em troca disso, Benedito me mostrava os dentes do seu riso extasiado, uns dentes escandalosos, grandes e perfeitos, onde as violentas nuvens de setembro se refletiam, numa brancura sem par.

Nas vésperas de minha partida, Benedito veio numa corrida e me pôs nas mãos um chumaço de papéis velhos. Eram cartões postais usados, recortes de jornais, tudo fotografias de São Paulo e do Rio, que ele colecionava. Pela sujeira e amassado em que estavam, era fácil perceber que aquelas imagens eram a única Bíblia, a exclusiva cartilha do negrinho. Então ele me pediu que o levasse comigo para a enorme cidade. Lembrei-lhe os pais, não se amolou; lembrei-lhe as brincadeiras livres da roça, não se amolou; lembrei-lhe a tuberculose, ficou muito sério. Ele que reparasse, era forte mas magrinho e a tuberculose se metia principalmente com os meninos magrinhos. Ele precisava ficar no campo, que assim a tuberculose não o mataria. Benedito pensou, pensou. Murmurou muito baixinho:

— Morrer não quero, não sinhô... Eu fico.

E seus olhos enevoados numa profunda melancolia se estenderam pelo plano aberto dos pastos, foram dizer um adeus à cidade invisível, lá longe, com seus "chauffeurs", seus cantores de rádio, e o presidente da República. Desistiu da cidade e eu parti. Uns quinze dias depois, na obrigatória carta de resposta à minha obrigatória carta de agradecimentos, o dono da fazenda me contava que Benedito tinha morrido de um coice de burro bravo que o pegara pela nuca. Não pude me conter: "Mas será o Benedito!...”. E é o remorso comovido que me faz celebrá-lo aqui."


Mário de Andrade

19.1.09

Americans


robert frank

16.1.09

O autocarro



No Jugular segue a polémica do autocarro. Como por lá disse, o dito autocarro diverte-me como o non-sense dos Monty Pynton. Se para os ateus Deus não existe para quê sequer falar dele, ou então para quem é a mensagem? e o que significa exactamente dizer não se preocupem?
O autocarro faz-me lembrar os habitantes de Macondo que, quando temeram estar a perder a memória, escreveram no centro da vila “Deus existe”, não fossem esquece-lo. Não puseram foi a hipótese de a amnésia se estender à leitura. What’s the use (nos dois casos)?

Esmeralda



Só hoje dei por este post da Joana. No meu caso se ainda não escrevi até nem foi por preguiça, foi quase por uma vontade de deixar a menina em sossego, embora saiba que o que eu aqui escreva não vai aquecer nem arrefecer à exposição mediática a que esta criança esteve (está) sujeita. E os que a motivaram e a permitiram, esses sim chicoteiem-se.
Não me admira o coro de barbaridades que oiço e leio porque sei que a ignorância impera. Já contei aqui que, há poucos anos, deixaram-nos um bebé recém-nascido à porta da nossa casa de família. Foi óbvio para nós, depois de socorrer o bebé, comunicar imediatamente à polícia. Pois houve muita gente, e não gente ignorante, que nos perguntou se não tínhamos ficado com a criança, se não tínhamos querido ficar com a criança.
Anda o bom povo português entretido com a Esmeralda como se fosse caso único em Portugal, sem saber que dramas muito maiores envolvendo crianças existem ao virar da esquina, mas o que não aparece na televisão e nos jornais não existe. Mais graves são as opiniões emitidas por quem devia saber mais e ser mais responsável: ia vomitando quando ouvi o super-psicólogo Sá afirmar naquela voz irritante e glico-doce que ambas as famílias deveriam levar um cartão amarelo e depois, ou se entendiam quanto a uma guarda conjunta ou... (o Salomão do sec XXI); ou uma outra que afirmou histericamente que Esmeralda podia até morrer (no final morreremos todos, é verdade). A vaidade de ser tomado como entendido e opinion-maker ensandece muito boa gente.
Por razões que não interessam tenho conhecimento de perto de vários casos de adopções, mudanças de paternidade, e do que tenho observado digo que uma criança está bem com quem a ama, uma criança não está bem se viver no meio da mentira, da chantagem e da disputa. É a minha opinião.



A ler também o Corta-Fitas

Que alguém o diga (II)




Que quem condenou a invasão do Iraque, que quem constata o que é o Iraque e o mundo 6 anos depois, admita o que se passa em Gaza, que me perdoe, mas só o pode fazer por má consciência.

Que alguém o diga

As crianças estão bem com quem gosta delas

M- Tiveste saudades minhas?
-Tive
M- Porquê?
-Porque não te via desde manhã. E tu tiveste saudades minhas?
M- Não!


Ainda seja, meu filho, é sinal que estás bem no sítio onde passas os dias.

15.1.09

Álvaro de Campos

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,
Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,
Unia razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.

...

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

Chamo-me Nuno Miguel da Silveira Machado de Moura

Tenho vinte e oito anos. E tenho asma. Escrevo poesia para aprender gramática, o que produz excelentes efeitos nas minhas dificuldades respiratórias.





Nuno Moura “Nova Asmática Portuguesa”

(na contra-capa)

poema 13

Quem nunca pecou que
atire a primeira pedra.

todos se agacharam mas
até os grãos se tornaram
incrivelmente pequen
os.

alguém disse: é o perdão
de deus.

alguém reparou: mas o mar
vem aí.




Nuno MouraNova Asmática Portuguesa”

14.1.09

the magic dragon



Tive um namorado pelo qual muito penei e agora, à distância, não compreendo e até coro de vergonha quando penso nisso, como pôde o meu pobre coração bater tanto por sujeito tão foleiro. Era daqueles que trazia no bolso das calças uma lista de anedotas para contar nos momentos próprios e que tocava viola para encantar raparigas ingénuas.
Hoje deve ser um pepedoca instalado e barrigudo, para meu descanso nunca mais o vi. Mas nas horas de maior inocência da minha fase teenager, felizmente para o meu são crescimento nem todas as horas foram assim passadas, juntávamo-nos à volta do tal sujeito e da sua viola e cantávamos com empenho músicas como esta. As coisas que descubro por .

Gostar de Bach



Oh memória minha, porque me trais? No outro dia um cantor português (está bem, de música ligeira) dizia numa revista qualquer coisa acerca de Bach que agora me falha, mas não fugirei muito à verdade se disser que era qualquer coisa como isto “gosto de Bach, é diferente das coisas que se fazem actualmente”. Pois é, perdoai-lhe Senhor, que a culpa não é dele mas deste pobre país que culturalmente ainda tem muito que andar.

O Cardeal Patriarca de visita ao Casino


Pois o Cardeal Patriarca no casino não me parece nada de condenável, nem que estivesse nas slotes. E se calhar concordo com ele, se filha minha quisesse casar com um muçulmano eu dir-lhe-ia o mesmo, pensa bem. Porque a diferença cultural na maioria dos casos é abissal, porque as mulheres não são tratadas da melhor forma, e estou a ser eufemística, nas sociedades muçulmanas. Mas há muçulmanos e muçulmanos e há pessoas e pessoas, e se eu, uma “maria-ninguém” poderia aconselhar a minha filha, ou gritá-lo a alta voz, se calhar o Cardeal, por muito que pragmaticamente o pense, deveria silenciar tais opiniões. A bem da tolerância e do ecumenismo e porque há guerras, que, mais uma vez pragmaticamente, mais vale não comprar.


Lendo agora mais sobre o assunto fica-me a ideia de que o Cardeal tinha deixado a diplomacia em casa e que a história do casamento nem terá sido o que de mais grave ou polémico proferiu.

13.1.09

Cristiano Ronaldo

Foi mais ou menos isto que eu pensei quando ouvi a notícia. Continuo a achar que o que ganham é imoral e pornográfico mas, no resto, completamente de acordo, Rititi.

Medo


Porque escrevemos ou contamos histórias de medo? Como forma de o exorcizar, de o espantar?

O pior dos medos, o medo de perder um filho. Foi o meu primeiro contacto com a morte, com alguém que eu soube, vai morrer. Esse alguém tinha 2 dias e devia ter uma vida pela frente. Éramos duas mães felizes num quarto de maternidade, eu com uma rapariga, ela com duas. Uma das duas meninas da outra mãe não mamava, a minha deixou de respirar na primeira noite, arroxeou, o pediatra disse-me “mãe pegue na menina e venha comigo”. O medo, o medo sobretudo quando as explicações não nos convencem. Ao segundo dia ao ver a minha menina, quase 4 kg, no meio dos bebés de 700 g tive a certeza de que tudo iria correr bem. A outra menina continuava a não mamar e uma manhã começou a gemer e eu soube, sei lá porquê, a F. vai morrer, toquei a campainha com todas as forças, o enfermeiro soube o mesmo, veio o pediatra a correr e a correr a levou dali, a mãe não compreendia nada, mais tarde soube que a F. teve uma paragem cardíaca antes de chegar à neonatologia (três portas à frente do nosso quarto), desapareceram as roupinhas pastel, o casaquinho feito pela avó deu lugar a um peito ofegante crivado de tubos. Durante anos aquela imagem não me saiu da cabeça e neguei a mim mesma que não pudesse ter sido salva de tal forma me parecia monstruoso outro final. Mas um dia, numa bomba de gasolina, encontrei a mãe e só transportava uma menina e um frio muito grande no olhar.

12.1.09

Na sociedade do desperdício


M. foi a uma festinha de anos de um amiguinho (agora diz-se assim, tudo deve acabar em inho ou inha). Fartos de saber que os brinquedos, por mais caros que sejam, levam todos o mesmo destino, no próprio dia, ou, na melhor das hipóteses, menos de uma semana depois, vão parar a um caixote e por lá ficam esquecidos, costumamos oferecer livros. Que até podem ter a mesma sorte... Desta vez resolvemos inovar, M. passa horas a desenhar e a pintar, uma das paredes da cozinha é uma exposição permanente, porque não dar tintas, blocos de desenho e pincéis ao amiguinho que tem a mesma idade? Esse foi o primeiro erro. Segundo erro, comprámos o material numa grande superfície e embrulhámos em casa, logo o presente não tinha nem um grande laço nem uma etiqueta de uma grande marca.
Resisti estoicamente ao olhar de desdém, até de desprezo, da mãe do menino que desembrulhava o presente; enquanto o irmão mais velho do menino, a mesma boquinha torcida exclamava “eu tenho disso, mas é material escolar”.

Bué da

M. -Os números nunca acabam? (4 anos, repete a mesma pergunta dia após dia)
- Não.
M.- Porquê?
-Porque a seguir a um número vem sempre outro.
M.- Então conta até bué da!

11.1.09

Al-Majdal


“Vem de longe esta história. Quem vive em Asqelon não sabe que a cidade, em 1949, se chamava Al-Majdal. Mas em Jabalyia, principal campo de refugiados do Norte de Gaza, ninguém esquece que foi daí que os seus pais e avós foram expulsos, as suas casas e bens destruídos. E que o foram seis meses depois dos armistícios já “em tempo de paz”...”

Miguel Portas, Sol, 10 Janeiro

“Aos 85 anos, Ury Avnery é um patriarca da coexistência pacífica, com duplo “pin” na camisa: bandeira de Israel e bandeira da Palestina.
....
“Fui quase linchado no sábado passado depois de a manifestação ter dispersado. Havia centenas de fascistas da extrema-direita, e a polícia já não estava lá. Empurravam, gritavam e magoavam. Levei algum tempo a sair dali. Traidor foi a palavra mais gentil que me chamaram”.
Fala um homem de barba branca que em 1948 combateu pela fundação de Israel”


(“Público” de hoje)



Declaração de desinteresse
O destacar estas notas e não o editorial da “Sábado” ou outros incondicionais da legitimidade de Israel, não faz de mim uma simpatizante do Hamas nem de nenhum movimento terrorista.

10.1.09

no mercado, sábado em Coimbra

pão escuro de composição desconhecida, delicioso – origem, Serra da Lousã
acelgas de cores várias, de uma horta da Serra da Lousã
amêndoas com casca de Figueira de Castelo Rodrigo
batatas e couve galega, algures da Beira Alta

9.1.09

L’Aquila: memórias de uma viajante




L’Aquila fica mais a sul, no paralelo de Roma. Há 20 anos já se adivinhava uma zona nova, de prédios mais ou menos altos, porventura feios, mas essa L’Aquila não é para aqui chamada. L’Aquila é uma cidade de ruelas estreitas e muitas igrejas, dizem que são cem as igrejas; as ruelas como em toda a Itália são atravessadas por automobilistas em velocidades vertiginosas, nós aos gritinhos de montanha russa no banco de trás. Nas segundas-feiras de manhã, o comércio fechado, os habitantes espraiando-se como gatos pelas praças, aproveitando o sol de Dezembro. Ao longe os Apeninos cobertos de neve, mas L’Aquila ocupa o vale e se calhar nunca lá neva; não nevou naquele Dezembro. Ao fim da tarde as casas e os trabalhos esvaziam-se e descem á rua principal famílias inteiras empurrando carrinhos de bebés, homens de braço dado em tertúlias mais intimistas, grupos de jovens universitários. Calcorreiam a rua para cima e para baixo, para baixo e para cima e não temem o frio, nem sequer andam às compras, passeiam apenas, carpe diem. L’Aquila tem cem igrejas que eu não as contei, também tem a fonte das 99 bicas, quase cem. Em tempos menos devotos algumas igrejas já não se dedicam ao culto, a nós calhou-nos um grandioso templo de influências góticas para montarmos o espectáculo de saltimbancos. Em L’Aquila, como em toda a Itália, o público aplaude muito, não espera pelo fim do espectáculo para uns minutos de palmas mais ao menos a pedido. Talvez influenciados pela ópera aplaudem a entrada do herói ou uma deixa dita com mais sentimento; nós riamo-nos das palmas e sentíamo-nos bem.

8.1.09

-6ºC



Acordava e tudo era branco e fofo sem sequer uma pegada. No primeiro dia ainda íamos à escola, a Dona Olimpinha, a professora temerosa, chegava agarrada a duas ou três alunas com umas peúgas enfiadas por cima dos sapatos em passinhos muito pequenos para evitar as escorregadelas, nós a rir à socapa do ridículo da figura. Dona Olimpinha avisava, se amanhã continuar assim a escola fecha, que feche, que feche. E fechava, ficávamos em casa e a mãe dizia, podem ir lá para fora, mas quando entrarem não voltam a sair que não quero a casa toda molhada. E saía toda a garotada do prédio, sacos de plástico em vez dos trenós que não tínhamos. E brincávamos, brincávamos até as luvas estarem encharcadas quando já nem o chupar os dedos os aqueciam, até já não sentirmos os pés, enquanto houvesse sol... Depois voltávamos a casa e tudo fumegava junto á lareira.

da linguagem (II)

No ano passado, em Dezembro talvez, estive numa cerimónia na Sala dos Capelos cheia de gente ilustrada e bem falante. Falaram as Letras, discurso bem estruturado, claro e inteligível, falou o Reitor, idem, idem, falou o Direito, um catedrático que não reconheci, e não consegui entender uma frase do princípio ao fim. Lembro-me de ouvir pronunciar bastas vezes a expressão alma mater, mas não cheguei a perceber em que contexto. Tenho a certeza que o resto da sala ficou como eu, a zero, e que o catedrático, acabada a prédica, voltou ao seu lugar, contentinho, orgulhoso de si mesmo, que bem que eu falei.

da linguagem


hoje considera-se moderno, sei lá, fixe, e especialmente na blogosfera e transversalmente a esta, utilizar muitos termos começados por f, sou uma mulher do meu tempo, sexualmente liberta e por isso conjugo f em todos os tempos verbais, o mesmo, mutatis mutandis, para os homens. Essa necessidade recorda-me sempre uma história em que a anti-heroína usava e abusava dessa terminologia, eu quero é f. f. f., com um, dois, três gajos; o que levou o imberbe anti-herói a pensar que lhe tinha saído o primeiro prémio da lotaria. Mas, no dia em que tentou atirá-la para o sofá, assistiu atónito a um ataque de histeria, Não, Não, Não, acompanhado de pontapés e arranhões. Quando a anti-heroína acalmou, e viu o imberbe anti-herói a uma distância segura, explicou-lhe que tinha horror a sexo e que andava a tratar-se, mas que ainda só tinha passado a fase de conseguir pronunciar as palavras. A sério, é o que me ocorre em relação á tendência f da blogosfera.

7.1.09

Eu também

Assumi, não sem confessa ingenuidade, que heróis são as populações civis e todos aqueles que se esforçam pela paz, pelo conhecimento e contacto com o lado oposto; e vilões, todos os outros.

É muita sabedoria

Pena não ter lido tudo isto: os dez mandamentos da noite da Luna há uns anos atrás. Poupar-me-iam muitos aborrecimentos.

O que eu queria

é que a vida de uma criança palestiniana
valesse tanto
como a vida de uma criança israelita
que a vida de um homem no Iraque
valesse tanto
como a de um americano
que a vida de uma mãe do Sudão ou da Somália
valesse tanto
como a de uma mãe portuguesa ou francesa

tudo o resto são conversas e jogos de batalha naval à mesa do café

Gaza



"(...) O que eu queria neste novo ano era combinar com o meu amigo de Gaza que ele vinha cá como combino com a minha amiga de Jerusalém Ocidental que vou lá. Queria, em suma, que ambos dormissem sem pensar que o céu lhes vai cair em cima da cabeça - mas é infinitamente mais provável que isso aconteça ao meu amigo de Gaza.
Tal como os líderes israelitas, os líderes palestinianos estão fartos de cometer erros, para já não falar dos árabes desde 1948. Eu também lamento que a escalada da segunda Intifada - de pedras para bombistas suicidas - tenha destruído o chamado "campo da paz" em Israel. Lamento a corrupção da Fatah, que se autodestruiu. Lamento os rockets do Hamas, que se voltam contra os palestinianos. Lamento tudo isto, como lamenta quem está de fora, mas eu vi lá dentro como o Hamas se tornou forte. Vi o Hamas ganhar as eleições em 2006, vi o Hamas tomar Gaza em 2007, e vi ontem o meu amigo de Gaza, que nunca foi do Hamas, escrever no chat que finalmente percebeu como é que uma pessoa se torna bombista suicida.
O problema não é só não haver um futuro, é não haver um presente. A cada dia que passa, o meu amigo de Gaza continua sem trabalho e sem poder levar a família para outro país. As filhas crescem todos os dias e esta vai ser a infância delas. Têm 40 quilómetros de comprimento por seis de largura para se mexerem, com más casas, más escolas, maus hospitais, má comida, má água. E vem a depressão, a doença, a violência.
Toda a gente sabe que a violência gera violência. Toda a gente sabe que não há solução militar. Toda a gente sabe - está em todos os documentos internacionais assinados por Portugal - que Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental são territórios nas mãos de Israel. Toda a gente sabe que há milhões de refugiados palestinianos há mais tempo do que eu estou viva e ninguém os quer. E é por isso que justificar o bombardeamento de Gaza com a defesa de Israel é tão obsceno - simplesmente porque toda a gente sabe que os palestinianos são os perdedores desta História. (...)"

Alexandra Lucas Coelho, Público 05-08-2008

via Avatares de um desejo

6.1.09

Tróia



Ando a reler “Ética para um jovem”, um livro escrito por Fernando Savater para os meus filhos e não para mim que já cá ando há anos suficientes para ter aprendido alguma coisa (et malgrét tout...).

Logo no primeiro capítulo Savater deixa como sugestão de leitura um trecho da Ilíada:

“E se agora, deixando no chão o escudo lavrado e o forte capacete e apoiando a lança contra o muro, saísse ao encontro do inexorável Aquiles, lhe dissesse que permitia aos Atridas que levassem Helena e as riquezas que Alexandre trouxe para Ílion nos côncavos navios, pois foi isso que originou a guerra, e se oferecesse para repartir com os Aqueus metade do que a cidade contém e mais tarde fizesse os troianos jurarem que, sem nada ocultar, formariam dois lotes com quantos bens existem dentro desta formosa cidade?... Mas porque me faz o coração pensar em coisas tais?”


E porque me terei lembrado disto tudo, precisamente agora?