30.11.08

Como hoje em que chove muito e o Luís from S. me recomendou o poeta

hoy llueve mucho, mucho,
y pareciera que están lavando el mundo
mi vecino de al lado mira la lluvia
y piensa escribir una carta de amor/
una carta a la mujer que vive con él
y le cocina y le lava la ropa y hace el amor con él
y se parece a su sombra/
mi vecino nunca le dice palabras de amor a la mujer/
entra a la casa por la ventana y no por la puerta/
por una puerta se entra a muchos sitios/
al trabajo, al cuartel, a la cárcel,
a todos los edificios del mundo/ pero no al mundo/
ni a una mujer/ni al alma/
es decir/a ese cajón o nave o lluvia que llamamos así/
como hoy/que llueve mucho/
y me cuesta escribir la palabra amor/
porque el amor es una cosa y la palabra amor es otra cosa/
y sólo el alma sabe dónde las dos se encuentran/
y cuándo/y cómo/
pero el alma qué puede explicar/
por eso mi vecino tiene tormentas en la boca/
palabras que naufragan/
palabras que no saben que hay sol porque nacen y
mueren la misma noche en que amó/
y dejan cartas en el pensamiento que él nunca escribirá/
como el silencio que hay entre dos rosas/
o como yo/que escribo palabras para volver
a mi vecino que mira la lluvia/
a la lluvia/
a mi corazón desterrado/


Lluvia, Juan Gelman

MEC



Só ontem li a famosa entrevista do MEC à LER, um flop. Parece que o MEC que agora publicou um livro sobre a nossa comidinha e que verdadeiramente me interessa (ouviram, está a chegar o Natal, got it?), deu também uma entrevista à revista Sábado e que escandalizou metade do Portugal que lê a Sábado. Não li essa, desta que li posso lamentar o desperdício de páginas da revista Ler que tanto prezo. Se aquilo é irreverência* puta que pariu a irreverência, o homem dava uma resposta e na seguinte já se estava a contradizer, whisky ou vodka a mais, talvez sim.
O que ficamos a saber? Que o MEC tem uma Nespresso (outro mito urbano, nunca ninguém reparou que aquelas pastilhinhas sabem a nescafé? nos antípodas do aroma e qualidade a que mesmo os mais vulgares lotes portugueses nos habituaram? o George Clooney é muito giro, mas é americano, e desde quando é que os americanos sabem o que é bom café?), que vivemos no país dos três escritores: o Lobo Antunes, o Saramago e a Agustina. Que a Agustina escreve maravilhosamente, olha a dúvida, não fora o MEC anunciar e ninguém teria reparado. E que o MEC bebe (eu também, sobretudo vinho tinto) e que experimentou uma monte de drogas enquanto escrevia e que as anfetaminas são o máximo para quem quer escrever bem, que lhe façam bom proveito que eu de drogas só conheço o álcool, as benditas benzodiazepinas e uma coisa escaldante e mal saborosa a que chamavam charro e que me passavam nalgumas festas.
Eu gostava do MEC, do MEC da Kapa e de outros escritos, gostarei certamente do livro da comidinha (got it?), este da LER,... um verdadeiro FLOP.



*uma vez li uma coisa do MEC, falava ele de um espremedor de laranjas, tinham-lhe dado ou ele tinha comprado um espremedor de laranjas e para lhe dar uso comprou as laranjas e depois o vodka, e que levou tudo para o camarim da tv e que usou e abusou dos ditos ingredientes e que quando o programa entrou em gravação (seria a Noite da Má língua?) ele estava para lá de bêbedo. Acham graça, irreverência a isto? Eu não!

28.11.08

Um manifesto

da RITITI que subscrevo na íntegra.

Gosto desta corrente



para a qual nem fui convidada, a casamento e a baptizado... nem entendi porque levam números as estórias, mas esta é das poucas que sei de cor e chegou-me pelos meus amigos jcps do tempo da universidade. Conta que um português da Figueira da Foz ganhou um concurso literário cujo prémio é uma viagem a Minsk, URSS. Mas, e aqui é que a porca torce o rabo, tem que ser ele a tratar dos pormenores da viagem. E chega à estação da CP da Figueira e, obviamente, nunca ninguém ouviu falar em Minsk e encaminham-no para Coimbra e de Coimbra para Lisboa, de Lisboa para Madrid, para Paris, para Berlim, para Varsóvia onde o nome já era vagamente familiar e lá chega a Minsk onde é recebido com todas as honras. Uma semana depois começa a temer o calvário da viagem de regresso. Mesmo assim, com o russo que aprendeu, chega à bilheteira e atira, como quem não quer a coisa, queria um bilhete de comboio para a Figueira da Foz, quase desmaia ao ouvir “via Pampilhosa ou via Alfarelos?”.

Bombaim

Este blog tem um nome que normalmente me soa a piroso (foleiro, diríamos no Norte). Nunca fui boa nem inspirada a escolher nomes. Nomes bonitos só os dos meus filhos. Quando quis começar a escrever aqui lembrei-me de um livro de que gosto muito “O Deus das Pequenas Coisas” da escritora indiana Arundhati Roy e foi aí que fui buscar o nome para o blog. Há outro livro que não tendo nada a ver com este para mim tem tudo, chama-se “Miudagem” da Susan Minot, li-o e reli-o e fartei-me de o oferecer, também trata das pequenas grandes coisas. Mas passa-se na América. Ao ler a Arundhati Roy, ou ao ler hoje a Ana, fica-me a certeza de que nós, europeus, somos doentiamente aborrecidos.

Os mal amados

Fernando Dacosta. Ouvi um destes dias uma grande entrevista do autor no mal amado programa da manhã da Antena 2 (meu Deus, o que os "puristas" dizem deste programa!), livro a não perder.

27.11.08

Istambul (IV): a Babel




Enquanto percorria o Grande Bazar e o assédio de tudo quanto era vendedor me provocava o riso às vezes perguntavam-me, em inglês, de onde é que eu vinha. A resposta, Portugal, tinha invariavelmente como retorno, e com muitos sorrisos, Ah Figo, Ah Rui Costa. Nas lojas de especiarias turcas pode ver-se nalguns cestos o seguinte cartaz, “Viagra Turco” seguido da discrição detalhada das suas potencialidades. Ora o “Viagra turco” não é mais do que figos secos com nozes dentro. E eu dizia “olha a novidade disso também lá temos”, e os homens turcos riam perante o atrevimento da ocidentalzinha.


Diz Pamuk

“Em 1852, cem anos antes do meu nascimento, Gautier notava, tal como muitos outros viajantes, que nas ruas de Istambul se falava turco, grego, arménio, italiano, francês e inglês (e, mais ainda do que estas duas últimas línguas, falava-se o que se chama ladino, a língua dos judeus da Península Ibérica)... "

Isatambul (III): a religião



Estive em Istambul durante o Ramadão e o que conheci foi uma metrópole religiosa e dentro das religiões, uma grande cidade islâmica (embora fosse fácil de perceber a presença das comunidades judaica e ortodoxa). Mas se tivesse que escolher duas imagens associadas a Istambul viriam em primeiros lugares a água (o Bósforo, o mar de Mármara e o Corno de Oiro) e as Mesquitas.
Um dia entrei sozinha numa das portas laterais da Mesquita de Suleyman, sem reparar que era hora de oração em que as visitas estão vedadas, fui parar a uma sala onde homens rezavam, fiquei aterrorizada com a heresia e a imaginar-me trucidada por fundamentalistas em vez de recuar fugi para a sala seguinte. Azar o meu, aí rezavam as mulheres respondendo às orações que se faziam ouvir da sala masculina. Cobri a cabeça e colei-me à parede da sala, com todo o respeito, esperando que a cerimónia não demorasse muito, enquanto isso as mulheres recitavam e recitavam, baixando-se, ajoelhando-se, deitando-se, levantando-se e recitavam e recitavam interminavelmente. Era de mais para mim cada vez mais colada à parede, mas para sair teria que passar de novo pela sala dos homens... Seja o que Deus, Alá, ou esta gente quiser - escapei-me o mais depressa que pude, sã e salva, claro.

Descubro agora, através de Pamuk, uma Istambul laica: com Ataturk e a república e o desejo de se ocidentalizarem a religião ficou um apanágio dos pobres, como uma necessidade.

“Quando esta relação que os pobres e os desvalidos mantinham com Deus se limitava a lembrar que tinham necessidade de ajuda, para mim e para os outros membros da casa não havia qualquer desconforto. Diria mesmo que o facto de eles recorrerem a outrem, de existir uma força que não fossemos nós para “se encarregar deles”, nos dava um certo alívio. Mas esta maneira de alijarmos o nosso fardo para os ombros de Deus também nos inquietava às vezes, porque assim lhe reconhecíamos uma omnipotência que eles poderiam um dia utilizar contra aqueles que, como nós, eram desprovidos de fé religiosa, ou pelo menos fazer disso uma força susceptível de despertar em nós alguma inveja.”

Orham Pamuk “Istambul”

24.11.08

From Heaven To Hell

passar do mercadinho biológico no botânico (mesmo que pobrinho) para o enjoo glico-doce dos jingle bells e árvores de natal fora de época dos centros comerciais. Nos últimos, juro e jurarei só voltarei a entrar depois da epifania.


Um projecto a considerar.

21.11.08

Eu não era capaz - Coimbra, um sábado de manhã



Eu bem que lhe disse aborta, que até lhe arranjava os medicamentos – enquanto me avia um alho francês e um cacho de tomates de cacho e a conversa não era comigo, e até nem era suposto ser por mim escutada, embora que proferida em alta voz enquanto pesava os tomates de cacho – e ela, que não, que não, e agora, que o carregou todos estes meses vai dá-lo para adopção, eu não era capaz. A isto chama-se passear por um bairro típico e fazer compras no comércio tradicional.

Ou sou eu que sou esquizóide

ou este teste é uma porcaria. À medida que fui aumentando o nº de perguntas passei do Kennedy para o Gandhi para acabar como Saddam Hussein.


via womenageatrois

O estado em que se encontra este blog

de grande preguiça, inércia, nada me parece suficientemente relevante por estes dias, não me apetece falar sobre os professores, nem sobre o novo regulamento do aluno (sobre este último ouvi a DT do meu filho discursar 90 minutos e agora acredito que é possível discursar 90 minutos sobre qualquer assunto), nem sobre o BPN e o Cadilhe, a hipótese da Hillary vir a ser a secretária entusiasmou-me, mas não ao ponto de passados dois dias saber em que ficaram os conflitos de interesse. Fico-me assim com o que um email denominou como o pensamento do dia, a que por supuesto achei graça:


"If the global crisis continues, by the end of the year only two Banks will be operational, the Blood Bank and the Sperm Bank! Then these 2 banks will merge and it will be called "The Bloody Fucking Bank"

17.11.08

De afinal sou uma gaja

Uso saltos altos, cabelo comprido, unhas arranjadas, pinto os olhos, posso lá eu ter tempo entre a depiladora e umas receitas de bacalhau à brás, nos dias em que não vou ao salão erótico, para escrever sobre coisas sérias. E sobre temas que façam pensar.




e concluo assim que quase me masculinizei ao citar, e só citar, a apresentação da conferência do Miguel Portas

A crise


A crise não é um mistério insondável. Pelo contrário, pode ser discutida e a sua superação exige que se perceba porque chegámos a ela. É, além disso, um assunto que diz respeito a todos e a cada um de nós.
A ideia que existe é a de que ela chegou porque alguns banqueiros tiveram “mais olhos do que barriga”. É uma explicação curta. Na verdade, os poderes políticos permitiram que tal acontecesse. Permitiram em Nova Iorque, em Londres, em Paris e em Lisboa. Entre os políticos, estabeleceu-se a convicção de que a realização de lucros financeiros ilimitados era a garantia de que a economia continuaria a crescer. Bastaria que uma ínfima parte desses lucros fosse investida na economia real para que assim fosse. É esta a convicção que está a ser dramaticamente posta em causa pela crise. Na verdade, as bolsas e a banca vampirizaram as empresas e o trabalho. O crescimento das últimas décadas dependeu do aumento exponencial do crédito e do endividamento. O crédito fácil e barato foi a contrapartida da “moderação salarial”. Parecia que funcionava. Até que…
E agora?
Que fazer em Portugal, que apanha com uma crise nova em cima de uma crise velha?
Que fazer na Europa?
E que pode fazer a Europa pelo mundo?
A hipótese que aqui se levanta é simples: nunca como agora dependemos tanto uns dos outros. A crise não se resolverá com as políticas que nos trouxeram até ela e exige novas prioridades, tão válidas em Portugal, como em Inglaterra ou no Sri Lanka.




O Sr. Miguel Portas hoje às 15:00, Auditório da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

Dos sonhos



esta noite sonhei o melhor post que já alguma vez escrevi, começava com a beira de uma estrada e uma adolescente magra e sem sinais de puberdade, era assim que estaria escrito no post, que me perguntava, a partir daqui é sempre a descer?

O resto do melhor-sonho-post, melhor-post-sonho, esqueci-o ao acordar

Istambul (II)



Continuo a leitura, um Istambul muito mais laico do que eu, turista, conheci; um extraordinário capítulo sobre a melancolia. Para mais logo excertos da melancolia de Istambul.

escrita criativa (I)

começar em alhos e acabar em bugalhos, garantia de escrita criativa.

escrita criativa (II)*

escolher a palavra que se deseja escrever, abrir o dicionário, substituir a palavra escolhida por outra que se encontre cinco palavras a cima ou cinco palavras abaixo desta (também pode ser seis, o número).





*esta regra infalível ouvi-a ao Rui Zink

14.11.08

A Primavera





No mítico e tantas vezes aclamado A Aba de Heisenberg. Saiu da toca onde tem permanecido numa fermentação de ideias.

Em breve com novos colaboradores, não perca, ali ao lado

12.11.08

Dos médicos



A consulta estava marcada para as 11h15, tanto rigor horário comoveu-me e pareceu-me de bom augúrio. Na entrada uma senhora de alguma idade e braçadeira amarela (seria a senhora das bolachinhas e do café de termos? não havia nenhuma das coisas à vista) recebeu-nos oferecendo ajuda e informou que a consulta estava marcada para as 11h40 (?), e que até era bem termos chegado mais cedo porque teríamos certamente pormenores a acertar com o secretariado, guichet à direita. No secretariado não havia grande coisa para fazer, fazem o favor de se sentar. Uma hora de praça da alegria depois, ágata incluída, a desgrenhada (e desdentada?) do secretariado vem anunciar com indisfarçável sadismo e em estilo de apresentador de circo, tapando-nos inclusivamente o Jorge Gabriel, o Senhor Dr informa que ainda tem duas pessoas para operar e deverá chegar pelas 12h30, novamente o rigor horário, e já agora a perplexidade perante tão rápido cirurgião, mas eu de cirurgia não percebo nada. No entretanto a um dos pacientes deu-lhe para o sermão do tu és pó e em pó te hás-de tornar, nós não somos nada meus irmãos, que é esta pequena espera, meus irmãos, perante tanta gente que sofre sem ter um médico, perante gente que tanto gostaria que lhe operassem os joelhos, mas que já os não os tem para serem operados. O Sr Dr chega às 13h20, fato escuro impecável e sapatos engraxadíssimos , como eu admiro quem é capaz de se manter assim impecável mesmo tendo saído dum bloco operatório, nem uma gotita de suor no rosto escanhoado, mas eu de cirurgia não percebo nada. Às 13h55 saímos todos, Dr. incluído, o Dr. levando na mão um saquinho que eu tinha visto anteriormente na mão dum paciente que não era o do sermão, uma lembrancinha para o Sr. Dr., obrigadinho, muito obrigadinho, graças a Deus ainda tenho joelhos para serem operados. É por isto, meus irmãos, é por isto que este país não anda para a frente.

11.11.08

Istambul(I)


Esta massa de água que passa no coração da cidade não pode em caso algum ser comparada com os canais de Amesterdão ou de Veneza, nem com os rios que sulcam Paris ou Roma: aqui há corrente, ventos, ondas, profundezas, trevas.



Istambul,- memórias de uma cidade, Orham Pamuk

Eu dissidente do PC


que antes do ser já o era e nem sei porque é que esta história me vem agora à cabeça. Nos idos de 80 e tais, nas eleições para a direcção geral da AAC, apareciam as listas da JS, da JSD, da Juventude Centrista, onde se perfilavam os candidatos à política “séria” e “dura” ou pelo menos os previdentes dos futuros tachos. Para além desses, apareciam sempre uns rapazes e umas raparigas muito coloridos que prometiam instalar escadas rolantes nas escadas monumentais e também uns ecologistas de dúbias motivações e intenções. No meio disto tudo convidaram-me a integrar uma lista absolutamente independente, séria e revolucionária. Para lista independente de tesos tínhamos muitos meios, audiovisuais de ponta, os melhores videos da campanha, uma organização perfeita. Eu pairava por ali sem grande paixão, mas agradava-me a festa e não punha grandes questões. Apesar da ingenuidade comecei a ver que havia uma rapariga especialmente activa e que comandava as tropas, mais estranha porque parecia caída do céu, na altura eu não era a associal que sou hoje e conhecia praticamente toda a gente interessante da UC, e todos os malucos de todo o lado. Um dia, no meio da azáfama, abeirei-me dela e perguntei-lhe o que queria saber, ao que me respondeu ser estudante de letras, parece-me que não sabia bem de que curso, e não aparecer muito porque era estudante e trabalhadora não sei de quê. Só pr’aí no dia das eleições vim a saber que a estudante de letras era a funcionária do partido para a JCP, fiquei furiosa, rasguei ali mesmo o cartão que nunca tinha tido, difamei-os por tudo quanto é lado. Foi bonita a festa pá, a ressaca é que não. A lista chamava-se Novos Rumos.

Comoções

Comove-me, e já passaram sete dias, a esperança, que os portugueses, que os europeus, põem no Obama. Eu não consigo tanto. A sério.

6.11.08

SG




Dias há

Dias há em que precisamos das palavras do Rudyard Kipling, uma vez e outra, antes de abanarnos a cabeça, respirarmos fundo e partir para outra coisa.


IF you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise: