31.1.07

Quem me manda a mim

fazer minha a agenda da comunicação social. Num post ali mais para baixo, escrito na, sei-o agora, mais total e completa desinformação escrevi "Se é absurdo que a criança venha a ser entregue a um senhor que, sabe Deus com que motivação, sentiu agora o chamamento dos seus genes..." . Hoje tenho cada vez mais dúvidas sobre onde estão os anjos e os vilões e enoja-me ver a ignorância do povo português aos beijinhos e aos vivas ao herói sargento enquanto que o pobre Baltazar é vaiado e tratado como criminoso sem que ninguém se pergunte sobre a natureza do seu crime. E que rico serviço prestam todos à E. ou A. ; sim que a menina nem sequer tem direito a nome certo.

Mas que saudades tenho da sobriedade, da seriedade, da classe das notícias das 8 da TF1. Ainda temos muito que caminhar.

O menos que podemos fazer

30 de Janeiro de 2007, Iraque - dezenas de mortos, centenas de feridos em atentados e confrontos entre xiitas e sunitas.

30.1.07

Shame on you

Não vi o programa e leio estupefacta no Abrupto

Acho obscena, assim mesmo: obscena, a utilização de crianças e adolescentes em programas como o Prós e Contras de ontem para falarem ou se manifestarem sobre o aborto. Tal me parece ser da mesma exacta natureza que o inquérito sobre os costumes sexuais dos pais, que tanta condenação suscitou e bem. Antigamente, no tempo em que os animais falavam, havia uma regra deontológica dos jornalistas que impedia entrevistas a menores sobre estes temas. Caducou?

Só posso dizer, SHAME ON YOU, Portugal.

O menos que podemos fazer

“Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto.”

Érico Veríssimo, "Solo de Clarineta"



29 de Janeiro de 2007 – Mais de 200 mortos em confrontos no Iraque.

Porque sou pelo sim (V)

A pergunta:


Concorda com a despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, se realizada, por opção da mulher nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?


Sejamos metódicos:

Concorda com a despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez…

ou vota não porque acha que essas mulheres devem sujeitar-se ao medo de serem descobertas, à humilhação de um julgamento, à prisão até 3 anos?
ou então prefere que o estado de direito que desejamos esteja sujeito à bandalheira de não fazer cumprir as suas leis.

se realizada, por opção da mulher

mas de quem mais poderia ser a opção?

nas primeiras dez semanas

é o limite máximo, menos seria pragmaticamente de menos e iria possivelmente dar na situação que temos agora.

em estabelecimento de saúde legalmente autorizado

ou acha que deveríamos andar a patrocinar abortadeiras clandestinas?

29.1.07

Porque sou pelo sim (IV)

Também não entendo que se defenda a manutenção de um tipo legal de crime e se não aceite que quem infrinja tal comando etico-juridico seja punido. Sempre fui contra a anomia que destrói as estruturas sociais. As sociedades podem mudar as leis, mas devem sempre aplicá-las enquanto estejam em vigor. Defender que se vote "não" e que se não puna quem pratica abortos é, na minha opinião, contra o Estado de Direito.

Finalmente, quero frisar que todos os que votarão "não" ou "sim", são a favor da vida. Depois de 11 de Fevereiro espero que se mobilizem em conjunto para criar condições cada vez mais favoráveis para que as mulheres não recorram ao aborto. O que implica pedagogia cultural, protecção à mãe solteira, reforço e facilitação das adopções.


Contributo de José Miguel Júdice para o blogue Sim no Referendo.


Creio que é compatível o voto na despenalização e o ser - por pensamentos, palavras e obra - pela cultura da vida em todas as circunstâncias e contra o aborto. O "SIM" à despenalização da interrupção voluntária da gravidez, dentro das dez semanas, é contra o sofrimento das mulheres redobrado com a sua criminalização. Não pode ser confundido com a apologia da cultura da morte, embora haja sempre doidos e doidas para tudo.

Frei Bento Domingues, Público, ontem. Retirado daqui


Nesta magna questão, há níveis diferentes de debate, concretamente o jurídico-penal e o moral. Sem esquecer os aspectos biológicos, o problema moral e as suas raízes filosóficas e religiosas, o que se pergunta é se a mulher que aborta, num determinado quadro legal - se cumprida, a actual lei bastaria -, deve ser penalizada.No seu drama, em lugar de uma punição penal, do que ela precisa sobretudo é de solidariedade. Estão a sociedade e a lei dispostas a apoiar eficazmente a mulher e, concretamente, a grávida?Este apoio tem de traduzir-se em educação, prevenção, aconselhamento, combate à pobreza e exclusão, co-responsabilização do homem, incentivos à família e à natalidade. Também para que despenalização se não confunda com liberalização nem se torne método contraceptivo.


Padre Anselmo Borges no DN de Domingo

26.1.07

Fonte (II)


No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e orgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.


Herberto Hélder

No dia em que faz 14 anos que fui mãe pela primeira vez.

24.1.07

As dez melhores obras literárias de sempre




É só mais uma lista que vale o que vale.
O editor americano Peder Zane pediu a 125 escritores que escolhessem as dez melhores obras literárias de sempre. Dessa escolha surgiu esta lista:

1º Anna Karenina, Leon Tolstoi
2º Madame Bovary , Gustave Flaubert
3º Guerra e Paz, Leon Tolstoi
4º Lolita, Vladimir Nabokov
5º As aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain
6º Hamlet, Príncipe da Dinamarca, William Shakspeare
7º O Grande Gatsby, Scott Fitzgerald
8ºÀ procura do tempo perdido, Marcel Proust
9º Contos, Anton Tchekov
10º A vida era assim em Middlemarch, Georg Eliot

Destes livros ainda não ganhei fôlego para o Guerra e Paz, só li o 1º volume do À procura do tempo perdido e não conheço a obra de Georg Eliot, talvez alguma poesia.
De assinalar, a predominância dos russos, o não haver nenhum livro com menos de 50 anos, o só haver uma mulher (George Eliot é o pseudónimo de Mary Ann Evans que dizia ter escolhido um nome masculino para ser levada a sério!).

Felicidade


Havia um corredor muito comprido e eu punha-te no carrinho de bebé e dava-te um empurrão e tu ias corredor fora, bracinhos no ar, a rir e aos gritinhos.

E o pai dizia: bebé lindo, papá lindo, mamã feia…




é ter quem, ano após ano, continua a re(contar-nos) coisas assim.

23.1.07

É por isto que o mundo não tomba

ou, o direito ao contraditório


... esteve muito bem ontem Fátima Campos Ferreira no Prós & Contras sobre o caso da criança amada por todos e a sofrer com isso.

Numa ilha deserta


post de diversão



Do que não prescindo (bens materiais):

1 livros
2 café expresso
3 jornais e revistas (revistas já me fizeram mais falta)
4 vinho tinto
5 aquecimento em casa nos dias de Inverno, na rua posso até andar de manga curta.
6 um creme hidratante anti-rugas SPF 15.

Tudo o resto, telemóveis, máquinas fotográficas, ipods, me é acessório, sou uma pessoa simples. Quando estive na Suiça em tempos de vacas magrérrimas, podia comer massa cozida com molho de tomate ao almoço e ao jantar e até pão sem nada ao pequeno almoço, mas deprimiria se não tomasse um expresso numa esplanada (uma exorbitância), se não comprasse o El País ao sábado (os jornais portugueses não chegavam lá) e não desse umas voltas pelas livrarias. Excêntrica?

A Reter

Toda a criança tem direito a uma família.

O inverso pode não se verificar e vem sempre depois.

Isto também é preocupante*

"(…) não podia, se queria tanto saber se era dele o espermatozóide, pagar uns testes do seu bolso (repito-lhe, custam 1500 euros no IPATIMUP) e ter o resultado em duas semanas?"

esta gente só pode ser louca! Bem que eles dividem o país em Lesboa e província… e da província não sabem nem querem saber.

Oh Sr. Baltazar, então não sabia que podia ir ao IPATIMUP, ah não sabe o que é o IPATIMUP? Francamente Sr. Baltazar, quem não sabe o que é o IPATIMUP? Está a fazer-se de novas? 1500 euros, não tem 1500 euros? Olhe vá ao BES. Também não sabe o que é o BES?



* esqueçamos o contexto em que FC profere esta fantástica afirmação. Retenha-se apenas quem é o Baltazar habitante de uma aldeia do concelho da Sertã.

Justiça Popular?

Não Obrigado!

Parece-me que foi a primeira vez que vi um Prós e Contras do princípio ao fim, diria que foi quase a primeira vez que vi tal programinha (como é que gente séria pode dar parabéns à Dona Fátima pelo excelente programa?) e possivelmente não voltarei a fazê-lo, sobretudo porque a senhora que coordena (coordena?) o debate está mais interessada na peixeirada e em fazer render o peixe do que numa discussão séria acerca de assuntos que se querem tratados com seriedade. A certa altura, quando a Dona Fátima insistia em não perceber a diferença entre adopção plena e adopção restrita, tive que fazer um intervalo para ir buscar uma bebida que me toldasse também a mim um bocadinho o cérebro. Foi quando gente amiga e mais avisada me fez ver que ainda havia umas horas de programa para encher e que não se podia começar a chegar a consensos logo por ali.

Mas é pena, porque, apesar de tudo, foram passadas mensagens importantes que correm o risco de não serem assimiladas no meio de toda aquela paixão.*

A ler, o JPN e o Eduardo Pitta.


* fantástica a entrada à matador da Sra do Habeas Corpus, a Dona Fátima estava a esquecer-se dela, francamente!

22.1.07

Uma mulher moderna


Nobuyoshi Araki


Olhei-me longamente, pensando em todas estas coisas, e depois, repentinamente, com a comprida mão ossuda dei uma pancada na testa. Achara. O quê? A maneira de transformar a minha veleidade em afirmação. O meu erro fora, até então, acreditar na vitalidade pura e simples, ou seja, na natureza, que segundo algumas pessoas, faz sempre bem aquilo que faz. Pois bem, tinha que me livrar daquela ilusão, abandonando as incertezas da natureza, dada a caprichosos acasos pela infalibilidade da produção planificada. Tinha, em poucas palavras, de ser uma mulher moderna. A modernidade definia eu desta maneira: a vida não deve ser vivida, mas produzida. Basta pois de amor conjugal, de afecto maternal, amizade, cultura “natural” e “espontânea”. De então em diante, as expressões chamadas da minha personalidade tornar-se-iam “objectos” meticulosa e racionalmente planeados.

Alberto Moravia “O Paraíso”, da série Os Livros que ando a ler

É claro

que se continua
que se sobrevive,
sobrevive-se a quase tudo,
e que nunca mais se é a mesma
e que estamos sós, aí e em muito mais.

19.1.07

Mal-aventuranças


O sermão da névoa

(Mateus 5, 3-10; Lucas 6,20 e seguintes)

Mal-aventurados os pobres de espírito,
porque deles é o reino da névoa.

Mal-aventurados os mansos,
porque eles possuirão a névoa.

Mal-aventurados os que choram,
porque eles ficarão arrasados.

Mal-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque eles terão fome e sede na névoa.

Mal-aventurados os misericordiosos,
porque eles alcançarão somente névoa.

Mal-aventurados os limpos de coração,
porque eles não verão mais que névoa.

Mal-aventurados os pacíficos,
Porque eles serão chamados filhos da névoa.

Mal-aventurados os que padecem perseguição por causa da justiça,
porque deles é o reino da névoa.

Vicente Gaos


18.1.07

Do Superior Interesse da Criança

A adopção tem que obedecer a parâmetros legais e parece-me normal e desejável que assim seja. Infelizmente as comissões de adopção funcionam mal, muito mal, e não há leis que as façam melhorar enquanto as pessoas que as compõem continuarem as mesmas, enquanto os juízes dos tribunais de família viverem completamente alheados do que significa, por exemplo, a institucionalização para uma criança, a conferência ser hoje ou daqui a meio ano tanto faz (dá vontade de lhes sugerir “olhe mande um dos seus filhos para uma instituição e vá buscá-lo daqui a meio ano, afinal o que é meio ano na vida de uma criança?”). Os candidatos a adopção esperam e desesperam, as crianças institucionalizadas hipotecam a cada dia o seu futuro. Talvez isto justifique que um casal desesperado de esperar, passe ao lado dos trâmites normais e aceite uma criança que uma mãe desesperada lhes oferece como filha.
Se é absurdo que a criança venha a ser entregue a um senhor que, sabe Deus com que motivação, sentiu agora o chamamento dos seus genes, e espero que o tribunal de família decida a favor deste casal e sobretudo a favor da criança, e o Tribunal de Família tem toda a capacidade legal para o fazer. Se é absurdo que o pai (pai é aquele que cuidou, que amou, que pôs os interesses da filha à frente dos dele próprio) seja preso por não indicar o paradeiro da filha. Se tudo isto… temos também que aceitar, como escreve o Eduardo Pitta que “A nossa sensibilidade é uma coisa. Os deveres do Estado, outra. As autoridades não podem assobiar para o lado até que a Esmeralda seja localizada.”

A ler o Eduardo Pitta e o Luís.


ps post alterado para que não haja mal-entendidos

15.1.07

Da Inveja



Ximena Maier

A Inveja é um grande pecado e fonte de infelicidade (ver Bertrand Russel, “Três Causas da Infelicidade" Guimarães Editores, 1990).

Não desminto nem confirmo, não me sinto particularmente infeliz nem pecadora.

Das artes já experimentei de tudo um pouco, fiz poemas bacocos quando era jovencita, tive lições de solfejo, de bandolim e cantei num coro durante bastantes anos. Fiz teatro a sério durante todo o tempo que pude. Mas das artes plásticas, nada, niente… um zero à esquerda! Se com um pincel ainda consigo fazer uns borrões... dêem-me um papel e um lápis e o resultado será no mínimo risível. Por isso tenho uma enorme, não diria inveja, mas admiração por quem ao pedido de uma criança, desenha-me um cão, desenha o cão, ou um rapaz alegre ou a chorar. E como eu gostava de ser capaz de desenhar. E por isso me maravilho com coisas como estas.

12.1.07

Do direito à vida


Ontem apanhei a parte final de um fórum na RTPN sobre o referendo de Fevereiro. Já só ouvi as últimas palavras do último ouvinte, nada de assinalar, a apresentadora (jornalista?) estava a ficar nervosa, vai ter que terminar estamos em cima da hora. E em cima da hora ainda teve tempo, antes não tivesse, para “pois em Portugal não há suficientes e boas instituições para internar as criancinhas que as mães não querem fazer nascer, mas se houvesse toda esta discussão ainda faria sentido?”*. Perante esta enormidade, a la Ceausescu, a senhora do Sim de que não retive o nome, tibuteou qualquer coisa sem interesse e a senhora do Não, que também não sei quem era, rematou da melhor forma “tantos casais inférteis… se houvesse possibilidade de um acordo pré-nascimento entre uma mãe infértil e essa mãe que não quer ter o filho”*. Direito à vida ou direito a uma coisa que se armazena, que se cede, sobre a qual se estabelecem acordos à margem dos seus interesses???
Com gente assim o Supremo Interesse da Criança está assegurado.




* as palavras não foram estas mas reproduzem fielmente o sentido

Iluminai-os

10.1.07

No próximo Natal


Miss K by Philippe Starck


Quero este candeeiro. Por favor!

Postkarten



tudo começou com uma história estúpida de sobretudos trocados
no restaurante Rosetta: (e com aquela tua corrida cega, para lá
dos escritórios
da Alitalia, distraída, abstracta):
eh, não há muito que rir, minha querida,
a nossa identidade, as nossas roupas, os sinais particulares, os pontos
de referência, a orientação, o bom senso:
(uma vez mais estamos perdidos
no mundo, cada um como pode: e como merece): (e se te escrevo
do aeroporto
de Capodichino, à partida para Amsterdão, com os voos AZ424 e
AZ382,
é já por pura superstição, ao fim e ao cabo; e não por outra coisa,
realmente, por nada):



Edoardo Sanguineti

9.1.07

Porque sou pelo sim (III)

Viajando na blogosfera chego à Fernanda Câncio, que não conheço, e como não encontro caixa de comentários, deixo-lhe aqui o recado que possivelmente não vai ler: quando eu votar sim, e vou votar sim em Fevereiro, vou também votar para que tenha o direito de decidir do seu corpo, que a lei vai ser igual para todas as mulheres, lavadeiras ou jornalistas. Mas para mim é bem claro que não é por si que eu sou pelo sim, a si não a condeno nem a compreendo. E o direito à não compreensão é um direito que também me assiste.
Não voto sim por pena, mas por um sentimento muito mais elevado, por humanidade, pela esperança de que cada vez mais mulheres tenham direito á educação incluindo a educação sexual, ao poder de decisão, a terem filhos quando os desejam.

E faço minhas as palavras do Tomás Vasques, que não conheço, sei lá se é de esquerda ou de direita, quando diz:
A questão de fundo, da qual decorrem todas as outras, é a seguinte: eu não estou preocupado com as mulheres formadas, informadas e com dinheiro que reclamam o direito à disposição do seu corpo, incluindo a IVG. Este é um outro nível de direitos, um outro nível de discussão.


O resto, as guerrinhas e as politiquices, onde é que você estava no 25 de Abril, não me interessa nem um pouco e deixem-se disso se querem um sim vitorioso.


ps mas olhe sr Tomás Vasques aquele seu cartoon foi bem infeliz e quem não quer parecer lobo não lhe veste a pele.

Educação

A Mãe

“A nossa mãe continuava:

- Tenho que acrescentar às decisões do vosso pai algumas disposições que eu tomo como dona de casa. Em primeiro lugar, suprimo o aquecimento nos vossos quartos: não desejo encontrá-los uma bela manhã asfixiados. Também suprimo as almofadas: curvam as costas. Os édredons seguem o caminho das almofadas. Um cobertor no Verão e dois no Inverno são largamente suficientes. À mesa exijo que ninguém fale sem ter sido interrogado. Devem estar sentados correctamente com os cotovelos juntos ao corpo, as mãos pousadas uma de cada lado do prato, a cabeça direita. No que diz respeito aos quartos, vocês é que têm que os arrumar. Inspeccioná-los-ei regularmente, e ai de vós se encontro alguma teia de aranha! Para acabar, não quero ver-vos mais essas gaforinas de ciganos. Daqui em diante passam a trazer o cabelo rapado: é mais limpo”



Os Filhos

“Lembro-me… lembrar-me-ei toda a vida de Folcoche*… Porque tinham os plátanos essas inscrições tão curiosas, esses V.F. quase rituais, que se podem encontrar em todas as árvores do parque, carvalhos, tulipeiras, freixos, em todas excepto num taxaudier de que gosto muito? V.F. …V.F. … V.F. …Isto é: vinguemo-nos da Folcoche! Vinguemo-nos! Vinguemo-nos da Folcoche gravado em todas as cascas de árvore, e nas abóboras-menina do fim do ano, e nas pedras das torres pequenas, nessa pedra tenra que se deixa riscar com a ponta de um canivete, e mesmo na margem dos cadernos. Não, minha mãe, aquilo não era, como lhe dissemos algumas vezes, um expediente mnemotécnico: os verbos franceses, não esquecer os verbos franceses. Não, minha mãe, aqui há um só verbo que conta, e nós declinamo-lo correctamente em todos os tempos. Eu odeio-te, tu odeias-me, ele odeia-a, nós odiar-nos-emos, vós tínheis-nos odiado, eles odiaram-se! V.F. …V.F. … V.F. …"

*folle + couchon

De víbora na mão, Hervé Bazim

8.1.07

Porque sou pelo sim (II)

Perguntem às mulheres, oiçam as mulheres.
Das três vezes que estive grávida, e que soube que o estava por volta das cinco ou seis semanas, nunca senti que dentro de mim tinha um conjunto de células mais ou menos sensíveis ou enervadas, senti, isso sim, que dentro de mim se criava um filho que esperava viesse a nascer como um ser saudável e completo e amei-o desde o início. Por uma vez passei as angústias de se por a hipótese de ter que escolher abortar ou não: esperava os resultados de uma amniocentése, a estatística dizia que tinha um risco de 1 em 270 de vir a ter um filho com síndrome de Down, o que pode parecer um risco ridiculamente pequeno, mas durante os dias de espera se a razão me dizia que se fosse verdade devia abortar, o coração não dizia nada e apertava-se a cada dia. Não o desejo nem ao pior inimigo. Felizmente tudo correu bem.
Mas eu sou uma mulher adulta, informada, com uma relação estável, com um bom suporte familiar.
Percorram o país real e nem vão acreditar no que vêem e no que ouvem. Mulheres que parem como coelhas, que deitam filhos cá para fora, um de cada relação do momento, e que não têm condições para criar, mulheres novas mas tão ignorantes, mulheres que engravidam dum pai ou dum irmão porque lá em casa é assim, mulheres que engravidam de quem as cobre de porrada todos os dias, oiçam um mãe que viu morrer a filha esvaída em sangue de um aborto feito em casa, oiçam as mulheres e não condenem quem não quer ou não pode ser mãe quando a puta da vida lhe foi tão madrasta.

Os livros que ando a ler




Na Cozinha com Jamie Oliver.

Está na moda, demasiadas páginas com cordeiro, animalzinho que só gosto de ver nos prados da serra. Trágico que o(a) tradutor(a) não saiba que rosemary não é rosmaninho mas alecrim.

Os livros que ando a ler



O Mal de Montano, Enrique Vila-Mattas

As expectativas eram grandes, o livro ganhou uma mão-cheia de prémios, o Luís não se cansou de o referir, mas não se aguenta tanto mal de literatura… todos os dias me castigo com mais dez ou vinte páginas.

Os livros que ando a ler


O Monte dos Vendavais, Emily Bronté

Ou melhor, o Alto dos Vendavais, na tradução que me calhou. As expectativas eram grandes, a história conhecia-a de cor, a biografia que li há tempos das irmãs Bronté aguçou o apetite, mas não se aguenta tanta tragédia e grosseria. Fez-me lembrar uma anedota que um professor de português contava acerca do Camilo Castelo Branco em que se dizia que Camilo, pobre, tinha um número limitado de folhas de papel e quando estas estavam a chegar ao fim tinha que começar a matar os personagens um a um. Ai, quem me tira os grandes russos… Cumpri o castigo até ao fim.

Os livros que ando a ler



Memorias de mis putas tristes, Gabriel Garcia Marquez

que em castelhano as palavras são mais saborosas. Comovi-me com a tragi-comédia de cada página “Ay mi sabio triste, está bien que estés viejo, pero no pendejo”.

E agora something completely different (ou para não acabar de vez com as coisas sérias)


Duchamp


As relações sexuais são como o bridge, se não se tiver um bom parceiro tem que se ter pelo menos uma boa mão.

Citando de cor Júlio Machado Vaz a citar Woody Allen

Do Inverno



Do Inverno já só espero ver a minha cameleira florir.

Porque sou pelo sim (I)

Porque não se deve castigar quem já tanto foi castigado. E quase só por isso … E porque quase todos os argumentos, pelo sim ou pelo não, são quase nada perante isso.

5.1.07

Modas

Por que é que toda a gente tem que ter uma?
Eu por mim continuo fiel à minha maquineta expresso tradicional e ao lote Mussulo da Delta que compro em qualquer supermercado. Cada um tem o café que merece.