29.5.09

Ser de Coimbra ou dali de perto



"O Dr. Dias Loureiro é, suponho, de Coimbra ou dali perto." destaca o Público on line da crónica do Vasco Pulido Valente de hoje. Ficarei com a perplexidade causada por tamanha frase até ao fim do dia, a não ser que alma caridosa me dê acesso ao texto integral. Não sei o que me põe mais curiosa, se o contexto do dito do VPV se o destaque do Público. E eu até nem sou de cá.
adenda, 15 h: cheguei à crónica. Ser de Coimbra não é um estigma nem um fado, mesmo que se sinta um laivo de snobismo lisboeta no VPV, mas apenas figura de estilo. As crónicas têm que começar nalgum lado.

falar português


arruada ou arruaça? interessam-me tão pouco as campanhas, do(a) mais à esquerda ao (à) mais à direita, todos tão patéticos.

22.5.09

da coscuvilhice


sofrerei do síndrome pos-professora-de-espinho?
gosto de ir almoçar sozinha à cantina. Não me incomoda nada, dá-me oportunidade de escutar as conversas à esquerda e à direita, aprende-se sempre. Alimento-me também dessas histórias. Depois sou como um confessor, "segredo de confissão, segredo de confissão", um túmulo. Hoje as raparigas à minha direita, eu ocupava a ponta da mesa, falavam discretamente, quase em surdina, apenas conseguia apanhar algumas palavras soltas: frígida, disse uma. As frígidas são impotentes? perguntou a outra. Conversa interessante, mas um bocadinho surrealista. De que falarão elas, de mulheres? não me parece. De ratinhas transgénicas, modelo de uma qualquer disfunção sexual?
Ou porque elas começaram a falar mais alto, ou porque os meus níveis de glucose atingiram finalmente valores aceitáveis, percebi a conversa toda quando uma se referiu a olhos, estavam a falar de LENTES, RÍGIDAS. Muito feio e perigoso ser coscuvilheira.

21.5.09

O caso da professora de Espinho

O caso da professora de Espinho é um maná para comentadores, o dito video dá azo a que se discutam um belo número de temas sociais, desde a liberdade, a luta de classes, a educação sexual nas escolas, e etc. é só pegar e escolher. Cada um pega no que mais lhe dói:

a luta de classes, a senhora considera-se superior porque tem não sei quantos anos de, justamente, ensino superior. Pois não parece ou pelo menos teve deles pouco proveito, como se prova. E há quem se escandalize com estas afirmações, e bem. Não percebo é tanta admiração porque são o prato de cada dia, algumas tornam-se públicas como o caso do juíz que deu voz de prisão a um gajo que o chateou no multibanco, milhares de outras permanecem na privacidade. Neste país, tantas vezes tão ridículo, anda meio mundo a achar-se superior ao outro meio, porque é rico, porque tem imensos estudos e até por interposta pessoa, por ser filho, ou sobrinho ou afilhado de quem é. Certa vez uma mulherzinha que achava que me devia passar à frente na fila do taxi ameaçou-me com, eu sou filha do Professor xxx.

a gravação da aula , o atentado à liberdade, a atitude “pidesca” . Por amor de Deus não me venham dizer que aquelas crianças vão ficar irreversivelmente traumatizadas por terem tido nalgum momento uma professora chanfrada. Um dia hão-de é fazer um figurão a recordar esta história. Não, não estou a desvalorizar o acontecimento. Mas mais preocupante é um futuro em que as crianças não têm confiança nos outros e nas instituições, que é a mensagem que os pais destas crianças, espiões a soldo, lhes estão a transmitir. Um futuro em que a denúncia a qualquer preço passe a ser banal e facilmente justificável.

a liberdade e a autonomia das crianças, as crianças têm que ir aprendendo que muitas vezes terão que lidar com gente cheia de idiossincrasias, com professores malucos, com injustiças. Terão que aprender a lidar com todo o tipo de gente e a separar o trigo do joio. Até quando as podemos levar ao colo?


só mentes perversas ou muito burras poderão tirar ilações deste caso para tentar denegrir a educação sexual nas escolas.

Planalto Seguro


Todos juntos por um bairro sem drogas. Que por muito má fama que tenham os três bairros, a grande maioria dos seus habitantes são pessoas pacíficas, com vidas mais que normais que só querem um ambiente seguro e aprazível para morar.

20.5.09

A professora e os espiões


Foi bom ter vivido os meus 12 anos antes da popularização do gravador, fiquei sem memória de experiência de espião a soldo. Vão dizer-me que a gravação da professora de Espinho vai permitir que ela deixe de dar aulas e que isso é bom. Tudo bem. Mas eu digo-vos que é melhor ainda que, aos 12 anos, eu não tenha tido quem me fizesse espião a soldo.

Ferreira Fernandes no DN




sempre vi com desconfiança a demasiada envolvência dos pais na escola, sobretudo quando eu própria era aluna. A minha perspectiva como mãe é a de que devemos escolher uma escola em que confiemos e depois ir seguindo, mas de longe. Evidentemente, o caso da professora de Espinho é um caso extremo. Voltarei a este assunto com mais vagar.

19.5.09

Crises





Em 1969 como em 1962, como em tantas outras datas marcantes da luta contra a ditadura, as Repúblicas de Coimbra tiveram papel preponderante, nomeadamente através do seu órgão de representação, o Conselho de Repúblicas. A Direcção da AAC em 1969, encabeçada por Alberto Martins teve origem numa lista apoiada pelo CR. Eram as Repúblicas espaços de liberdade e de intenso diálogo e confrontação de ideias, se muitas eram de esquerda, outras eram tendencialmente de direita, poucas amorfas. Por elas passaram Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira mas também Almeida Santos, Aires Rodrigues, Acácio Barreiros e um número infindável de políticos, escritores, artistas; não há República que não tenha na sua história uma lista alargada de famosos. Eram espaços masculinos, a primeira República feminina, a República Rosa de Luxemburgo surgiu apenas em 1972.
A seguir ao 25 de Abril as Repúblicas e o seu Conselho atravessaram um período de indefinição e até de abandono, mas a maioria sobreviveu. O Conselho de Repúblicas, como órgão de representação, ressurgiu nos anos 80. Nos anos 80, altura em que eu as frequentava, a maioria das Repúblicas estavam pujantes, era fácil encontrar bons candidatos - entrava-se para elas por proposta de um dos repúblicos- e eram locais de vida comunitária e de intervenção social e política intensas. Embora existissem Repúblicas para todos os gostos.
Fui fundadora da República Marias do Loureiro, que na minha época era apenas uma casa comunitária (só nos anos 90 passou a República), em frente tinha a Baco, ao lado os Galifões e os Corsários das Ilhas, abaixo o Bota-Abaixo, na rua ao lado (a Rua da Matemática) a Rás-Te-Parta, o 40, o 44 e os Incas. Toda a gente se conhecia e era fácil a mobilização, ficaram famosas as feijoadas da Rua da Matemática. Dividiam-se as despesas, e por isso o telefone estava muitas vezes cortado e às vezes pedia-se comida emprestada à República vizinha, dividiam-se tarefas (embora muitas Repúblicas tivessem cozinheira profissional –vida dura a destas senhoras), faziam-se as refeições em conjunto. Com o fim do século as Repúblicas foram entrando lentamente em crise, os rapazes e as raparigas que vêm estudar para Coimbra buscam o conforto dos apartamentos modernos e, sobretudo, não estão dispostos às cedências e à tolerância exigidas por uma vida comunitária intensa. Para além disso as Repúblicas têm alguma má fama, de habitadas por gente “esquisita”. O que é bastante injusto. Mas sim, estive no sábado no Centenário (festa anual de cada República, um ano numa República vale por 100) de uma delas, invadida por erasmus muito “esquisitos”, não se ouve falar português sem sotaque que, se outros defeitos não houvesse, não conferem às casas a essencial continuidade. Vão e vêm a cada meio ano, nem sequer têm tempo para um banho de história. Receio que agora seja mesmo a morte das Repúblicas.

12.5.09

Le chic e duas paixões




comboios e Istambul

da Queima das Fitas


Muito se aplaude por aí este texto do Manuel António Pina, e a bem de algum optimismo e de esperança no presente e no futuro não o deviam fazer. Passo a explicar que a memória é curta, acabei o curso há 20 anos e conhecer, conhecer, só conheço a Queima de Coimbra. Se muitas coisas mudaram, o essencial, os intervenientes continuam a ser como eram então, foleiros. Portanto os ex-futuros dirigentes da nação de hoje, de ontem e de amanhã foram e serão (ok não quero meter toda a gente no mesmo saco) foleiros doutores das queimas de Coimbra e, suponho que das outras. Sei bem que não faltará quem negue pelo menos três vezes, mas poucos são os que voluntariamente se arredaram ao longo das últimas décadas dos festejos, o grau das figuras tristes é que pode/podia variar. Pese embora que há 20 ou 25 anos a queima estava ainda muito politizada e ficava mal a gente dita de esquerda participar nela, as repúblicas davam banhos de balde aos “capistas” que passavam pela ruas da Alta, mas depois era vê-los a partilharem as cervejas quentes do cortejo. Se íamos menos às Noites do Parque tal só significava que os concertos da época nem sequer eram dignos desse nome. De resto, bebia-se (menos shots mais cerveja), vomitava-se, mijava-se e amava-se tal como hoje, a maioria uns alarves. Uns assim continuaram, outros nem por isso.

Há 20 ou 25 anos viam-me do lado dos que davam banho, embora nunca o tivesse feitio.

A Rosa


Conhecia-lhe os escritos que o Luís publicava de quando em vez. Agora em nome próprio. E quem começa (ou recomeça) com a Montanha Mágica merece, oh se merece, ser seguida. E pode começar a chamar-me nomes, mas eu também acho que há o Português do Brasil, polémicas de acordos aparte, a mais das vezes muito mais gostoso do que o nosso, o de Portugal. E no Brasil, um continente, quanto (quantas formas) Português há?
a resposta do Saramago uma pedantice de mau gosto.

11.5.09

A história vista do outro lado: o Sri Lanka

por entre o absurdo que são habitualmente os comentários das notícias do Publico on line há alguns que importa reter:



Tenho amizade a um refugiado tamil radicado na Bélgica, cujo pai e irmão mais novo morreram nesta guerra civil que já dura décadas. Muitas vezes ouvi histórias de como os tanques cingaleses atropelaram civis inocentes, homens, mulheres e crianças, deixando um rasto de destruição, dor e sangue, sem qualquer propósito senão o da esmagação desta minoria étnica. Ouvi histórias da quantidade de raparigas que, depois de violadas pelos soldados cingaleses, decidiram juntar-se aos Tamil Tiguers, tentando vingar-se da sua inocência destruída. Desde a independência do Sri Lanka do governo inglês, dominada pela maioria cingalesa, budista, os tamil, minoria hindu, foram alvo de um sem número de atentados à sua existência no país. Por muito condenável que sejam as acções da LTTE, a verdade é que o governo cingalês não está, de todo, isento de culpa em toda esta história. Apenas lamento que o sofrimento de milhares de pessoas inocentes e honestas ficará provavelmente por contar, devido à falta de informadores independentes e de intervenção internacional no terreno. E, infelizmente, a história é sempre escrita pelos vencedores... Longe dista a mítica Taprobana cantada por Luís de Camões...

almoçar no Freixo ou, o meu marido salvou-me a vida ou, estou decrépita


Revolto de espargos verdes e alheira de caça. Posta, manobra de Heimlich incluída. Vinho “Montes Ermos” da Cooperativa do Freixo, excelente relação qualidade-preço.




Cinta d’Ouro, Freixo de Espada À Cinta, opção à Casa do Conselheiro, isto é serviço público.

das convicções



E pode preferir recolher a um bunker da consciência, ajustando o despertador para as 17 horas do dia sete de Junho. Aí, levanta-se, lava-se, sai de casa e vai votar. Como responsavelmente lho mandarem a convicção, a experiência, os interesses e a livre vontade. Porque é exactamente a essa hora que ninguém pode impedi-lo de ser o dono do mundo. Do mundo que mais lhe importa, pelo menos.


Nuno Brederode Santos, no DN de ontem

Acordar na Congida

O Douro e o chilrear da passarada a quebrar o silêncio.

O Sr. António


Lembram-se do ascensorista, o homem triste com a profissão mais triste do mundo? Pois o Sr. António pode gabar-se do contrário, um trabalho que faz a inveja de qualquer um. O Sr. António é um transmontano seco, e calado, pois traz os olhos saturados de verde e do infinito do voo das águias e dos abutres. Todos os dias conduz o seu barco, a partir da Congida, rio acima, de um lado Espanha do outro Portugal, por uma das paisagens mais belas e intocadas que imaginar se possa. Como alguém escreveu, “um excesso de natureza”, os laranjais, depois as arribas, bosques de zimbro, carrascos, o verde das manchas de lodões, penedias e cumes que só as aves de rapina, a cegonha negra e o Sr. António conhecem, o silêncio e o deslumbre.

Nas arribas do Douro

En uno de los repliegues de ese terreno se ocultan los hondos tajos, las encrespadas gargantas, los imponentes cuchillos, los erguidos esfayaderos, bajo los cuales, allá, en lo hondo, vive y corre el Duero.



Miguel de Unamuno, "Las Arribes del Duero"

5.5.09

sem qualidades


... razão pela qual decidiu tirar férias da vida por um ano para descobrir qual o uso mais adequado que poderia fazer das suas capacidades.


Robert Musil, O homem sem qualidades

da juventude

Walter e ele tinham sido jovens naquela época, hoje esquecida, depois da última mudança do século, quando muita gente estava convencida de que também esse século era jovem.





Robert Musil, O homem sem qualidades

na era da de desinformação


Há muito que deixei de ver o canal 1, prós e contras vi umas duas vezes e chegou, mas ontem liguei a televisão e fiquei-me a ver o Diogo Infante numa lição de português (pareceu-me bem aquele programa). Chegado ao fim eis que anunciam o apocalipse ao som de Wagner ou de trompetas, depois da crise económica a gripe suína, pandemia, morte, caos, horror, veja no prós e contras. Um vómito.

Varsóvia: o tempo


Só a distância nos permite ter a noção dessa coisa a que chamamos tempo. A nossa terra é-nos sempre velha. Em Varsóvia é sólida e indelével a passagem do tempo: o tempo das destruições nazis, perpetuado nos muros e postais violentos; o tempo do império soviético, das avenidas largas bordejadas de edifícios esmagadores, o poder , o poder, big brother is watching you; os dias de hoje onde todas as épocas e ideologias se misturam, síntese e antítese.