31.1.08

Da remodelação


Sócrates está proibido de o assumir – seria um suicídio político – mas conhece bem os riscos. Neste cenário de incerteza, sabe também que ficou mais vulnerável à agitação das ruas. Correia de Campos era, neste sentido, o elo mais fraco. Há muitos anos que um ministro não juntava tantos ódios. Um joelho esfolado bastava para que se fizesse uma manifestação à porta de um hospital. A hemorragia era evidente: quanto mais o ministro falava, mais se afogava. Não que dissesse asneiras, simplesmente já ninguém confiava nele. Manuel Alegre explorou a ferida para se promover. As críticas não rimavam, mas o alvo era fácil e não tinha quem o defendesse. Por tudo isto, é o momento certo para o sublinhar: Correia de Campos foi um bom ministro. Encerrou as maternidades e as urgências sem qualidade; controlou, pela primeira vez, o horário e a assiduidade dos médicos; atacou o lóbi das farmácias; apostou nos médicos de família e nos cuidados primários; controlou com mão de ferro as despesas hospitalares e responsabilizou os gestores. Tudo medidas oportunas. Poderia ter sido mais prudente, menos conflituoso, mais sereno e menos precipitado. Falhou várias vezes e dificilmente poderia continuar, mas deixou uma marca: serviu o país com seriedade, coragem e conhecimento. O epitáfio está escrito: saiu o ministro que, logo na tomada de posse, simbolizou a luta do Governo contra os grupos de interesse e de pressão.

André Macedo no Diário Económico (excerto, os sublinhados são meus)

29.1.08

Um recado



Luís, ontem fomos aos Joy Division, obrigada pela sugestão. Não te vi lá, mas o teatro estava cheio (a fila para os bilhetes dobrava a esquina do Gil Vicente), uma plateia de fusão, metade de cotas, metade de jovens como o Ian.

25.1.08

Hoje uma menina

Hoje uma princesa pequenina, uma princesa de quatro anos vai ser entregue ao pai. Apesar de lhe ter sido retirada há 3 anos, apesar de todas as avaliações psicológicas do pai (realizadas por mais do que uma instituição) o terem dado como inadequado para exercer o poder parental, apesar de todos os pareceres negativos da instituição que a acolheu durante esse tempo, apesar disso tudo, o tribunal, que de crianças não sabe nada, decidiu devolvê-la ao pai, e é hoje o dia. Eu sei que tu não queres ir para o teu pai, princesa, e espero que a justiça não volte a ser cega ao teu superior interesse e que voltes depressa.

22.1.08

Objectos da minha infância


O copo de viagem. Havia em casa dos meus avós e parece-me que o meu pai também tinha um. Não sei se os usavam para as termas (a minha avó tinha uma fé inabalável nas águas do Gerês) se para viagens propriamente ditas. Nunca vi ninguém a utilizá-lo, mas eu e os meus irmãos muito o virávamos e revirávamos, muito o abríamos e fechávamos.

21.1.08

Arca de Noé, 3ª classe




Todas as noites tenho lido uma história da Arca de Noé para o meu filho de três anos, lemos sempre a mesma história, a do grilinho que estava a ver a sua vida a andar para trás por causa de uma abóbora menina que não parava de crescer “dormia e crescia, crescia e dormia” e que estava quase a impedi-lo de entrar (ou de sair) da sua toquinha. A linguagem de Aquilino é rica e difícil, por vezes substituo alguns vocábulos, mas se calhar não era necessário porque o meu filho adora a história mesmo cheia de palavras difíceis.

17.1.08

livrarias e supermercados


Não gosto do conceito FNAC, nada, nada... os livros não se podem vender como electrodomésticos, os livros não são objectos de consumo imediato, os livros não são as novidades. Na FNAC expõem sucessos, não livros. Por isso a FNAC está sempre cheia de clientes, de clientes do Equador e do Dan Brown, ou nem desses. E as livrarias FNAC nem sequer são bonitas. Linda é a Lello do Porto que figura no top 10 das mais belas livrarias do mundo, escolha do jornalista Sean Dodson, do “The Guardian”.

15.1.08

Uma história de vida

"História de vida", para quem não saiba, é um pequeno programa de Miguel Guilherme, que passa todas as tardes na Antena 1, em que se contam “histórias de vida” enviadas pelos ouvintes. A de ontem era deliciosa, principalmente nos dias de hoje, dias de um consumismo desaustinado:
A história de um homem, o Sr. S. chamemos-lhe assim, pouco tempo após o 25 de Abril, que, apesar de ganhar muito pouco, não tinha gastos nem luxos, e por isso poupava muito. Um dia socorreu um comerciante amigo, que passava por tempos difíceis, emprestando-lhe 500 contos. O comerciante, por má sorte falta de sabedoria ou desperdício é que não foi capaz de dar bom uso ao dinheiro emprestado. E alguém mais cauteloso, conhecendo a situação do comerciante, foi avisar o Sr. S. disso mesmo, “olhe que a vida do seu amigo não vai nada bem e pode dizer adeus aos seus 500 contos”. Ao que o Sr. S., no máximo da sua inocência, retorquiu: “E que me importa a mim, de qualquer modo eu não os ia gastar.”

O défice democrático

Encontrei um antigo amigo “professor de liceu”. Andou uns anos pela Madeira, mas já há outra mão cheia de anos que dá aulas no continente. Comparava as duas realidades, nunca na Madeira, e pelas escolas por onde andou, sentiu qualquer pressão ou qualquer mal-estar, relacionados com o alegado défice democrático do Reino do Jardim. Por lá fala-se à vontade, as pessoas exprimem livremente as suas opiniões e os seus desacordos. Enquanto por cá... há medo, há suspeição(sic). Perante tanta certeza e determinação deixei-o falar.
Mas há qualquer coisa que não bate certo, então os conselhos executivos das escolas democraticamente eleitos pelos pares, não passavam de um bando de malfeitores, ainda por cima de um determinado partido, sedentos de poder e que só esperavam ter as costas quentes, alguém que lhes aprovasse e até lhes incentivasse o jogo, para começarem a dar azo à sua autoridade ditatorial e pidesca? É possível acreditar nisto? Ainda por cima generalizando-se por esse país fora, como esse amigo me queria fazer crer.

fala Susan Barton

“Não sou uma história, senhor Foe. Posso dar a impressão de ser uma história, porque comecei o conto de mim própria sem preâmbulo, deslizando borda fora e lançando-me para a praia. Mas a minha vida não começou nas ondas. Houve uma vida anterior à água, que remonta às minhas buscas infrutíferas no Brasil, e daí aos anos em que a minha filha ainda estava comigo e daí ao dia em que nasci. Tudo isto forma uma história que não desejo contar. Escolho não contar, porque a ninguém, nem mesmo a si, devo provas de que sou um ser consistente com uma história com substância no mundo.”



"A ilha" J.M. Coetzee

14.1.08

A ilha “Foe”

Na semana que passou li dois Coetzee, os meus primeiros Coetzee que a minha vida não dá para tudo. Li “A Desgraça” e a “Ilha”. Os livros de Coetzee, pelo menos estes dois, vivem muito de diálogos empolgantes e por isso são curtos em extensão e lêem-se com avidez. Li primeiro “A desgraça” e fui passando por emoções várias, da empatia à irritação.
Com a “Ilha” foi o fascínio. A “Ilha” fala da arte de contar uma história e a relação da história contada com o que realmente aconteceu. E o que é que realmente aconteceu?; onde acaba a vida e começa a criação literária e porque será esta história melhor, no sentido de contar melhor (com mais verdade? e o que é a verdade?) do que aquela outra?

11.1.08

Requiem pela Baixa



Não gosto de me dar por vencida, de dar o braço a torcer, e abomino centros comerciais. Quando era pequena ouvia umas descrições de Montreal que me fascinavam: contavam-me que por lá nem era preciso por um pé na rua, tudo eram galerias cobertas. Aproximamo-nos disto e eu não gosto. Mas nem sempre preciso de comprar chapéus da chapelaria qualquer coisa, nem agulhas e lãs para tricotar cachecóis, e quase tudo o resto já desapareceu da Baixa. Ficaram os velhos, as tascas por onde não passou a ASAE, os parques de estacionamento degradados onde uma carrinha de ciganos atapeta o chão com os restos da comida do almoço (e não me chamem xenófoba). Mas não tinha que ser assim!

La revolución

Ontem ouvi uma frase magnífica a um cubano, parece que em Cuba se diz assim:

Sigamos con la revolución... pero sentados e a comer.

8.1.08

Coisas que irritam

Durante as Festas o meu filho convidou uns amigos para virem jantar connosco, todos eles filhos de médicos. Durante o jantar, comentávamos as tradições gastronómicas da quadra, quando um deles diz, “este Natal fartei-me de comer leitão, veio do Hospital onde o meu pai trabalha”. Eu faço-me de novas, “ah, no hospital do teu pai assam leitões?”. O miúdo ri-se, “claro que não, foi presente de um doente”. E começaram todos, alegremente: “ao meu pai (à minha mãe) dão mais queijos, dão mais presuntos, dão mais...”. Não era altura para grandes filosofias ou para lições de moral, nem os miúdos têm culpa alguma da sociedade de subserviência em que ainda vivemos, e a conversa acabou ali. Obviamente aquilo não era novidade para mim, soube até de um médico que vendia (!!!!) aos amigos os presuntos que lhe davam, e que de serem tantos a família não conseguia comer.
Nunca a mim me passaria pela cabeça dar um presente a um médico. Seja no público ou no privado são pagos (e, pelo menos na medicina privada, muitíssimo bem pagos) pelo seu trabalho; normalmente são os mais humildes que o fazem, aqueles que ganham menos num mês do que o senhor doutor numa tarde de consultório. É disto que se faz o atraso de um país.

6.1.08

Luiz Pacheco



Morreu o Luiz Pacheco
e como eu gostava dele.

o maldito, o bendito

dia em que o apanhava, na rádio ou nos jornais e revistas, em mais uma inconveniente,lúcida, louca, desbocada e sincera entrevista era dia grande. O Luiz Pacheco a arrastar o saco de plástico cheio de medicamentos e a debitar verdades impróprias, que imagem.



PS Já agora, também tenho saudades da Kapa.