30.3.07

De memória: Portugal, fim dos anos 60 princípio dos anos 70

Do que eu me lembro:

Os meus avós viviam numa aldeia do Baixo-Minho. No lugarejo onde viviam havia a casa deles, relativamente grande, rodeada de casinhas pequenas e quintais.
As fábricas de fiação e tecidos cresciam como cogumelos e começava a viver-se melhor por aqueles lados. As grandes fomes tinham passado e as pessoas dividiam os dias entre a horta e a fábrica. Apesar disso, ainda me lembro dos carros de bois a chiarem pela estrada e de alguns miúdos, descalços, a correrem atrás do arco.
Os dias eram marcados pelo toque do canudo. O canudo era a enorme chaminé das fábricas, e o toque era a chamada para o turno seguinte. As fábricas laboravam dia e noite. À noite, quando já estava deitada, ouvia os ranchos de mulheres que passavam na estrada, tinham despegado do turno que acabava às 10, trabalhavam oito horas de seguida. Lembro-me de entrar com a minha avó nos imensos hangares das fábricas, onde centenas de teares se derreavam de trabalho, e as mulheres atrás deles, e de ficar surda pelo barulho. Para uma menina pequena tudo aquilo era muito impressionante.

A minha avó era a Senhora. Todo o dia se ouvia pela casa, Minha Senhora!!! Os vizinhos descalçavam os socos à porta, entravam, os pés nus, e chamavam, Minha Senhora.
E chamavam muitas vezes. Vinham pedir para telefonar ou para receberem um telefonema. Mesmo o Sr António da lenha, assim chamado porque negociava em lenha, tinha o seu escritório, ou pelo menos a cabine telefónica, ali em casa. Era engraçado o Sr António da lenha, gostava de falar com os seus clientes pela nossa hora de jantar e o telefone ficava no corredor muito perto da sala de jantar; era habitual comer a sopa com o som de fundo dos palavrões ao telefone do Sr António da lenha, ou não estivéssemos no Minho. E nós, as crianças, ríamos baixinho, um riso nervoso, perante o olhar severo e reprovador do meu avô.
Os vizinhos também vinham pela injecção. Em casa dos meus avós era frequente estar no fogão um tacho de água com umas latinhas dentro (como eu gostava daquelas latinhas) e dentro das latinhas as seringas de vidro e as agulhas com que a minha avó dava injecções ao povo da aldeia, não que a minha avó fosse enfermeira. Também vinham chamá-la em caso de maior aflição, e quando a minha avó se decidiu a tirar a carta de condução, se o médico não vinha a casa e ela via o caso mal parado, metia o doente no carro e toca a ir para o hospital.


Que ninguém veja qualquer laivo de poesia ou de saudosismo nestas lembranças. Se a recordação da minha avó, grande mulher, me é muito grata... E se para as crianças como eu a vida corria leve e esperançosa, o mesmo não se podia dizer daquelas gentes. Apesar de na maioria das famílias já não se passar fome, de conseguirem juntar para darem um motor (uma motorizada) aos filhos e uma mala de limpeza (a mala do enxoval) às filhas casadoiras, faltava-lhes tudo, faltava-lhes o acesso à educação, à saúde, à segurança no trabalho, a um futuro diferente para os filhos.*


*Filhos que chegados aos 12 ou 14 anos começavam também a percorrer o caminho da fábrica e, ao fim do mês (ou da semana), entregavam o que ganhavam aos pais.

28.3.07

Da Primavera

Quando eu e as minhas amigas éramos jovencitas tínhamos por hábito falar citando títulos de livros. De um dia como o de hoje diríamos: Dia Cinzento e outros contos.*

É isto a Primavera?

* Livro de contos de Mário Dionísio

Ser mãe (ou ser pai)


Que coisa bonita:

é que eu nunca fui para longe sem mim; e ele vai

Portugal, um retrato social

Portugal, a meio dos anos 80 (sec XX), uma aldeia da ria:

O pai, camionista de profissão, bruto de feitio, de dia ninguém o via, à noite sentava-se sozinho numa sala onde a mãe lhe servia a ceia, nunca comia com a família. A mulher ou as filhas cozinhavam-lhe todos os dias a mesma refeição, uma panela de batatas, bacalhau e vagens cozidas, que acompanhava com três quartilhos de vinho da pipa da taberna. Não dirigia a palavra à mulher e aos filhos, imagina-se que, quando necessário, os açoitava a todos (ou talvez não).
A mãe, tratava da casa e da criação com a ajuda das filhas, no resto do tempo cuidava do negócio da família, uma taberna com mercearia incorporada, por uma porta entravam os bebedores, pela outra as mulheres como ela, que se vinham aviar de pão, azeite, arroz ou uma barra de sabão clarim. A mãe e o pai tinham completado a quarta-classe.
O filho mais velho, 9º ano completo, seguia as pisadas do pai, na profissão e no resto. Não falava com os irmãos e imagina-se, que se necessário, lhes distribuía tabefes (ou talvez não). Era simpático para a forasteira, talvez por isso mesmo, por a considerar uma forasteira, a bem dizer uma extra-terrestre.
A filha mais velha, sonhadora consegue quebrar o ciclo e ir estudar para a universidade, vivia em liberdade muito condicionada. Nas férias voltava a casa e comportava-se como o pai e a mãe esperavam que se comportasse, ajudava em casa e na taberna.
O filho mais novo, um adolescente com problemas de personalidade, frágil, não dava nada nos estudos nem na vida. De uma timidez patológica não se sentou à mesa da família enquanto a forasteira por lá passou.
A filha mais nova, estudava na escola da vila, e no resto ajudava na casa e na taberna, apesar de muito nova os bebedores tinham-lhe grande respeito. A única personagem alegre de toda a família.


Adenda - Como é hábito perdi o primeiro documentário do António Barreto (ser mãe oblige). Já ouvi da sua qualidade e espero não perder os próximos.

Cheguei-me per'ela com gran cortezia


Jan Vermeer (sec XVII)

27.3.07

Não acho nada

Há muito quem ache coisas, quem tire ilações, do facto do Oliveira Salazar ter ganho um concurso de televisão. Eu não acho nada. E acho que já dei demasiada importância ao assunto ao escrever 3 linhas sobre isso.
Mas, acho que já era tempo da TV, e particularmente a TV pública, ter uns programas melhorinhos e de não vir com o argumento do entretenimento, nem de este programa ter passado (ter origem?) na BBC. Porque sobre o bom gosto do povinho inglês estamos conversados, basta ver como se alimentam, basta vê-los aos domingos, vermelhos e gordos, espojados na relva a empanturrarem-se de chips com vinagre.


Adenda das 16.30 - anuncia-se para logo, na RTP1, o documentário do António Barreto "Portugal, um retrato social". Valha-nos...

The other side of the coin

Video de 2005, infelizmente sempre actual.

26.3.07

24 de Março de 1980

Oscar Romero, arcebispo de San Salvador morre às mãos de um regime ditatorial apoiado pelos Estados Unidos.



Romero was shot to death on March 24, 1980 while celebrating holy Mass at a small chapel near his cathedral, the day after he gave a sermon in which he called for soldiers as Christians to obey God's higher order and to stop carrying out the government's repression and violations of basic human rights. According to an audio-recording of the Mass, he was shot moments after the homily, which he had concluded with an improvised pre-Eucharistic prayer thanking God (the homily in the Roman Catholic Rite more or less signifies the end of the Liturgy of the Word and the beginning of the Liturgy of the Eucharist or Mass of the Faithful). It is believed that his assassins were members of Salvadoran death squads, including two graduates of the U.S.-run School of the Americas. This view was supported in 1993 by an official U.N. report, which identified the man who ordered the killing as Major Roberto D'Aubuisson,[5] who later founded the Nationalist Republican Alliance (ARENA), a political party which came to power in 1989 and still rules today. Rafael Alvaro Saravia, Roberto D'Aubuisson's driver, was found liable in connection with the murder by a U.S. court in 2004.
When he was shot, his blood was spilled over his own altar and some say it went into the communion wine.
Romero is buried in the Metropolitan Cathedral of the Holy Savior (Catedral Metropolitana de San Salvador). The funeral mass (rite of visitation and requiem) on March 30, 1980, in San Salvador was attended by more than 250,000 mourners from all over the world. Viewing this attendance as a protest, Jesuit priest John Dear has said, "Romero’s funeral was the largest demonstration in Salvadoran history, some say in the history of Latin America."
During the ceremony, a bomb exploded on the Cathedral square (Plaza Barrios) and subsequently there were shots that probably came from surrounding building. While almost no one died of the bomb or the shots, many people were killed during the following mass panic; official sources talk of 31 overall casualties, journalists indicated between 30 and 50 dead.[6] Some witnesses claimed it was government security forces that threw bombs into the crowd, and army sharpshooters, dressed as civilians, that fired into the chaos from the balcony or roof of the National Palace. However, there are contradictory accounts as to the course of the events and "probably, one will never know the truth about the interrupted funeral" [7]
Twenty-five years later, the BBC recalled the horror:
"Tens of thousands of mourners who had gathered for Romero's funeral Mass in front of the cathedral in San Salvador were filmed fleeing in terror as army gunners on the rooftops around the square opened fire. ... One person who was there told us he remembered the piles of shoes left behind by those who escaped with their lives."
As the gunfire continued, the body was buried in a crypt beneath the sanctuary. Even after the burial, people continued to line up to pay homage to their martyred prelate.

Na wikipedia

24.3.07

Como dizia a minha tia Francisca, está tudo doido

Depois da Esmeralda entreteve-se o país com a Andreia. Felizmente para as famílias envolvidas houve aquela reunião dos centristas para re-centrar as atenções pacóvias.
Oh bom povo, imaginam quantas Andreias, quantas Esmeraldas há por esse país fora? Só uma das muitas instituições de acolhimento do nosso piqueno país (uma qualquer) podia encher noticiários de histórias tristes, difíceis, muito complicadas.
Mas o povo distrai-se, rejubila, e de onde menos se espera vêm as opiniões mais desprovidas de bom senso, para dizer pouco, diria mais, a raiar ideologias de pureza da raça, os pobres, essa gente feia, a menina não estaria melhor com aquela mulher que a raptou? E assim se passa a Quaresma enquanto se assiste à Bela e o Mestre, programa de entretenimento que tem como fim acabar com estereótipos.

19.3.07

Uma história de quase nada


Cenário – um salão de cabeleireiro, paredes azuis onde borboleteiam borboletas de bazar chinês, o chão de quadrados laranja, pequenas prateleiras de vidro onde se dispõem geometricamente frascos de produtos capilares, uma mesa baixa, também de vidro, com um ramo de flores tão falsas como as borboletas das paredes.

Personagens - o homem, a mulher e a menina.

O homem – a menina cuide bem da minha senhora que nós temos muito tempo. E tu diz à menina como gostas do cabelo, vá não te acanhes.

A mulher – pois longe vai o tempo em que eu não almoçava para ter tempo para ir arranjar o cabelo.

A menina sorri condescendente e maneja as tesouras com destreza.

O homem – a minha senhora trabalhou quarenta anos, na loja das lãs, a menina conhece?

A menina – claro que conheço.

O homem – a menina não pode conhecer a loja das lãs, há muito que ardeu.

A menina com o sorriso de quem foi apanhada em falta – Ah!

O homem – gostas? era assim que querias? A menina ponha-lhe aí um bocadinho de laca para o penteado se não estragar.

A mulher e a menina sorriem.

O homem – mas que bonita tu estás! Mas se tu para mim és sempre bonita…. E a menina … como se chama a menina?

A menina – Lúcia.

O homem – pois menina Lúcia havemos de vir cá muitas vezes, que eu bem vejo como a minha senhora está satisfeita. Olhe havemos de vir cá até… até… olhe enquanto formos vivos, que depois já não é preciso.

Saem os dois apoiados nas bengalas, sorriem.

As borboletas borboleteiam com mais força.

16.3.07

A Esmeralda e a Andreia

Na última semana quase não vi televisão e desde Domingo que não pego num jornal. Por isso não acompanhei toda a exploração que imagino que os media portugueses terão feito do caso Andreia. Não vi manifestações populares em Lousada nem em lado algum.

Das manifestações populares, tenho para mim, que podem ser de gente inculta, atrasada ou de pessoas que sofrem no pelo e que ninguém ouve consoante nos identificamos ou não com as suas reivindicações: se a população de Felgueiras sair à rua para defender a Fátima é atrasada e infectada de caciquismo, as mesmíssimas pessoas transformam-se em gente informada, que sabe o que quer e do que precisa, se se manifestarem contra o encerramento de uma maternidade (eg).

As crianças Esmeralda e Andreia:

tudo as une, as circunstâncias as separam. Ambas vítimas de adultos que se não têm más intenções, têm pelo menos uma grande falta de juízo. Por amor podem fazer-se as melhores coisas e as maiores asneiras.
O Eduardo Pitta interrogava-se:
Será que, no seu caso, não há lugar a quebra de vínculo afectivo? À perda de referentes? Ao desmoronar da “construção” identitária? Não sofrerá, também ela, uma perda irremediável? Ou só as meninas que estão em parte incerta é que têm direitos?


Claro que a todas estas perguntas, com excepção da última, se deve responder com um grande sim.

Mas, se em relação ao casal que “adoptou” a Esmeralda se pode dar todo o benefício da dúvida, apesar de tudo recebeu a bebé “legitimamente” das mãos da mãe biológica (embora seja difícil de engolir todo o resto da história) e ao que se sabe até hoje amou a menina como se amam os filhos, o mesmo não se me oferece dizer no caso da Andreia. Que mãe é esta capaz de roubar a filha a outra mãe? que utiliza um bebé recém-nascido (transformando o bebé em coisa que se oferece) como prova de amor ao marido? Que sentimento obtuso é esse amor? por mais que tenha cuidado da menina com desvelo.

Se calhar quem merece mais pena nesta história toda são duas meninas adolescentes que da noite para o dia viram toda a sua vida e os os seu alicerces serem destruídos.

Fait-divers? Porque é curta a memória.

Daqui a pouco estão a dizer que o culpado da invasão do Iraque foi o Hans Blix. Porque não foi suficientemente assertivo. Porque sabia muitas mais não-coisas do que disse. Porque..

Como se qualquer coisa que ele tivesse dito ou deixado de dizer fizesse alguma diferença. Como se alguém de boa-fé acreditasse na existência das tais armas.
Como se o Sr Bush estivesse interessado em ouvir alguém que não defendesse os seus bushianos interesses.

13.3.07

E tudo isto é arte

nesta fotografia, pescada na net, supostamente o autor contempla a sua obra com orgulho, lá no tal museu holandês onde por exigência do curador era preciso eliminar um espaço.



O que eu vi:

Um imenso reposteiro de veludo vermelho que serviria para separar dois espaços.


O que eles me disseram:

O átrio do museu está ocupado por uma obra sem título de Niek Kemps (NL) que antes de mais nada consome espaço – era essa exactamente a função da obra quando foi realizada: eliminar o espaço de um museu holandês que (queixou-se o curador) não se prestava à exposição de obras. A posição curiosa da obra deve-se, pois, ao facto de ela se encontrar onde uma obra não deveria ser mostrada. O lugar precário dessa obra, situado entre presença e ausência, encontra eco na sua forma: um pano de veludo rico e sedutor cobrindo uma estrutura desconhecida.

Não haverá por aí uma alma caridosa que diga umas verdades a estes senhores?


Fundação de Serralves, Anos 80.

Lendo blogs: culturas diferentes da minha.

Da Alemanha

à Cova da Moura (série de posts do JPN)

passando por Timor (num dos meus top 5 blogs).

12.3.07

Polémico???? Elementar!

A ler Eugénio Lisboa no Da literatura.

Coal + Train = Coltrane

O que eu vi, e o que o pequeno M. viu:

uma linha de comboio espraiada numa planície aqui e além temperada com umas tábuas ao alto que se haviam de revelar tampas de piano; na linha um comboio, que para alguns é azul, mas que para mim e para o M., que anda a aprender as cores e que por isso é mais rigoroso, é um comboio roxo. Ao lado do comboio identifiquei um monte de carvão (aos olhos do M. um monte de pedras). Isso foi o que nós vimos.

No final da exposição perguntei a M. do que é que ele tinha gostado mais naquela casa toda, e ele respondeu que não tinha gostado de nada*. Mas eu sei que ele gostou do comboio roxo e do croissant que comeu na cafetaria.

O que eles viram:

David Hammons (EUA) utiliza a linguagem e referências musicais como instrumentos para situar a sua obra fora do espaço cultural restrito dominado pela cultura branca. Chasing the blue train (…) é uma homenagem ao saxofonista de jazz John Coltrane – sendo o seu nome ilustrado por meio de uma pilha de carvão (coal) e um comboio de brincar (train):

coal + train = Coltrane.

*Opinião que eu me arriscaria a partilhar com ele, não fossem algumas boas fotografias (nomeadamente de Cindy Sherman).


Anos 80, em Serralves até 25 de Março

Prova Superada

Quem vier aqui à procura do “template disaster” desilude-se.
Tudo foi recuperado seleccionando no blogger “classic template”

9.3.07

Upgrade uma m.

Aviso

Se vos perguntarem se querem fazer um upgrade do template. Digam: NÃO!

Vejam o que pode acontecer:

links para outros blogs, desapareceram!

essas setas ridículas aí à direita.

a palavra postagem (que eu odeio) para aí algures.

Isto é castigo...

8.3.07

O menos que podemos fazer



No dia internacional da mulher


Le XXe siècle n’aurait jamais été ce qu’il a été en Occident sans l’émancipation des femmes, et c’est le grand enjeu du XXIe siècle dans les pays émergents. Mais il n’y a pas d’emancipation sans instruction...

Claire Chazal, jornalista da TF1

7.3.07

Da escola dos nossos dias, ou infelizmente o bom senso não está à venda

O Francisco José Viegas reflecte no “A origem das Espécies” sobre as causas da violência sobre professores.

As coisas são sempre muito mais complexas (ou muito mais simples) do que o que parecem.

1- A “escola centrada no aluno” faz parte do mesmo pacote da família centrada no menino, tantas vezes tão malcriadinho. Eu que tenho filhos de várias idades, costumo dizer, que os pais classe média de hoje, mais do que os de há dez anos, são uns totós, que para além do trabalhinho vivem para os meninos quase os sufocando. Um drama porque o menino vai mudar de professor na escola, um drama porque o menino tem muitos testes esta semana. “Ainda temos que fazer os trabalhos de casa” Temos? pergunto eu. - quem tem que os fazer é o menino, o papá pode quando muito tirar-lhe alguma duvida se ele a tiver.

2- Há um divórcio imenso entre a família e a escola, em caso de dúvida culpe-se a escola. Os meus filhos frequentam uma escola privada onde não há, obviamente (e o obviamente para mim é óbvio) problemas de disciplina. Onde os pais confiam na escola e não contestam toda e qualquer medida que a escola pretenda tomar para manter essa disciplina.
Uma história ilustrativa: um dos meus filhos estava, juntamente com alguns colegas, a portar-se mal no refeitório. O professor que tomava conta do refeitório pegou neles e em vez de os deixar ir para o recreio, levou-os para a cozinha onde estiveram algum tempo a ajudar a descascar cenouras. Isto, que me foi contado ao jantar pelo meu filho, chama-se no regulamento disciplinar, fazer trabalhos comunitários, e foi-me explicado por uma amiga que para se aplicar essa medida numa escola pública é necessário o consentimento dos pais. Pasmei!

3-Da minha experiência de professora numa escola EB23, recordo a falta de solidariedade entre professores, mais prontos a acusarem um colega de falta de autoridade (raiando a maldade e a zombaria disfarçada, na minha sala isso não acontece, não percebo porque se comportam assim contigo) do que a ajudá-lo e a adoptarem estratégias concertadas.

4-No ensino superior eu diria, e já o disse noutro lado, que é saudável que os estudantes protestem, que reivindiquem, mesmo que as reivindicações pareçam absurdas e exageradas; é função dos corpos dirigentes, dos professores e reitores, analisarem as reivindicações e decidirem sem populismo. Em Coimbra já não há portas trancadas, mas lembro-me da vergonha que senti, quando pretendi levar um professor alemão à Biblioteca Joanina e deparei com a Porta Férrea fechada a cadeado.

post publicado no Aba de Heisenberg

Sempre o Iraque

Segunda-feira, 6 de Março de 2007 – mais de 120 mortos em ataques e confrontos.

6.3.07

Do ensino da música

A propósito de um estudo encomendado pelo ME sobre o ensino da música, em que supostamente se aponta como caminho a existência de escolas (os conservatórios) que ministram o ensino da música integrado no ensino em geral, entendeu a Antena 1 que este seria um bom tema para a Antena Aberta que passa todas as manhãs. Normalmente não oiço a Antena Aberta por duas grandes razões: 1- porque estou a trabalhar, 2 – porque não há paciência para ouvir tanto disparate, e digo que os moderadores deste tipo de programas devem ser gente de sistema nervoso particularmente sólido para ouvirem aqueles arrazoados sem desatarem a correr tudo à chapada. Hoje, não se verificava a primeira condição e como o tema me interessava, por ter dois filhos que somam às horas que passam na escola mais algumas passadas no conservatório e mais aquelas em que precisam de praticar em casa, decidi-me a ouvir. E como já esperava o director da escola dos meus filhos participou no debate, e fê-lo de uma forma exemplar, porque por mais que a moderadora pedisse mortos e feridos, ele limitou-se a dizer que estava contente por finalmente se falar do ensino da música, coisa que até há bem pouco não acontecia, que ao que sabia o que o ME tinha pedido era uma avaliação deste tema e que portanto tudo ainda estava em aberto e que, como ainda não tinha tido acesso ao documento, não se ia pronunciar sobre ele.

Das vantagens da ensino da música

Ter filhos no conservatório é de uma exigência imensa, quer para os pais quer para os miúdos. Para os pais porque exige grande disponibilidade para num corre-corre diário transportarem as crianças para cá e para lá. Para os miúdos porque lhes aumenta a carga horária escolar já sobrecarregada e os obriga a uma grande disciplina. E aí talvez o ensino integrado facilitasse as coisas.
Mas o contacto com a música (como com todas as artes) e a aprendizagem de um instrumento musical tem vantagens formativas inigualáveis. Porque para além da fruição do belo, porque para além de desenvolver umas não sei quantas capacidades do nosso cérebro, ensina às crianças que, para se fazer uma coisa muito bem feita é necessário muito esforço e dedicação, coisa que a escola nem sempre ensina, e que esse esforço compensa.

Dibujos animados



Parece que a televisão em Portugal faz hoje 50 anos.
Os canais generalistas acabaram com a programação infantil, agora criança de quatro anos que se preze vê a Floribela ou os Morangos com Açúcar ou o mais que educativo Preço Certo, que é de pequenino...
Salva-se a 2: que dá bons desenhos animados e séries infantis logo pela manhã. Há o Ruca, o retorno da Rua Sésamo e o meu preferido, um menino chamado David que sonha coisas fantásticas. Depois a programação continua manhã fora, mas de pouco serve porque a essa hora os meninos estão nas escolas ou nas creches. Ao fim da tarde dá outro cheirito, mas pelo menos aqui em casa é de pouco uso, ou até contraproducente, porque é a hora de jantar e não se janta com televisão. E é tudo. Quem tem cabo pode ter o Panda, que na maior parte do tempo passa aqueles desenhos animados japoneses esquisitos, Cartoon Network que não é acessível nem ao inglês das crianças geração sócrates, e se pagar ainda mais o Dysney Channel, de que não falo porque, como não pago, não conheço.
Oh que felizes que nós éramos, até sinto saudades do Vasco Granja com aqueles desenhos animados de leste a que, por mais que eu quisesse ser uma criança intelectual, não conseguia achar muita graça.

Less is more




Quando comparava o tamanho da minha casa com a dos meus colegas em Paris, eles diziam, uau!!!, o meu T3 era simplesmente gigante comparado com os 30 ou 40 m2 em que eles têm que viver.
A minha casa, quando comparada com algumas que conheço, é pequena. Para que querem eles umas casas tão grandes se só têm dois filhos? para além do mais é pouco ecológico.
Casas grandes faziam sentido quando eram verdadeiramente casas de família, quando várias gerações as habitavam, mas hoje em dia?... parece um bocado, a minha casa é maior do que a tua, o meu carro é maior (mais potente, mais…) do que o teu. Vi uma vez uma reportagem, numa cidade americana qualquer, em que ruas inteiras estavam a ficar completamente descaracterizadas porque os vizinhos viviam a deitar abaixo e a construir maior num concurso sem fim à vista.

Pois, aqui pela Europa, dita civilizada, a tendência é a oposta, pelo menos para estes arquitectos e designers autores da micro-compact-home de 7 m2.

5.3.07

O menos que podemos fazer


Todos os anos meninas guineenses a residirem em Portugal vão de "férias" à Guiné para serem submetidas à excisão (mutilação genital).

2.3.07

O menos que podemos fazer




De todas as crianças escolarizadas em todo o mundo apenas 1/3 pertencem ao sexo feminino.

1.3.07

1º de Março




Avermelho as unhas, um vermelho profundo e apetitoso de cereja madura. As ruas, essas acor-de-rosam-se. Até que enfim a Primavera.