19.3.07

Uma história de quase nada


Cenário – um salão de cabeleireiro, paredes azuis onde borboleteiam borboletas de bazar chinês, o chão de quadrados laranja, pequenas prateleiras de vidro onde se dispõem geometricamente frascos de produtos capilares, uma mesa baixa, também de vidro, com um ramo de flores tão falsas como as borboletas das paredes.

Personagens - o homem, a mulher e a menina.

O homem – a menina cuide bem da minha senhora que nós temos muito tempo. E tu diz à menina como gostas do cabelo, vá não te acanhes.

A mulher – pois longe vai o tempo em que eu não almoçava para ter tempo para ir arranjar o cabelo.

A menina sorri condescendente e maneja as tesouras com destreza.

O homem – a minha senhora trabalhou quarenta anos, na loja das lãs, a menina conhece?

A menina – claro que conheço.

O homem – a menina não pode conhecer a loja das lãs, há muito que ardeu.

A menina com o sorriso de quem foi apanhada em falta – Ah!

O homem – gostas? era assim que querias? A menina ponha-lhe aí um bocadinho de laca para o penteado se não estragar.

A mulher e a menina sorriem.

O homem – mas que bonita tu estás! Mas se tu para mim és sempre bonita…. E a menina … como se chama a menina?

A menina – Lúcia.

O homem – pois menina Lúcia havemos de vir cá muitas vezes, que eu bem vejo como a minha senhora está satisfeita. Olhe havemos de vir cá até… até… olhe enquanto formos vivos, que depois já não é preciso.

Saem os dois apoiados nas bengalas, sorriem.

As borboletas borboleteiam com mais força.

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