De memória: Portugal, fim dos anos 60 princípio dos anos 70
Do que eu me lembro:
Os meus avós viviam numa aldeia do Baixo-Minho. No lugarejo onde viviam havia a casa deles, relativamente grande, rodeada de casinhas pequenas e quintais.
As fábricas de fiação e tecidos cresciam como cogumelos e começava a viver-se melhor por aqueles lados. As grandes fomes tinham passado e as pessoas dividiam os dias entre a horta e a fábrica. Apesar disso, ainda me lembro dos carros de bois a chiarem pela estrada e de alguns miúdos, descalços, a correrem atrás do arco.
Os dias eram marcados pelo toque do canudo. O canudo era a enorme chaminé das fábricas, e o toque era a chamada para o turno seguinte. As fábricas laboravam dia e noite. À noite, quando já estava deitada, ouvia os ranchos de mulheres que passavam na estrada, tinham despegado do turno que acabava às 10, trabalhavam oito horas de seguida. Lembro-me de entrar com a minha avó nos imensos hangares das fábricas, onde centenas de teares se derreavam de trabalho, e as mulheres atrás deles, e de ficar surda pelo barulho. Para uma menina pequena tudo aquilo era muito impressionante.
A minha avó era a Senhora. Todo o dia se ouvia pela casa, Minha Senhora!!! Os vizinhos descalçavam os socos à porta, entravam, os pés nus, e chamavam, Minha Senhora.
E chamavam muitas vezes. Vinham pedir para telefonar ou para receberem um telefonema. Mesmo o Sr António da lenha, assim chamado porque negociava em lenha, tinha o seu escritório, ou pelo menos a cabine telefónica, ali em casa. Era engraçado o Sr António da lenha, gostava de falar com os seus clientes pela nossa hora de jantar e o telefone ficava no corredor muito perto da sala de jantar; era habitual comer a sopa com o som de fundo dos palavrões ao telefone do Sr António da lenha, ou não estivéssemos no Minho. E nós, as crianças, ríamos baixinho, um riso nervoso, perante o olhar severo e reprovador do meu avô.
Os vizinhos também vinham pela injecção. Em casa dos meus avós era frequente estar no fogão um tacho de água com umas latinhas dentro (como eu gostava daquelas latinhas) e dentro das latinhas as seringas de vidro e as agulhas com que a minha avó dava injecções ao povo da aldeia, não que a minha avó fosse enfermeira. Também vinham chamá-la em caso de maior aflição, e quando a minha avó se decidiu a tirar a carta de condução, se o médico não vinha a casa e ela via o caso mal parado, metia o doente no carro e toca a ir para o hospital.
Que ninguém veja qualquer laivo de poesia ou de saudosismo nestas lembranças. Se a recordação da minha avó, grande mulher, me é muito grata... E se para as crianças como eu a vida corria leve e esperançosa, o mesmo não se podia dizer daquelas gentes. Apesar de na maioria das famílias já não se passar fome, de conseguirem juntar para darem um motor (uma motorizada) aos filhos e uma mala de limpeza (a mala do enxoval) às filhas casadoiras, faltava-lhes tudo, faltava-lhes o acesso à educação, à saúde, à segurança no trabalho, a um futuro diferente para os filhos.*
*Filhos que chegados aos 12 ou 14 anos começavam também a percorrer o caminho da fábrica e, ao fim do mês (ou da semana), entregavam o que ganhavam aos pais.
Os meus avós viviam numa aldeia do Baixo-Minho. No lugarejo onde viviam havia a casa deles, relativamente grande, rodeada de casinhas pequenas e quintais.
As fábricas de fiação e tecidos cresciam como cogumelos e começava a viver-se melhor por aqueles lados. As grandes fomes tinham passado e as pessoas dividiam os dias entre a horta e a fábrica. Apesar disso, ainda me lembro dos carros de bois a chiarem pela estrada e de alguns miúdos, descalços, a correrem atrás do arco.
Os dias eram marcados pelo toque do canudo. O canudo era a enorme chaminé das fábricas, e o toque era a chamada para o turno seguinte. As fábricas laboravam dia e noite. À noite, quando já estava deitada, ouvia os ranchos de mulheres que passavam na estrada, tinham despegado do turno que acabava às 10, trabalhavam oito horas de seguida. Lembro-me de entrar com a minha avó nos imensos hangares das fábricas, onde centenas de teares se derreavam de trabalho, e as mulheres atrás deles, e de ficar surda pelo barulho. Para uma menina pequena tudo aquilo era muito impressionante.
A minha avó era a Senhora. Todo o dia se ouvia pela casa, Minha Senhora!!! Os vizinhos descalçavam os socos à porta, entravam, os pés nus, e chamavam, Minha Senhora.
E chamavam muitas vezes. Vinham pedir para telefonar ou para receberem um telefonema. Mesmo o Sr António da lenha, assim chamado porque negociava em lenha, tinha o seu escritório, ou pelo menos a cabine telefónica, ali em casa. Era engraçado o Sr António da lenha, gostava de falar com os seus clientes pela nossa hora de jantar e o telefone ficava no corredor muito perto da sala de jantar; era habitual comer a sopa com o som de fundo dos palavrões ao telefone do Sr António da lenha, ou não estivéssemos no Minho. E nós, as crianças, ríamos baixinho, um riso nervoso, perante o olhar severo e reprovador do meu avô.
Os vizinhos também vinham pela injecção. Em casa dos meus avós era frequente estar no fogão um tacho de água com umas latinhas dentro (como eu gostava daquelas latinhas) e dentro das latinhas as seringas de vidro e as agulhas com que a minha avó dava injecções ao povo da aldeia, não que a minha avó fosse enfermeira. Também vinham chamá-la em caso de maior aflição, e quando a minha avó se decidiu a tirar a carta de condução, se o médico não vinha a casa e ela via o caso mal parado, metia o doente no carro e toca a ir para o hospital.
Que ninguém veja qualquer laivo de poesia ou de saudosismo nestas lembranças. Se a recordação da minha avó, grande mulher, me é muito grata... E se para as crianças como eu a vida corria leve e esperançosa, o mesmo não se podia dizer daquelas gentes. Apesar de na maioria das famílias já não se passar fome, de conseguirem juntar para darem um motor (uma motorizada) aos filhos e uma mala de limpeza (a mala do enxoval) às filhas casadoiras, faltava-lhes tudo, faltava-lhes o acesso à educação, à saúde, à segurança no trabalho, a um futuro diferente para os filhos.*
*Filhos que chegados aos 12 ou 14 anos começavam também a percorrer o caminho da fábrica e, ao fim do mês (ou da semana), entregavam o que ganhavam aos pais.
No comments:
Post a Comment