29.9.07

O silêncio dos inocentes

“Não são as vítimas inocentes da repressão que perdem a sua dignidade, mas a comunidade internacional, cuja incapacidade de agir significa que ficam passivamente a olhar enquanto as vítimas são entregues à sua sorte.” Václav Havel, no Público de hoje

Certíssimo, mas quem é a comunidade internacional? E que interesses a move? E quantas Birmânias há por esse mundo remoto?

28.9.07

Sem falsas modéstias

Anda por aí meio mundo escandalizado porque António Lobo Antunes declarou à revista Visão “Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares”. Pois eu acho maravilhoso que, se ele pensa isso dele próprio (não tenho tanto a certeza disso, Lobo Antunes é uma hipérbole dele próprio), tenha coragem de o afirmar. Num país de medianozinho é que está bem, de cá se vai andando, em que não cai bem dizer-se eu sou bom, muito menos a vida corre-me bem.

27.9.07

PSL

Há sempre uma primeira vez: pela primeiríssima vez considero que Pedro Santana Lopes teve uma atitude que merece todo o meu respeito (não que eu siga tão de perto o percurso do PSL, mas bastava-me ir à Figueira e ver o oásis para o homem ir directo para o meu caixote do lixo da parolada bacoca). Oiço na rádio que PSL abandonou um programa da SIC porque, outros muito mais bacocos do que ele, decidiram interromper a programação para transmitirem em directo a chegada do Mourinho à Portela. È nestas alturas que me envergonho da bacoquice do país em que vivo, BOM POBO!

PS Ainda por cima o gajo que chegou à Portela, apesar dos milhões, ainda não aprendeu que não se diz “a minha esposa”, um parolão. E o pobo para, e o pobo espanta.

21.9.07

M’admiro

Durante toda a minha vida vi estudantes de direito a “marrarem” Penal e Processo Penal e a chegarem ao fim do curso a saberem ainda muito pouco dessas matérias e a continuarem a estudar e a estudar, day after day. M’admira agora a quantidade de gente que discursa sobre o novo código do processo penal. Sempre me lembro da resposta que ouvi um amigo meu, médico de longa data e reputado especialista, dar a um “leigo” que lhe dizia saber pouco de medicina; respondeu-lhe esse meu amigo: “Não quem sabe pouco de medicina sou eu, tu não sabes absolutamente nada”.

M’admiro



Durante toda a minha vida vi estudantes de direito a “marrarem” Penal e Processo Penal e a chegarem ao fim do curso e não saberem muito pouco dessas matérias e continuarem a estudar e a estudar, day after day. M’admira agora a quantidade de gente que discursa sobre o novo código do processo penal. Sempre me lembro da resposta que ouvi um amigo meu, médico de longa data e reputado especialista, dar a um “leigo” que lhe dizia saber pouco de medicina; respondeu-lhe esse meu amigo: “Não quem sabe pouco de medicina sou eu, tu não sabes absolutamente nada”.

19.9.07

Perplexidades

Nunca aqui falei deste caso. Como pessoa normal arrepio-me sempre que sei de uma inocente criança que morreu ou sofreu maus tratos às mãos de adultos. Esquecendo o que pode ter acontecido à pequenina Maddie e quem serão os culpados há coisas que verdadeiramente me causam perplexidade, até ao incómodo: isto, isto e isto.


Há qualquer coisa que não bate nada certo.

Da Inveja

Também eu, Ana Clara, também eu sofro de inveja matinal, vejo dois homens a colocar um outdoor e invejo-os, dos carteiros tenho uma inveja imensa, vejo uma mulher a ordenar a fruta à porta da mercearia e invejo-a. Sempre quis ser o que não sou, estar onde não estou… quando era criança, e filha da classe média, nas brincadeiras sempre quis ser pobre, achava os pobres muito mais interessantes, não passava na minha cabeça que os pobres pudessem ter fome ou andar sujos, os meus pobres amontoavam-se em cabanas sem luz, alumiavam-se com velas de cera, vestiam trapos atados à cintura, e corriam descalços na rua, o que me parecia muito mais excitante do que viver em palácios de oiro e vidro e calçar sapatos de cristal, nunca quis ser princesa.

18.9.07

Da felicidade e do infortúnio

Na barraca da sua prisão, Pierre ficou ciente, não só com a inteligência mas com todo o seu ser, com a sua vida, de que o homem foi criado para a felicidade, que a felicidade residia no próprio homem, na satisfação das suas necessidades humanas naturais, e que toda a desgraça não provinha da carência mas do excesso; mas agora, nas três últimas semanas de marcha, ficou ciente de mais uma nova verdade consoladora: no mundo nada havia de assustador. Ficou a saber que, do mesmo modo que não existia uma situação em que o homem fosse totalmente feliz e livre, também não existia para o homem uma situação de infelicidade absoluta e de privação total da liberdade. Ficou a saber que havia um limite para o sofrimento e um limite para a liberdade, e que estes limites estavam muito próximos; que o homem que dormia num leito de rosas, ao ver uma pétala enrolada, sofria tanto como Pierre ao adormecer agora na terra fria e húmida, com um lado do corpo gelado e outro quente; ficou a saber que, quando dantes ele calçava os seus sapatos estreitos de baile, sofria tanto como agora que andava descalço (o calçado dele há muito que se desfizera), com os pés cheios de feridas. Ficou a saber que, ao casar-se com a sua mulher de livre vontade (como lhe parecia naquela altura), não era mais livre do que agora em que o fechavam de noite na cavalariça.


Leon Tolstói, Guerra e Paz

17.9.07

Uma questão de cor?

O meu encontro com o Dalai Lama (post sem interesse nenhum para a humanidade)

Na última visita do Dalai Lama a Portugal, veio a Coimbra e esteve no Teatro Gil Vicente numa Sessão Pública. A entrada era gratuita mas era preciso levantar bilhetes com antecedência, e eu, apesar da grande vontade que tinha de o ver e ouvir, cheguei tarde e não consegui bilhete. Mesmo assim, no dia e hora marcada, fui para o Gil Vicente à espera de um milagre ou pelo menos de ver o Dalai Lama entrar.
Os bafejados pela sorte entravam apressadamente e eu ia ficando para trás. Nessa altura encontrei uma das avós mais chiques que conheço em Coimbra, mas chique a sério, não dessas pirosas; a senhora estava ao mesmo... A certa altura ficámos só as duas e a senhora sentou o seu casaco comprido Armani nas escadas exteriores do Gil Vicente, e esperámos, e o Dalai Lama não entrou pela porta principal. Eu só não me vim logo embora porque a minha companheira continuava a achar que ia conseguir entrar e eu não tinha coragem de a abandonar.
Vejo chegar uma pessoa que eu conhecia de há muitos, muitos anos atrás, que nem era suposto ainda se lembrar de mim quanto mais do meu nome. Essa pessoa, um homem, abeira-se e diz-me – Queres um bilhete Isabel? - e larga-me na mão dois bilhetes.
Depois…
Entrámos e até ficámos bastante à frente, o Dalai Lama irradiava simpatia e tranquilidade. A causa do povo tibeteano e modo como ele luta por essa causa merecem-me o maior respeito. Mas não aconteceu mais nada …

Despedidas


Despeço-me agora de Pierre, Pétia, Nicholas, Helena, Sónia, Andrei, Natacha, Princesa Mária, do Imperador Alexande I e de Napoleão “Buonaparte” e de mais uma corte de Príncipes e Princesas, Condes e Condessas, e de um exército de generais, hussardos, soldados, cossacos, de toda uma multidão que me acompanhou no ultimo mês e meio. Deixo para amanhã uma página das reflexões de Pierre sobre a felicidade e a desgraça.

15.9.07

Alguma comunicação social

Em Junho ou Julho, estava eu entregando o meu lindo cabelo aos cuidados de uma das minhas cabeleireiras preferidas, uma charmosa madrilena, quando esta me põe nas mãos aquelas coisas que só se lêem no cabeleireiro, no caso a revista Caras. E o grande título de capa da Caras de uma qualquer semana de Junho ou Julho dizia que a rainha e a Letícia andavam muito zangadas porque achava a rainha que Letícia que tinha sido mãe em Maio, desgraçadamente de uma menina, já devia estar no mínimo de novo grávida para ver se era desta que vinha o pilas sucessor – depois disso, ao que me disseram, alteraram a Constituição e a pequena Leonor já pode ser candidata ao trono. A frase vinha documentada com uma fotografia a condizer, onde efectivamente se viam ambas as senhoras com cara de muito poucos amigos, carrancas fechadas. Diz-me a L., não é bem assim, já reparou que elas estão vestidas como se estivéssemos no pino do Inverno?- não foi assim que ela disse porque a L. não conhece a expressão no pino do Inverno, mas valeu o mesmo- sabe é que essa fotografia, eu sei porque sou espanhola e por isso sigo a vidinha da corte com interesse, essa fotografia foi tirada no enterro da irmã da Letícia. E o que é interessa esse insignificante pormenor? Se a fotografia vinha mesmo a calhar para a notícia…

14.9.07

Inventem-se novas notícias

Na verdade estou farta que me digam o que hoje deve ser notícia, o que hoje é importante e amanhã não tem importância alguma. Alguém se lembra, ou sabe daquela criancinha, que não há muitos meses emocionou Portugal de lés a lés, disputada pelo sargento do coração e pelo marceneiro biológico?

Lendo outros blogs

Muito bem Francisco José Viegas, filha da putice mesmo.

Muito bem Vital Moreira.

6.9.07

O que muda ou não muda na nossa vida

À falta de melhor , e a Silly Season que nunca mais termina, tenho andado os últimos dias entretida com o meme dos livros que não mudam vidas. Tenho espremido os meus miolos, tenho questionado à esquerda e à direita (sem conotações políticas), mas sem resultado. Como é que das centenas de livros, que um gajo adulto e moderadamente letrado leu, lhe vem logo à cabeça A Náusea ou Em Busca do Tempo Perdido como livros que não mudaram a sua vida? Como sou fraca de memória pasmei diante da minha estante, que passe a imodéstia não é assim tão pequena, percorri os livros um a um e não fui capaz de dizer, este mudou a minha vida. Não sou tão sintética como o Vasco da Memória Inventada nas causas que mudam a vida de um gajo, de certeza que também sou os livros que li, que leio, mas dizer, foi este, este não foi de certeza, parecem-me certezas a mais. Também não vou dizer que os autores dessas listas se estão a armar, não é razão para tanto… Acabo por chegar à Silly Season.


PS O S. fez uma lista dos livros que mudaram a vida dele, encabeçada pelo livro de cheques, seguida do livro de ponto e dos livros de termos.

Neste momento o Guerra e Paz está a modificar bastante a minha vida porque não me deixa fazer mais nada, não fora o dever de dar de comer às minhas criancinhas nem para comer pararia. Aconteceu-me o mesmo com muitos outros livros.