30.4.09

Big Brother is watching you





O ascensorista tem das vidas mais tristes do Universo, magro, de uma palidez cadavérica, olhar perdido, sentado numa cabine obscura só tem olhos para o botão trinta e três depois para o zero, zero trinta e três trinta e três zero zero trinta e três trinta e três zero. O edifício, medonho, foi oferecido por Estaline, a bandeira a marcar o território, big brother is watching you. O mundo mudou e o edifício enche-se de crianças ruidosas alegres e coloridas, o ascensorista indiferente permanece na Guerra Fria. Não vale a pena subir ao trigésimo terceiro andar, Varsóvia é muito mais feia vista lá de cima.



Varsóvia, Palácio da Cultura e da Tecnologia

29.4.09

O 25 de Abril a partir de Varsóvia: Natália Correia sempre

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Natália Correia





No dia 25 de Abril, já bastante tarde, liguei a RTP internacional no quarto do hotel, José Mário Branco cantava Natália Correia, a assistência muito bem, fato escuro e cravo na lapela. Nada debarbudos e cabeludos de calças de ganga e camisas xadrês.

Portugal

Regresso da Polónia e aqui tenho frio, nada que tenha a ver com a conversa que se segue. Nos dias que passei em Varsóvia um pensamento me ocorreu constantemente, povo que tem cultura tem tudo, mesmo que falte a carne no super-mercado (o que agora já nem é o caso). Por cá continua a falta de chá.


Amesterdão

Continua uma cidade suja e caótica, eternamente em obras. Mas em que outra cidade encontrar, no meio de bolbos de tulipas e estrelícias, uns singelos sacos anunciando: "Cannabis starting Kit"?

Da água


Com isto de não se poder entrar com líguidos dentro dos aeroportos a água atinge preços proibitivos, um escândalo, uma roubalheira. Ainda por cima quando voar desidrata. Em Frankfurt, vejo uma promoção leve-duas-pague-uma. Tudo excelente, excepto que o pague-uma significa 4.95 euros por 500 mL de uma normalíssima água mineral, leve-uma-pague-dez.

100 g


Conhecia a história dos tempos da fome na Polónia, mas a tradição mantém-se na sociedade da fartura: nos restaurantes as ementas anunciam 100 g de bife mal passado, 30 mL de vodka (oh o (a) vodka polaco!). Sem balança só temos que confiar em que o salmão foi correctamente pesado.

Da cor

Picasso, woman with a flower



Renata diz que só conheceu o sabor do chocolate na adolescência, que até aí as lojas estavam irremediavelmente, insuportavelmente vazias. Renata descobriu a cor da liberdade no início da adolescência, até uma criança se dava conta, as nossas roupas de repente adquiriram cor. A Polónia festeja agora 20 anos de cor.

23.4.09

Indignações

Procedimentos Alternativos

O Largo

O condestável

Desde quando é que aquilo que a ciência ou a medicina não conseguem explicar passa a ser milagre?

E se acontecer não é uma traição é um resguardo



Ontem no TAGV, com o realizador himself. A Corte do Norte, um filme como uma sucessão de telas. Caravaggio. A luz de Ana Moreira. Por detrás as palavras mestras de Agustina.


A Corte do Norte, de João Botelho

no festival Caminhos do Cinema Português até 26 no TAGV

22.4.09

Da publicidade e as crianças





Não culpem só a publicidade. Cada macaco no seu galho, a publicidade ocupa o lugar que os pais deixam livre. Costumam afagar-me o ego dizendo que os meus filhos sabem muitas coisas e eu penso para comigo mesma que os filhos dos outros é que sabem poucas. Os pais falam pouco com os filhos, os pais não investem em criar outros interesses nos filhos e depois vêm com o papão publicidade. É claro que a publicidade não é ingénua, que hoje em dia é mais difícil dizer não, que a publicidade deve ser regulamentada e não autorizada a que é enganosa. Mas os meus filhos não comem mais fast food porque assistem a publicidade, comem a fast food que eu deixo que eles comam. É mais uma vez um problema de cultura, ou da falta dela.

21.4.09

Polónia


Ainda esta semana parto por uns dias para a Polónia. Não tenho o menor interesse nem as menores expectativas em relação ao país. Se há uma cor associada a uma terra para mim a Polónia é o cinzento escuro, escuro sem ser antracite, cor muito mais interessante. Há muitos anos fui guia de um grupo de teatro polaco que veio a Coimbra participar num festival. Fui buscá-los ao aeroporto e de seguida levei-os a comer arroz à valenciana num restaurante abaixo da média, adoraram o exotismo. Os homens mostraram grande interesse pelas revistas de mulheres nuas expostas nos escaparates das avenidas, nada que os impedisse de em seguida ajoelharem com extrema devoção na Basílica da Estrela. Consegui escapar à peregrinação a Fátima. A simpatia que sinto pela Polónia é a mesma que me suscitou aquele grupo. Preconceitos. Na volta vos contarei.

Persepolis




Tão lindo este filme. Há umas semanas atrás (no mesmo dia em que vi o filme) Alexandra Lucas Coelho dizia no TAGV que no médio oriente o número de mulheres veladas aumenta de dia para dia. Alexandra Lucas Coelho disse ainda outra coisa muito importante, e que tendemos a ignorar, o Mundo é muito grande.

A Casa dos Budas Ditosos: a luxúria


Um livro pornográfico? Não, a luxúria, esse pecado capital. A vida de uma mulher para quem “viver é foder” magnificamente recontada por João Ubaldo Ribeiro. "Eu não pequei contra a luxúria. Quem peca é aquele que não faz o que foi criado para fazer. E eu fiz o que Ele me criou para fazer". Pura literatura.

Grande país subestimado



(...) os paneleiros que se juntam nos arredores do Campo Pequeno, onde se fazem ash curridash d’toirosh em L’shboa e vão trabalhar como forcados, que são uma espécie de veados parrudos que vão enfrentar os touros no peito. Em fila, trenzinho, um encostando a bunda no de trás, naturalmente. E depois vão às tascas, aos copos e à veadagem, são veados machíssimos. Vi muitas belas bundas em Portugal, que lá não são chamadas de bundas, mas de cu mesmo, que lá nem é palavrão, veja como são as coisas, grande país subestimado.

A Casa dos Budas Ditosos, João Ubaldo Ribeiro

tecnicamente virgem


Até hoje me espanta essa himenolatria. Era a honra da mulher, que horror. Ainda existe, sabia? E existe aos montes, é de cair o queixo, de vez em quando tomo um susto. Pittigrilli, um escritor que hoje ninguém lê, mas andava em voga e de que as moçoilas não podiam nem chegar perto, mas cujos livros davam sopa na biblioteca do meu pai e na do de Norminha - mais um ponto para minha família, nossas famílias, aliás – dizia mais ou menos que, em vez de se preocuparem tanto com a integridade dessa honra, melhor fariam as mulheres italianas em lavá-la com água mesmo, e não com sangue, pelo menos uma vez por dia. E, de fato, é triste, acho que como ele próprio ainda disse, viver numa sociedade em que a honra feminina é portada entre as pernas, que coisa mais besta, meu Deus do céu.

A Casa dos Budas Ditosos, João Ubaldo Ribeiro

O estado a que chegou esta blogger


Esta blogger está farta de desactualidades, farta da verborreia insuportável de blogs que tudo conhecem e se desactualizam ao segundo na tentativa desesperada de verem a luz do sol (vulgo serem citados nos jornais de referência ou convidados a assassinarem mais umas toneladas de árvores). Esta blogger cede mesmo à tentação da reaccionaríssima invectiva: vão trabalhar malandros.

20.4.09

17.4.09

40 anos

Desencanto?
Ler o Luís.

15.4.09

ora aí está


14.4.09

Aviso

estamos com gripe stop já conseguimos ler mas não escrever stop o tempo virá stop

7.4.09

das Intenções


É melhor não julgar as intenções, e esperar para ver os frutos – que podem ser apenas pessoas e não coisas – porque as motivações dos outros, especialmente quando se trata de motivações que marcam uma vida de forma profunda, são sempre um mistério e, mesmo no melhor dos casos, um conjunto de impulsos ideais mas sem nunca excluir que podem estar presentes bagatelas, e até mesmo a mesquinhez. Faz parte da nossa natureza humana. Ainda mais perigosamente, o nosso julgamento sobre os outros revela o nosso modo mais íntimo de pensar. Assim, quem acusou a Madre Teresa de Calcutá de se ter servido dos pobres para construir a sua imagem de santa, causou certamente mais prejuízo à sua reputação do que à da Madre Teresa.

Nas nossas decisões há sempre uma dimensão de egoísmo, e mantê-lo sob controlo é uma questão que se apresenta sempre.

6.4.09

L’Aquila

foto do Corriere della Sera



a cidade que era.

3.4.09

Do tempo



Ouvi há um bocadito na rádio, num curto trajecto automóvel, esta história deliciosa:

tendo atravessado a pé a fronteira da Guiné-Conacri para a Guiné-Bissau, um nagalho atado entre duas árvores, interrogava-se o forasteiro de como chegar à capital. Dirigiu-se a um ancião que, apontando para o relógio de pulso inexistente, o informou – à uma e meia tem autocarro. Feliz o forasteiro sentou-se à espera, mas passou a uma e meia, as duas e meia e as três e meia, o autocarro sem aparecer. Dirigiu-se de novo ao ancião que por ali continuava – camarada, o autocarro não veio. Ao que o velhote, suprema sabedoria, retorquiu indicando o inexistente relógio – patrão, se não veio hoje vem amanhã.

A Morte é para os mortos!

E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só são belos
quando se desenham na terra em flores.


José Gomes Ferreira (sempre)

Pressões


O meu filho mais velho, com a generosidade e entusiasmo que são próprios (ou deviam ser) de quem é jovem fez-se, há uns meses, militante da JS. A escolha foi dele, imagino com a “ajuda” de alguns amigos que não a dos pais, eternos não alinhados. Eu, militante de eleições perdidas, apoio-o na independência, na generosidade e no entusiasmo e vou-o avisando para as muitas vezes que será acusado de “andar a acautelar o futuro”. Gostei de ler a Fernanda Câncio.

474



Número médio de perguntas/dia de uma criança de 4 anos. Li isto ontem, não sei onde, e achei pouco, ou, deve haver crianças de 4 anos que fazem muito poucas perguntas. Uf!

2.4.09

M’avergonho (III): o bom do Senhor Fernandes



Desde que troquei uns emails com ele aquando da invasão do Iraque (a sério, ele respondia-me, cara Isabel, não percebeu bem o que eu disse...) que já nada me admira vindo dali.

M’avergonho (II): temos que passar por cá um bocadinho



No dia em que fui ao Centro de Saúde não fui atendida pela minha médica de família porque, a senhora doutora não está cá hoje. Dizem as más línguas que é uma resposta muito frequente. Dias mais tarde encontrei no meu local de trabalho uma pessoa conhecida, médica num Centro de Saúde – por aqui? Sabe, inscrevi-me numa acção de formação e temos que passar por cá um bocadinho, não é? (piscar de olho). À porta do auditório, onde decorria a tal acção de formação, era uma chusma de senhores-doutores que-nesse-dia-não-estavam-no-centro-de-saúde à espera do certificado de presença, e ainda não era meio-dia.
Isto não é novidade para ninguém, pois não? E, sobretudo, é escandaloso o tom de normalidade, temos que passar por cá um bocadinho.

1.4.09

M’avergonho

Tinha ouvido isto da boca de adolescentes, os setôres só marcam faltas a quem chega atrasado, quem não vai à aula nunca tem falta; os setôres perguntam no início da aula “não falta ninguém, pois não?”. Fiquei a pensar se podia haver outro motivo que não algum ataque agudo de distracção. Que não, e são os próprios que o afirmam.

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