31.5.07

Por amor de Deus, festa é festa

Quando há três anos estive a fazer um curso em Lubliana fui, juntamente com os meus colegas vindos dos quatro cantos da Europa, por duas vezes convidada para recepções oficiais: uma vez pela Câmara Municipal, a segunda pela Universidade quando esta homenageava dois professores jubilados. Nas duas ocasiões ofereceram-nos um muito bem servido coctail, cheio de coisas boas mas… acompanhado de sumo de maçã a fingir de espumante, uma coisa parecida com o Champomy que os meus filhos me pediam na passagem de ano. Aceitámos as explicações dos anfitriões de que com aquela medida, não servirem bebidas alcoólicas em recepções oficiais, pretendia o governo passar a mensagem de que pode haver festa sem álcool, na tentativa de diminuir o alcoolismo na Eslovénia. Aceitámos mas não achámos graça, festa é festa. Pelos vistos o governo português teve a mesma ideia, mas por cá para combater a obesidade. Quer que quando formos a reuniões e congressos em vez de nos regalarmos com uns bolinhos ou uns pastelinhos de bacalhau, nos sirvam pão escuro com fiambre de peru. Eu até gosto de pão escuro mas, por amor de Deus, ninguém vai a tantos meetings que engorde só de coffee-breaks. Festa é festa.

30.5.07

Dos psis

Também eu, Ana Clara, fiz o circuito dos psis, conheci muitos, todos muito mais malucos do que eu. Aturei-lhes as excentricidades, as consultas a des(horas), os chapéus esquizofrénicos, o mascar de chicletes e o fumo de cigarros, charutos e cachimbos. Ouvi-os, pacientemente, horas a fio enquanto pensava, despacha essa conversa e passa lá a receita. Às vezes nem sequer os ouvia, ficava sentada, muito direita na cadeira, olhava em frente, ou pela janela, se a houvesse e se da janela viesse alguma coisa, porque na maioria das vezes só a noite cerrada, que eles gostam do serão, e pensava, já te ouvi que chegasse, passa a receita. Nunca me disseram nada de novo, nada que eu não estivesse cansada de saber e de ouvir. Eu só lá ia pela receita e tinha que lhes aturar a neura. E no fim ainda tinha que lhes pagar. Também valia a pena pelo Atestado, e eles passam-no com a maior das boas vontades, honra lhes seja feita. O problema é que os patrões não gostam desses atestados, desconfiam… ou então, ai que me saiu uma tontinha, vamos ter que nos livrar dela.
E um dia fartei-me, chega de psis, chega de paroxetina e xanax. Troquei-os com vantagem por um personal trainer. Ao princípio é lixado, é a altura em que os toxicodependentes têm toda a nossa compreensão, o meu reino por uma benzodiazepina, mas depois passa.

29.5.07

Ontem, durante o almoço, tornei-me invisível

Fui comer a uma cantina da universidade, como de costume. Estava sozinha e sentei-me numa mesa corrida ao lado de 3 rapagões dos seus vinte e poucos anos, provavelmente, e dada a localização da cantina, alunos de medicina. Durante toda a refeição os rapagões pronunciaram-se ordinariamente acerca das colegas que passavam, gabaram as suas (deles) proezas sexuais, disseram palavrões, e nem sequer, por uma vez que fosse, olharam para o lado para a minha pessoa.
Possivelmente alguma coisa que comi e que me tornou invisível. Embora a comida tivesse um ar perfeitamente inocente, ele há coisas…
Pensei em dizer alguma coisa, mas se não me viam porque razão haviam de me ouvir?
A somar à má-criação só um ego desmesurado explica tais comportamentos. No outro dia, outra aluna contava-me que é filha única e que a mãe tem uma fotografia dela em tamanho gigante na entrada da casa, a minha mãe adora-me. As mães destes meninos também os devem adorar, tão imbecizinhos.

28.5.07

Assim vai o mundo (bah)

Quem é o escritor de língua portuguesa mais lido por esse mundo fora? Paulo Coelho, a julgar pelos enormes outdoors existentes em todas as estações de comboios holandesas a anunciarem, o que presumo ser, o seu último livro (como não sei holandês não faço ideia do título, mas também não me importo com isso).

Coisas que nos consolam





Os chocolates Pierre Marcolini. Chama-se, a casa belga, Pierre Marcolini chocolatiers, mas Pierre Marcoline joaillier seria mais adequado.

A mulherzinha da DREN

Deu mesmo um tiro no pé: é que o outro não deve ser nem um poucochinho melhor que ela ... e ficou-se a rir.

Um rapaz gordo



Que hoje me dava tanto jeito. Sem gaja e de preferência com uma mantinha, que isto de aquecimento global só se for nos trópicos.

25.5.07

Só vou contar isto uma vez

e espero que os meus filhos nunca o leiam porque é quase indecente:

Vivi dos 5 aos 12 anos na Guarda que era então uma cidade ainda mais de província do que é agora. Para além de fazer as coisas normais que as crianças da altura faziam, andar sempre na rua, inspeccionar dias a fio um solar abandonado rodeado de um imenso e frondoso bosque ainda mais abandonado, escalar uma muralha do castelo e passar tardes numa pedreira, para além de percorrer a cidade de lés a lés quantas vezes me apetecia… para além dessas coisas, era uma criança de escola com tendência para umas brincadeiras que hoje seriam consideradas muito perigosas. Numa época ia para a esplanada do Café Mondego, que era o café que por ficar perto do quartel era frequentado pelos magalas e fazia com uma amiga exibições de luta livre e de combates de boxe e no fim pedíamos aos magalas dinheiro para chicletes e eles riam-se bastante connosco e davam-nos 1 escudo. O que era bastante inocente e inócuo quando comparado com a outra brincadeira. Morava na rua do liceu e não sei que idade teria quando começou por lá a passar um rapaz que conduzia um belo carro descapotável. Eu e a minha amiga arranjámos maneira de conhecer o rapaz (possivelmente fazendo-lhe paragem, já não me lembro) e sempre que ele passava pedíamos-lhe para nos levar a dar uma volta, o rapaz metia-nos no carro ia até ao fim da rua, voltava para trás e largávamo-nos sãs e salvas à porta de casa. Pode-se dizer que tive um anjo da guarda a zelar por mim mas foi essa infância livre e despreocupada, e que correu bem, que fez com que eu acreditasse na bondade da maioria, da grande maioria, das pessoas. E acredito, que se hoje os meus filhos tivessem a liberdade que eu tive possivelmente iam sair-se tão bem como eu me saí. Aliás, quando eles começaram a andar sozinhos pela rua a minha maior preocupação foi sempre com acidentes, com atropelamentos. E para relativizar, convém dizer, que já na minha infância, a minha professora primária, a bondosa e pia Dona Olimpinha, nos alertava para os perigos de falar com estranhos, de aceitar chicletes, bebidas e autocolantes de desconhecidos.


Epílogo – já o contei noutro lado, essa minha amiga hoje é Carmelita, daquelas de voto de silêncio.

21.5.07

Mais simplex não podia ser

era uma conservatória muito organizada

A história foi-me contada por um colega:

um casal de nubentes dirigiu-se à conservatória do Registo Civil para marcar o casamento. Ao que a conservadora os informou: pode ser em qualquer dia da semana, de segunda a sexta, tem é que ser de manhã, que nós aqui separamos bem as coisas, de manhã fazemos casamentos, à tarde divórcios.

Ceylon Orange Pekoe Tea

Adoro ler a Alexandra.

Preocupante,

muito preocupante . Digo mais, um nojo...

espera-se que seja apenas a loucura de uma chefe que o não devia ser. Chefes loucos, inebriados pelo poder, sempre os houve, independentemente das políticas ou dos regimes. Mas enquanto não se vir uma pronta reacção do Ministério da Educação não podemos deixar de pensar no pior.


Ler mais aqui e aqui.

14.5.07

As Marias

Lindas Marias, lindas meninas-mulheres guardiãs dos nossos verdes anos.

11.5.07

Eu e os comboios



Eu também gosto muito de comboios … e de estações de comboios, se calhar ainda mais. Basta-me entrar no comboio de ir à Figueira para já achar que estou a viajar. Na semana passada viajei de comboio pela Holanda e achei-a monótona. Entretive-me com os passageiros da minha carruagem, esses sim interessantes, apesar de falarem aquela língua horrível cheia de erres (pelo menos assim me soa). Mas na semana passada aconteceu-me uma coisa engraçada na gare dos comboios do Aeroporto de Schiphol, fui comprar o meu bilhete, paguei com o Visa, a senhora da bilheteira pediu-me uma identificação, perguntei-lhe da plataforma em que partia o meu comboio, agradeci e fui procurar o dito cujo comboio. Fim de tarde, centenas de pessoas apressadas, conclui que se calhar ainda tinha tempo de enganar a fome que me tinha sobrado do “almoço” aéreo, dou por ali umas voltas quando vejo um sorridente polícia aproximar-se e em inglês pedir-me se pode ver os meus bilhetes. Of course, enquanto pelo canto do olho vejo algo que me é vagamente familiar na mão do polícia… acho que este passaporte é seu. E eu, muito fresca, ah pois é, muito obrigada, sem sequer me interrogar ou o interrogar porque raio tinha ele o meu passaporte… não paro de me surpreender com a minha pessoa.

9.5.07

Chez Claire

Claire é o nome de um restaurante de comida francesa em Eindhoven. Sala bonita, com um certo chic. Fui lá com uma colega grega e um professor alemão-suiço-alemão. Foi dos jantares mais tragico-cómicos que já comi. Sobretudo porque foi o professor alemão-suiço-alemão quem convidou e pagou, não sei se lhe teria achado tanta graça se assim não fosse. E pelo menos, o que já não é pouco, bebemos muito bem. Ficou ainda a promessa não cumprida de um Armagnac no hotel. Anunciámo-nos 3 em vez dos 4 que estava previsto, mas deixámos bem claro, ou assim o pensávamos, que o quarto elemento tinha desistido, que não esperávamos mais ninguém. Conduziram-nos à mesa e serviram-nos, a nosso pedido, um branco e sem que o pedíssemos, umas colherinhas de trufas com foie-gras. E mais vinho branco.Uma hora depois ainda não nos tinham trazido a carta das comidas. À nossa volta todas as mesas, mesmo os chegados depois de nós, já comiam. Aproxima-se uma empregada, Aleluia,! Querem escolher, already? Already!!!!???? Pensavam que esperávamos o quarto passageiro. Primeiro equívoco. Trazem a ementa, os preços são pornográficos. Eu e a grega escolhemos o mesmo prato, o professor alemão-suiço-alemão escolhe também um Côtes du Rhône do qual nem quero imaginar o preço. Muito tempo depois, bebida quase a garrafa, chega a comida, primeiro uma entrada, um carpaccio agradável, e continuamos à espera do prato principal. O que aconteceu a seguir só se pode dever a três coisas ou quatro coisas, à meia-luz do restaurante, ao muito vinho já bebido, ao cansaço do dia e à conversa acalorada. O meu prato faz a sua entrada encimado por um gordo camarão cuja presença não esperava. Estou distraída na conversa, quando oiço a grega, achas que estás a comer a carne que pedimos? Uhm, se calhar não. Uhm, mas isto é salmão. Exactamente, diz a grega, é salmão, a mim também me serviram salmão. E o professor alemão-suiço-alemão num misto de surpresa, espanto e timidez, não sei o que isto é, mas não é certamente a costeleta de lamb que pedi. Vem a empregada a perguntar se está tudo bem. Está tudo óptimo, responde a grega, e para mim, achas que vale a pena dizer outra coisa? elas não percebem nada do que nós lhes dizemos.
Comido que estava o salmão, vem a chefe de sala, parece-me que houve um engano e que lhes foi servida a escolha da mesa atrás dos senhores, mas os senhores não disseram nada, a mesa atrás é que reclamou. Muitos risos, pois nós já tínhamos reparado, pois é verdade não reclamámos, pois, todos a rir, a chefe de mesa e nós. Vem o cozinheiro de chapéu branco, gostaram, estava tudo bom? Tudo óptimo, responde a grega, e para nós, coitado este não teve culpa, cozinhou o que lhe mandaram cozinhar. Desistimos da sobremesa, só café com petits fours. Pago o jantar pedimos um táxi, com certeza, temos o nosso private house táxi. Uhm, house taxi??? Saímos do restaurante, meia hora de frio depois voltamos a entrar, o vosso house taxi ainda não chegou. Oh sorry, os senhores ainda aí estão? Deve ter havido algum engano, vamos voltar a chamar.

Cortejo

Não lhes vou ver o espectáculo, mas não lhes quero mal. Hoje a cidade acordou no meio do cheiro a bexigas fracas, uma rapariga que passa, a capa sobre um vestido vermelho, uma “antiga” a quem calhou mal a nostalgia, que faço eu aqui? um sinaleiro improvisado, o rapaz que impacienta na tentativa de arrastar o amigo para casa, o que faço eu aqui? Deixá-los com o seu espanto, fortes e mansos, coitadinhos, leões com coração de passarinhos.