25.5.07

Só vou contar isto uma vez

e espero que os meus filhos nunca o leiam porque é quase indecente:

Vivi dos 5 aos 12 anos na Guarda que era então uma cidade ainda mais de província do que é agora. Para além de fazer as coisas normais que as crianças da altura faziam, andar sempre na rua, inspeccionar dias a fio um solar abandonado rodeado de um imenso e frondoso bosque ainda mais abandonado, escalar uma muralha do castelo e passar tardes numa pedreira, para além de percorrer a cidade de lés a lés quantas vezes me apetecia… para além dessas coisas, era uma criança de escola com tendência para umas brincadeiras que hoje seriam consideradas muito perigosas. Numa época ia para a esplanada do Café Mondego, que era o café que por ficar perto do quartel era frequentado pelos magalas e fazia com uma amiga exibições de luta livre e de combates de boxe e no fim pedíamos aos magalas dinheiro para chicletes e eles riam-se bastante connosco e davam-nos 1 escudo. O que era bastante inocente e inócuo quando comparado com a outra brincadeira. Morava na rua do liceu e não sei que idade teria quando começou por lá a passar um rapaz que conduzia um belo carro descapotável. Eu e a minha amiga arranjámos maneira de conhecer o rapaz (possivelmente fazendo-lhe paragem, já não me lembro) e sempre que ele passava pedíamos-lhe para nos levar a dar uma volta, o rapaz metia-nos no carro ia até ao fim da rua, voltava para trás e largávamo-nos sãs e salvas à porta de casa. Pode-se dizer que tive um anjo da guarda a zelar por mim mas foi essa infância livre e despreocupada, e que correu bem, que fez com que eu acreditasse na bondade da maioria, da grande maioria, das pessoas. E acredito, que se hoje os meus filhos tivessem a liberdade que eu tive possivelmente iam sair-se tão bem como eu me saí. Aliás, quando eles começaram a andar sozinhos pela rua a minha maior preocupação foi sempre com acidentes, com atropelamentos. E para relativizar, convém dizer, que já na minha infância, a minha professora primária, a bondosa e pia Dona Olimpinha, nos alertava para os perigos de falar com estranhos, de aceitar chicletes, bebidas e autocolantes de desconhecidos.


Epílogo – já o contei noutro lado, essa minha amiga hoje é Carmelita, daquelas de voto de silêncio.

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