30.5.07

Dos psis

Também eu, Ana Clara, fiz o circuito dos psis, conheci muitos, todos muito mais malucos do que eu. Aturei-lhes as excentricidades, as consultas a des(horas), os chapéus esquizofrénicos, o mascar de chicletes e o fumo de cigarros, charutos e cachimbos. Ouvi-os, pacientemente, horas a fio enquanto pensava, despacha essa conversa e passa lá a receita. Às vezes nem sequer os ouvia, ficava sentada, muito direita na cadeira, olhava em frente, ou pela janela, se a houvesse e se da janela viesse alguma coisa, porque na maioria das vezes só a noite cerrada, que eles gostam do serão, e pensava, já te ouvi que chegasse, passa a receita. Nunca me disseram nada de novo, nada que eu não estivesse cansada de saber e de ouvir. Eu só lá ia pela receita e tinha que lhes aturar a neura. E no fim ainda tinha que lhes pagar. Também valia a pena pelo Atestado, e eles passam-no com a maior das boas vontades, honra lhes seja feita. O problema é que os patrões não gostam desses atestados, desconfiam… ou então, ai que me saiu uma tontinha, vamos ter que nos livrar dela.
E um dia fartei-me, chega de psis, chega de paroxetina e xanax. Troquei-os com vantagem por um personal trainer. Ao princípio é lixado, é a altura em que os toxicodependentes têm toda a nossa compreensão, o meu reino por uma benzodiazepina, mas depois passa.

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