30.11.09

Notícias do Outono: Álvaro de Campos

Excusez un peu... Que grande constipação física !
Preciso de verdade e da aspirina.






in Soneto já Antigo e outros Poemas, Ática

Roth


Leio o meu terceiro Roth e estou a ficar farta de velhos judeus libidinosos, da morte temerosos. Eis a razão porque nunca vai ganhar o Nobel, são obras sem esperança, onde o futuro acabou há muito.

Vos estis sal terrae


Enquanto do céu plúmbeo a água caía a cântaros, no cenário apocalíptico das ultrapassagens de carros, camiões e motas, chegar cedo a casa, chegar a casa depressa para ver o FCP, no carro, na A1 que liga o Porto a Coimbra, o Luis Lima Barreto declamava o Sermão de Santo António aos peixes, cousa mui sábia e erudita, trezentos e cinquenta e cinco anos depois de S. Luís do Maranhão.


"Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber.

...

Não é tudo isto verdade? Ainda mal! "


e de como Santo António julgou abandonar os homens e pregar aos peixes:


"Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino, contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António?

...

Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.

...

Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente."

(continua...)


e é por estas coisas, e pelas que virão a seguir, que faz o Luís mui mal em deixar de ler livros, mas continuar a ler pasquins.

26.11.09

Um exercício

Dorothea Lange


Vindo do Rui , recebo o exercício abaixo (bastante mais abaixo, não se percam na verborreia).


Estas coisas cheiram-me sempre a adolescência tardia. Pertencem ao tempo em que enchíamos cadernos com inquéritos de perguntas vãs, porque na verdade as únicas que interessavam eram “Amas alguém?”, “Quem?”. O amor, o amor. Era também a época dos livros de autógrafos. Que não se destinavam a recolher mensagens ou assinaturas de famosos, porque, por um lado, ainda não havia o conceito de famoso dos dias de hoje, e, por outro, os verdadeiros famosos nunca chegaram à vila caquéctica onde eu morava.

Enchiam-se os livros de autógrafos de mensagens de amizade de amigos e amigas, de versos a preceito por entre muitas flores e corações e outras manifestações artísticas de quem para isso era dotado, que não eu. Eu também tive um livro de autógrafos, deles (dos autógrafos) o mais precioso era de um rapaz, vagamente meu namorado, e que se tornou muito mais namorado no dia em que estupidamente resolveu morrer de acidente de automóvel. Pois, certa vez, andava o meu livro de autógrafos a girar no afã de recolher amizades, quando volta às minhas mãos com a página do dito namorado morto coberta de beijos de batom. Foi um segurem-me que eu mato-a. Nunca mais vi o livro, decerto perdido numa das muitas mudanças de que é feita a vida.


Completar as seguintes cinco frases:

Eu já…
Eu nunca…
Eu sei…
Eu quero…
Eu sonho…


Eu já me perdi na rua de Santa Catarina, em Montreal, Québeque, porque não percebi que tinha saído do metro em sentido errado, e ao princípio achei muita graça porque estava na Village, o bairro gay, pleno de joie de vivre, mas continuei a andar e a andar e há muito que a joie de vivre se tinha ido e já só armazéns e terrenos abandonados. E quando, aproveitando a luz de um candeeiro, olhei para o mapa, vi que estava a andar ao contrário, na Rua de Santa Catarina, quinze quilómetros de lonjura, em Montreal, Quebeque. Hey babe, take a walk on the wild side

Eu nunca comi pernas de rã.

Eu sei muito pouco de quase tudo.

Eu quero ir e quero ficar e sempre assim fui, em jovencita chamavam-me Isabel Variações, sempre a querer ir e ficar, a só estar bem onde não está.

Eu sonho demasiado.

Eu não passo isto a mais ninguém.

20.11.09

Cada dia é mais evidente que partimos

Cada dia é mais evidente que partimos
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudades nem terror que baste.




Sophia de Mello Breyner Andresen

19.11.09

da adopção


Anda tudo doido de um lado e do outro. Passámos de há uns anos atrás (pouco depois, ou por aí, das mulheres rasgarem sutiãs em público) se encarar o casamento como um acto burguês, uma tentativa de burocratizar o amor, um atentado à liberdade, para depois se reconheceram, e muito bem, as uniões de facto, para se chegar aos dias de hoje em que uns tantos, que aqui d’el rei, sem casamento é que não. E paradoxalmente dizem-me que os portugueses, os que de acordo com o actual quadro legal se podem casar, escolhem cada vez menos esta via. Dá Deus nozes a quem não tem dentes e isto parece cada vez mais a história do velho do rapaz e do burro. Pois eu não sou a favor (já agora, nem contra) do casamento de casais homossexuais, é assunto que não me interessa. Nem considero que configure um atraso ou um avanço civilizacional.
Não bastavam todas as tolices que se têm dito em relação a tão elevado assunto e tinham ainda que vir meter as crianças ao barulho. E das crianças que já são seres vulneráveis, tinham que escolher as que são ainda mais vulneráveis, as crianças com necessidade de terem uma nova família. E de novo vale tudo, dos direitos constitucionais à catástrofe de se verem crianças a viverem num ambiente de deboche, que outro estilo de vida não podem ter os casais homossexuais (em oposição às maiores garantias dadas por toda e qualquer família tradicional). E esquecem o mais importante, ninguém, mono, bi, tri, homo, hetero, tem direito a adoptar uma criança. Apenas existe o direito que toda a criança tem de ter uma família, um colo. Pois eu espero que os tribunais e a segurança social (embora até nem tenha tantas razões para acreditar no bom senso destas duas instituições) não entreguem uma criança a um casal heterossexual desavindo, a uma mulher ou homem que não garantam um ambiente seguro e harmonioso ou, ao estereótipo de um casal homossexual, trauliteiro e sem a mínima garantia de estabilidade. Conheço casos de meninos adoptados por famílias monoparentais que correm muitíssimo bem, e outros, de famílias tradicionais, que deram para o torto e de que maneira. Conheço um caso de uma família que, perante o divórcio, em vez de disputarem o filho, como muitas vezes ocorre com filhos biológicos, guerreiam sobre quem há-de levar o empecilho. Conheço casos de crianças “devolvidas” (e não são tão poucas) por não corresponderem ao idílio que as famílias esperavam, e esse é o maior erro.


Depois de ter escrito isto fui ler

não me consigo incluir em nenhuma das categorias referidas, nem acredito que haja pessoas capazes de usarem o primeiro argumento (é um auto-atestado de imbecilidade). Em relação ao segundo argumento tenho as minhas duvidas, não porque não seja um tema digno, mas porque não tem a urgência (e disso não tenho dúvida) de outras dores, injustiças e desigualdades. E a discussão de umas e não das outras só deriva da voz e poder de uns, contra a falta dessa mesma voz e desse poder nos outros. Quanto à impossibilidade de dissociar casamento de adopção, discordo por tudo o que disse, mas acho que estamos a falar de coisas diferentes.

18.11.09

Malandros

Sebastião Salgado






Como se sabe, o mundo de muitos dos cronistas dos jornais de referência é bem pequeno e autocentrado. Na lista cabe a Filomena Mónica, cabe, noutro estilo, a querida Laurinda, cabe quase todos os dias o Miguel Sousa Tavares. Olham para o umbigo e escrevem uma crónica, chegam-se à janela do condomínio e escrevem uma crónica. E indignam-se muito. Um destes dias a Helena Matos indignava-se ,não num jornal de referência, mas num blogue, o que não faz grande diferença, com o rendimento social atribuído a uma família que anos antes tinha ganho a lotaria, ou coisa que o valha. E acabava a dizer que a vida está para os malandros que não querem trabalhar. A Helena Matos é invejosa, a Helena Matos tem que trabalhar, escrever crónicas umbilicais para jornais de referência e postes em blogues, a Helena Matos tem inveja de quem recebe RSI . A Helena Matos escreve alarvidades e nós até pagamos para as ler.


Sábado à tarde numa bomba de gasolina, abeira-se do meu carro um malandro, podia arranjar-me um euro para meter gasolina no carro?Um euro para gasolina, malandro? tu queres é um euro para juntar para a droga. Um euro que os senhores me dessem, mais outro que outro senhor me deu, já me dava para meter gasolina para ir levar o miúdo à mãe, a S. Martinho, eu não estava a contar ter que o levar e agora estou enrascado. Estes malandros têm uma latósia e cada vez inventam histórias mais rebuscadas. É verdade que uma coisa vermelha, e que já viu muito melhores dias, está parada mais à frente. E, subitamente, do carro vermelho, sai o garoto, cabeça cheia de caracóis, uns dez anos que em nada o distinguem de um meu filho, ou de um teu, homem ou mulher que me lês, o que o distingue é o prosaico pormenor de o pai não ter um euro para meter gasolina para o levar à mãe, oh pai dois euros já devem chegar. O pai afaga-lhe os caracóis, metem a gasolina e arrancam no meio da fumarada. Pois a vida está para os malandros, mas que irá este comer ao jantar?

Notícias de Outono


Do que aconteceu nos últimos dez dias só realço:

que o Sporting não conseguiu levar o André Villas Boas

que abre hoje em Coimbra a casa da Acreditar. Para que as crianças que por lá passam sejam mais felizes




NR obviamente as duas notícias não têm o mesmo valor

8.11.09

Se num domingo de chuva de Outono um viajante







should I stay or should I go

6.11.09

Mário Soares


Tem razão Rui, Mário Soares nunca diria uma coisa daquelas. Mas Mários Soares há poucos, diria que em veloz via de extinção. Desde logo porque as condições necessárias para se fabricarem Mários Soares, feliz ou infelizmente, já não existem. Não se fabricam Mários Soares nesta Europa velha e morna.

5.11.09

enfado

olho ali para o lado: uns não escrevem há 2 semanas, outra há um mês inteiro, ainda outra abalou ou coisa que o valha, dos outros as actualidades não me seduzem. Já nem as modas...



vou estender a roupa no varal, que está vento e ela seca mais depressa.

Notícias do Outono: “Lamento” de John Lydgate

Depois que a colheita reuniu as espigas em molhos,
E que a estação trigueira da festa de S. Miguel
Chegou, começando a roubar às árvores as suas folhas
Que verdes tinham sido e de vigorosa frescura,
E que debruando-se de cor amarela
Morreram e caíram sob os nossos pés,
Tal mudança, enterrada no meu coração, criou raízes