27.2.07

Fala do homem nascido

Venho da terra assombrada,
Do ventre de minha mãe;
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
Por me trazerem aqui,
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.

Trago boca para comer
E olhos para desejar.
Tenho pressa de viver,
Que a vida é água a correr.

Venho do fundo do tempo;
Não tenho tempo a perder.
Minha barca aparelhada
Solta o pano rumo ao norte;
Meu desejo é passaporte
Para a fronteira fechada.

Não há ventos que não prestem
Nem marés que não convenham,
Nem forças que me molestem,
Correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
Que a Natureza sou eu,
E as forças da Natureza
Nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença,
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à Estrela Polar.

António Gedeão

Street wear



E depois da casa lavada e perfumada de alfazema: The Sartorialist , definitively!

26.2.07

Laundry Day: eu hoje acordei assim:




Com vontade de lavar, por ao sol, e arrumar a vidinha.

23.2.07

Zeca Afonso, 2/08/1929 — 23/02/1987


O meu menino é d'oiro
É d'oiro fino
Não façam caso
Que é pequenino
Não façam caso
Que é pequenino

O meu menino é d'oiro
D'oiro fagueiro
Hei-de levá-lo
No meu veleiro
Hei-de levá-lo
No meu veleiro

Venham aves do céu
Pousar de mansinho
Por sobre os ombros
Do meu menino
Do meu menino
Do meu menino

Venham comigo venham
Que eu não vou só
Levo o menino
No meu ternó
Levo o menino
No meu ternó

O menos que podemos fazer




Todos os anos centenas de mulheres no Bangladesh são desfiguradas para a vida, vítimas de ataques com ácido. Na maioria das vezes pelo homem (marido). Os motivos do crime podem ir desde considerarem o dote insuficiente até ao caso de uma menina de 9 anos cujo prometido marido queria que ela fosse viver com ele antes de atingida a puberdade. As mulheres do Bangladesh uniram-se neste movimento para tentarem por fim a esta barbárie.

22.2.07

O’Neill

Eu ia escrever isto mas, quando fui verificar a expressão, descobri que cheguei atrasada e que meia blogoesfera já o tinha feito, tant pis!

Acho que ouvi (ou li) a história na primeira pessoa. É a história do slogan que o metro de Lisboa terá encomendado ao Alexandre O’Neill e ele não terá encontrado melhor que “Vá de metro, Satanás”.
Parece que dessa vez O’Neill não fez negócio.

19.2.07

O "novo" Público


A propósito do "novo" Público ler.

El Pais 1 - Público 0

Fim-de-semana de Carnaval




Li o Público de sexta, o de sábado e o de domingo. O jornal está uma cacofonia, quase impossível de se ler, o suplemento de artes de sexta estava óptimo, o Dia D ensinou-me como enriquecer com conselhos que só se aplicam a quem já é rico, inútil, a roçar o sadismo.


No sábado preenchemos o questionário do Campeonato de Língua Portuguesa, ficámos a saber que na frase “V. Exa. está cansado”, a figura usada é uma silepse.


Domingo foi na Serra do Açor. A serra é belíssima, o dia estava claro permitindo alcançar muitos, muitíssimos quilómetros em redor. No Piódão enchemos o carro de artesanato local: um queijo de cabra de fabrico mais que industrial vindo de Oliveira do Hospital, um licor de medronho e casca de pessegueiro, o medronho cresce aos montes na Mata da Margaraça, o pessegueiro deve vir de outras paragens; para acabar, e para a criança mais pequena um lobo de peluche (made in China??).
Hoje o fim-de-semana continua, os infantários estão de férias e as crianças com alguém têm que ficar…

16.2.07

Do Carnaval


Quando eu era criança conhecia uns meninos que viviam numa casa muito grande, com um corredor muito comprido, rodeados de tias solteironas e más. Naquela casa havia ordem, as crianças não comiam na sala dos grandes, na sala onde a criada de crista branca servia travessas artisticamente decoradas e as conversas tinham decoro. As crianças comiam numa sala ao lado debaixo da autoridade ameaçadora da tia solteirona de serviço. Quando chegava o Carnaval as tias que, para além das descomposturas com que mimavam as crianças não tinham muito com que se ocupar esmeravam-se e passavam noites a costurar fantásticas fantasias de Carnaval. No domingo gordo, a seguir ao almoço, as tias enfiavam com mil cuidados os meninos dentro dos fatos, sorriam embevecidas e era a única altura do ano em que eu os invejava, aos meninos. De seguida iam ao jardim tirar as fotografias e podiam permanecer mais um bocado com os vestidos, desde que tivessem brincadeiras sossegadas para não darem cabo de tantas horas do trabalho árduo das tias solteironas. Acho que vem daí a minha promessa de nunca enfiar os meus filhos em fatos desconfortáveis e que não se podem estragar.

15.2.07

Ah, finalmente



com um mês de atraso em relação ao ano passado.


tenho que ir ali ao lado, perguntar ao Nuno se isto tem algum significado.

E se bem pergunto

Quem sabe da pequenina Esmeralda?

14.2.07

As 7 maravilhas


Estive a votar nas 7 maravilhas de Portugal (essa treta de concurso).

Declarando o meu conflito de interesses a minha escolha foi a seguinte:

Universidade de Coimbra
Ruínas de Conímbriga
Convento de Cristo
Mosteiro da Batalha
Mosteiro dos Jerónimos
Templo de Diana
Fortificações de Monsaraz

Só tive dúvidas na última escolha, mas gostei tanto de uma noite que lá passei


13.2.07

Olha só que belezura





Mais, muito mais, no Planeta Hilda

Outros "ready-made"

Pablo Picasso, Tête de taureau.

Deste, feito a partir de um selim e de um guiador de bicicleta, gosto verdadeiramente.

12.2.07

Pierre Pinoncelli, um artista singular



Para mim está decidido :

Pierre Pinoncelli 1 La Fontaine de Duchamp 0

Se não vejam o percurso singular deste artista, que desde 1967 faz da vida e da arte um happening constante:

Em 1969 utilizando uma pistola de pintar cobriu André Malraux, então ministro da cultura, com tinta vermelha quando este se preparava para inaugurar um museu em Nice.

Em 1975 assaltou simbolicamente um banco em Nice, utilizando um revolver descarregado, tendo roubado um franco.

Em 2002 cortou uma falange em jeito de homenagem a Ingrid Betancourt.

Em 1993, em Nimes urinou na Fontaine de Duchamp (mas afinal não é essa a função do referido objecto?)

Em 2006, desta vez no Pompidou atacou de novo e à martelada o urinol de Duchamp.

Ao pé de Pinnoncelli, Duchamp é um menino e a sua Fontaine uma farsa.

SIM


foto daqui


Portugal está de parabéns.

11.2.07

Babel



Mundo global? Uma ova!

Do amor, essa treta.





Um dia o marido da tia Magdalena abriu a porta a um mensageiro que trazia uma carta dirigida à mulher. Nunca tinham tido segredos e era tal a simbiose daquele casamento que, ali, as cartas eram abertas por um deles, mesmo que fossem dirigidas ao outro. Ninguém considerava isso violação da intimidade, menos ainda falta de educação.
….
A mensagem dizia:

Magdalena
Como sempre que falamos no assunto acabas chorando e te confundes na loucura de achar que amas ambos com a mesma intensidade, decidi não voltar a ver-te.

Acabar com esta confusão fará bem a ambos. Volta ao dever que escolheste e não telefones nem pretendas convencer-me de nada. Alejandro.

PS – Tens razão, foi bonito.

O marido da tia Magdalena guardou a carta, colou o sobrescrito e colocou-o na caixa do correio, juntamente com a conta do telefone e com os extractos do banco. Estava furioso. A raiva pôs-lhe as orelhas vermelhas e os olhos húmidos.



O marido voltou cedo do trabalho, como quando eram recém-casados e ela tinha catarro. Veio à procura dela, certo de que o desgosto a teria prostrada, fingindo alguma doença. Encontrou-a no jardim, esperando a sua vez para saltar à corda num concurso onde as suas duas filhas e uma prima lhe concediam categoria olímpica.



a tia pulava cada vez mais depressa. Passou os duzentos como um raio e continuou, salta que salta, até chegar aos setecentos e cinco.


- Ganhei! – gritou então. – Ganhei! – e deixou-se cair ao chão, levantando-se um minuto depois com um vigor de uma chama.
-Ganhei! Ganhei! – gritou correndo para junto do marido.

-Feliz no jogo, infeliz no amor – disse ele.
-Feliz em tudo – respondeu ela, ofegante. – Ou vais dizer-me, tu também, que já não me amas?
-Eu também? – perguntou o marido.
-Marido, és um violador de correspondência e usaste uma cola péssima para o disfarçar – disse a tia Magdalena.
-Tu, pelo contrário, disfarças bem. Não estás muito triste?
-Um pouco – disse a tia Magdalena.
-Se eu te deixasse, conseguirias saltar à corda? – perguntou ele.
- Julgo que não - disse a tia Magdalena..
- Nesse caso fico – respondeu o marido, recuperando a alma.
E ficou.


Angeles Mastretta, Mulheres de Olhos Grandes,

9.2.07

Porque sou pelo sim (VI)

Se se instituísse um prémio para o melhor post sobre o referendo de dia 11 não teria dúvida em indicar este de José Mattoso no Blog do Sim. Talvez porque sou católica, talvez porque estava cansada de ouvir as mesmas coisas todos os dias…

(excerto com sublinhados meus)

“Compreende-se que a Igreja Católica condene, em princípio, a Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG). Se há uma certa sacralidade no processo da multiplicação da vida, é preciso respeitá-la. Mas condenar a IVG em qualquer circunstância e seja por que motivo for corresponde a subordinar o homem ao sábado, e não o sábado ao homem. Os padres e bispos que o fazem correm o risco de se parecer demasiado com aqueles de quem Jesus dizia: «Atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem um dedo para os aliviar» (Mt.23.4). Em vez de se obcecarem na condenação seria melhor preocuparem-se com a misericórdia.”

Acredito que o SIM vai ganhar. Até segunda-feira.

8.2.07

Músicas




Hoje, na Antena 1, António Cartaxo contou uma história deliciosa:

No fim de um concerto em S. Petersburgo, Estaline abeirou-se do maestro e disse-lhe:
-Não gostei do concerto, à sua música faltou-lhe força política.
Ao que o corajoso maestro retorquiu:
-Não sei porque me diz isso, eu nunca lhe diria que faltava musicalidade à sua política.

6.2.07

Pros and cons

De tudo isto, pode tirar-se esta moralidade: que o homem que se aproxima da corte compromete a sua felicidade, se for feliz, e, em qualquer caso, torna o seu futuro dependente das intrigas de uma criada de quarto.
Por outro lado, na América, na república, é preciso passar dias de tédio a cortejar muito seriamente os lojistas da rua, e ficar-se tão estúpidos como eles; e lá, nada de Ópera.




Stendhal “A Cartuxa de Parma”

Luxury











Passei por lá há muitos anos. Turista mais do que de pé descalço não foi por isso que o recepcionista foi menos correcto e delicado mostrando-me o que me podia mostrar e agradecendo o meu interesse (óbvio) pelo hotel.


Blakes Hotel
South Kensington
33 Roland Gardens, London, SW7 3PF

Só sei que nada sei




e durante estes últimos dias tenho ouvido tantos que tudo sabem, que dizem com tamanho à vontade tantas coisas que não entendo. E cada vez sei menos.
Como se pode pedir a uma mulher, vá carregue-o, sofra-lhe os enjoos, sinta-lhe os pontapés, alimente-se bem que é para o bem dele, não fume, não beba, venha às consultas, faça as ecografias, tenha todas as dores do parto e no fim … dê-o?

5.2.07

O menos que podemos fazer

Sábado, 3 de Fevereiro de 2007, mais de 130 mortos em Bagdad.

Thank you again, Mr Bush.

2.2.07

A ler

Ana Cristina Leonardo, Aborto, uma polémica de sempre


No blog Da Literatura

A propósito

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.





Álvaro de Campos, Poema em linha recta

1.2.07

O menos que podemos fazer

Arranca hoje na cidade de Paris, em França, o 3.º Congresso Mundial Contra a Pena de Morte. De acordo com a «Associação Contra a Pena de Morte» (ECPM, na sigla em francês), que organiza o evento a decorrer até 3 de Fevereiro, o objectivo é a abolição da pena capital no mundo. Os recentes casos da execução de Saddam Hussein, a condenação à morte na Líbia de cinco enfermeiras búlgaras e de um médico palestiniano, bem como o debate sobre a injecção letal nos Estados Unidos são factos apresentados pela ECPM para considerar que a pena capital é um tema «mais do que nunca actual».

Segunda os organizadores, a ambição deste encontro é clara: «Porque é que o 100.º Estado abolicionista da história não pode ser um país árabe e ao mesmo tempo o primeiro da África do Norte e do Médio Oriente?», questionam. E afirmam que «Marrocos pode ser esse país».

A ECPM defende ainda que os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, sirvam para promover um «segundo grande debate sobre as estratégias a desenvolver para encaminhar a China para a abolição» e que este seja «assinalado por um apelo solene a uma trégua nas execuções, lançado nomeadamente por desportistas».

De acordo com números divulgados, 2148 pessoas foram executadas em 22 países, em 2005, sendo que 94 por cento das mortes foram registadas na China, Irão, Arábia Saudita e Estados Unidos.

A Itália, que desde 1 de Janeiro de 2007 ocupa um assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas como membro não permanente, também querer aproveitar esta situação para debater a pena de morte nas Nações Unidas.

Notícia aqui