16.2.07

Do Carnaval


Quando eu era criança conhecia uns meninos que viviam numa casa muito grande, com um corredor muito comprido, rodeados de tias solteironas e más. Naquela casa havia ordem, as crianças não comiam na sala dos grandes, na sala onde a criada de crista branca servia travessas artisticamente decoradas e as conversas tinham decoro. As crianças comiam numa sala ao lado debaixo da autoridade ameaçadora da tia solteirona de serviço. Quando chegava o Carnaval as tias que, para além das descomposturas com que mimavam as crianças não tinham muito com que se ocupar esmeravam-se e passavam noites a costurar fantásticas fantasias de Carnaval. No domingo gordo, a seguir ao almoço, as tias enfiavam com mil cuidados os meninos dentro dos fatos, sorriam embevecidas e era a única altura do ano em que eu os invejava, aos meninos. De seguida iam ao jardim tirar as fotografias e podiam permanecer mais um bocado com os vestidos, desde que tivessem brincadeiras sossegadas para não darem cabo de tantas horas do trabalho árduo das tias solteironas. Acho que vem daí a minha promessa de nunca enfiar os meus filhos em fatos desconfortáveis e que não se podem estragar.

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