23.10.06

Fim de semana em Coimbra: do parque verde, dos portugueses e da metereologia

Fotografia de santosdacasa.blogspot.com

Ontem domingo de chuva, passeámo-nos pela manhã no Parque Verde. Verdade, verdadinha que éramos dos poucos passeantes e de passeantes com crianças éramos mesmo os únicos. O parque verde estava magnífico, o rio, envolto em nuvens, no seu máximo esplendor, de quando em vez uma nuvem brincalhona abanava o corpanzil e lá vinha água. Uma das crianças escorregou e caiu numa poça de lama, a outra fruto da nossa* cultura de não-chuva, não-galochas, ficou com os pés encharcados, ninguém se constipou e voltámos para casa felizes.

*Nossa = portuguesa, os portugueses têm medo do frio, da chuva e do sol, a chuva faz constipações e o sol na cabeça provoca dores de garganta. Um inglês que há poucos dias passava pelo Porto num dia particularmente chuvoso dizia “Nice golf day!”. Perante o espanto de quem o ouvia explicou que, se estivessem à espera que ficasse sol para jogar golf… Não me consta que os ingleses se constipem mais que os portugueses.

18.10.06

Eles são mesmo assim


Uns posts abaixo relatei episódios da minha passagem por Paris durante seis semanas deste verão. O relato ficou muito incompleto porque a certa altura o calor era tanto e andava tão ocupada a beber um copo de água a cada quinze minutos, como me ordenavam os editais do “plan canicule”, que não me sobrava nem tempo nem paciência para escrever.
E uma coisa que impressionou em França, mesmo sendo portuguesa, e sobre a qual tencionava escrever é a bendita burocracia, que como lembra o jornalista Ferreira Fernandes numa crónica da última “Sábado”é uma bem sucedida exportação francesa bureau – bureaucratie.
Eles são mesmo assim: meses antes de ir para lá já não sei quantos funcionários se atarefavam e me atarefavam na elaboração de uma entidade mítica (mítica porque nunca a vi) chamada dossier, o meu dossier – temos que ter cá todos os seus documentos com muita antecedência porque senão não temos tempo de completar o seu dossier e a sua vinda fica sem efeito. (dos documentos constava por exemplo o nome, data de nascimento e ocupação dos meus sogros). E julgam que todo esse zelo se traduziu em alguma coisa de bom ou proveitoso para a minha pessoa? Não! Uma semana depois de lá estar ainda me faltavam duas coisas essenciais: o dosímetro, um objecto sem o qual ninguém que no seu trabalho esteja exposto a radiação ionizante deve trabalhar, e o badge que me permitia circular pelo hospital sem ter que andar com alguém atrás de mim. O dosímetro, consegui-o com a ajuda de um colega, ao fim de uma tarde escada acima, escada abaixo, bureau aqui, bureau acoli, acompanhada pelas exclamações impróprias do meu colega, ainda falta uma assinatura, sim o seu dossier está completo mas ainda tem que passar pelo messieur X… Pelo badge espero até hoje…
Que diferença do meu estágio num hospital de Basileia onde até precisei de uma autorização de residência por a Suiça não pertencer à CE. Mas foi tudo! No primeiro dia de trabalho levaram-me a um gabinete, tiraram-me uma fotografia, fizeram o badge que servia para me identificar, abrir portas e pagar a cantina, entregaram-me as batas, os dosímetros e em menos de meia hora estava pronta para começar a trabalhar.

Mas, apesar de tudo, tenho que concluir como o cronista da “Sábado” citando Ted Stanger* “A França é uma URSS que deu certo”.


* Ted Stanger , americano autor de Sacrés fonctionnaires! Un américain face à notre bureaucratie.

Eu também, eu também

Leio que numa sondagem (?) 45,7 % dos espanhóis se mostravam favoráveis á união de Portugal a Espanha. Eu também, eu também…
Mas, ai, ai… pretendem que o grande país se chame… Espanha! e eu, isso não… o pouco que me resta de patriotismo não mo permite, mas Ibéria ou Federação Ibérica parece-me muito bem. E a você, improvável leitor?

17.10.06

Das taxas moderadoras e da demagogia

Recebi um abaixo-assinado contra as taxas moderadoras e não o assinei…Não assino por assinar e não me considero suficientemente informada para o fazer.
Em relação ás taxas moderadoras é lícito por em causa o princípio, do mesmo modo que o era no caso das propinas na Universidade. Também não conheço os estudos do impacto económico desta medida no orçamento da saúde. Agora não venham dizer que alguém vai deixar de ser operado ou internado num hospital porque não tem cinco euros para pagar por dia, cinco euros não paga a comida de um dia. E é com estes chavões que se desacreditam discussões importantes e que poderiam ser proveitosas.

Voltarei a este assunto a propósito das maternidades e das urgências hospitalares e das escolas e da televisão que preferencialmente mostra as peixeiradas…

6.10.06

Diário de França: Epílogo



16 de Julho, acabei as “Liaisons dangereuses”: nem a escrita pérfida do Laclos escapa à moral judaico-cristã – E todo o mal será castigado! E ai mesmo de quem por fraqueza ou ingenuidade se deixe enredar nas malhas do mal, a sua sorte não será muito melhor, o seu fim não será muito diverso.

E como os heróis e heroínas do romance também eu regresso a Paris, chega da pasmaceira da Província. Hei-de passar a tarde pelos Champs Elisées, invejar todas as montras do Faubourg Saint Honoré, entrar em todas as livrarias e alfarrabistas disponíveis e acabar o dia no Marrais – Paris!


Depois serão duas semanas com o que Paris tem de pior, uma hora apertada no Metro RER, o mau cheiro e o calor insuportável, a loucura da Estação de Chatelet… marchando a compasso nas enormes passadeiras, olho no relógio, reposição dos Tempos Modernos do Chaplin

Diário de França: A livraria Lusophone



Um destes sábados, almocei com o livreiro da Lusophone, a livraria portuguesa do Quartier Latin, ali mesmo ao lado dos jardins de Clunny, o João Heitor. Um beirão no negócio e no Quartier Latin há mais de 30 anos - sou dos mais antigos aqui no quartier, diz-me ele- o que não o impede de falar um francês correctíssimo, mas com o sotaque forte, muito forte, da Beira Alta - é uma referência na comunidade portuguesa mais ilustrada e tem imenso que contar. Almoçámos com dois amigos comuns portugueses (o mundo é pequeno) num restaurante arte nova do quartier, , e falámos de tudo, de França e de Portugal; da Parada Gay, dos pintores portugueses em Paris e de futebol, claro. Mais tarde encontro-o já vestido com a camisola da selecção portuguesa e um boné do Sporting, na mão leva a camisola do Brasil (camiseta, no Brasil camisola é o que se veste para dormir) que vestirá à noite – um verdadeiro lusófono.