12.10.08

Do casamento e do género


Se este debate* sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo se integrasse num debate generalizado sobre os direitos (e o respeito) de minorias, das étnicas, às religiosas, às culturais, faria todo o sentido e nem sequer se discutiria a sua oportunidade. Mas, longe disso, este é um debate sobre uma minoria de gente bonita, que não cheira mal, nem dorme na rua e que sobretudo tem voz e consegue fazer ouvir essa voz. E por isso é uma causa minoritária e por isso sempre me irritou a colagem do BE a esta causa, fazendo dela bandeira.
E longe de mim distinguir as pessoas pela sua sexualidade.
Se o casamento deve perder a carga que a nossa civilização lhe imprimiu, então devemos estendê-lo a quaisquer duas ou mais pessoas do mesmo sexo que se amem ou não (quem vai avaliar o amor?), sejam homo ou heterossexuais, que tenham ou não actividade sexual entre elas ou que decidam até manter-se castas toda a vida (quem é que se vai imiscuir no que de mais privado há nas nossas vidas?), à poligamia, a toda uma comunidade de um mosteiro... onde é que se deve colocar o limite?



na sexta-feira, um, senhor pouco inteligente (estava a fazer outra coisa ao mesmo tempo e por isso não percebi quem era), afirmava mais ou menos isto: a nossa lei não permite o casamento de deficientes mentais e de homossexuais, portanto perante a lei portuguesa homossexuais e deficientes mentais equivalem-se. Senhor pouco inteligente, não é com essas falácias que dignifica a sua causa, as únicas pessoas a quem chega são aquelas que pensam exactamente isso, que a homossexualidade é qualquer coisa de patológico.


*bem diferente do que se realizou em torno da despenalização do aborto, esse sim, uma conquista civilizacional que só pecou oelo atraso.

2 comments:

bernardo said...

nota 1: o casamento já está estendido a pessoas que não se amam. o casamento, na sua configuração actual, é um contrato, em cujas cláusulas não figura a existência de amor. e como bem diz, quem iria aferir isso?

nota 2: definir os homossexuais como um grupo de "gente bonita" que ainda por cima "nem cheira mal" (imagino o cliché: urbano, frequentador do lux, com um loft ou umas águas-furtadas num bairro chique, super trendy e talvez pseudo-intelectual) é absolutamente ofensivo. pelo menos para mim. esse grupo de pessoas, existe, evidentemente, mas reduzir os homossexuais a esse grupo... (já para mencionar o facto de esse estilo de vida não ser exclusivamente gay.) não esqueça sobretudo os homossexuais que vivem no interior ou em cidades mais pequenas; não esqueça os homossexuais que, por força de incompreensão familiar ou de medo de perderem o emprego, têm de levar uma vida dupla, mesmo aqui em lisboa; não esqueça que mesmo - e falo do que sei - que depois na sua vida adulta as coisas normalizem,. o caminho para uma aceitação plena é dolorosíssimo e nem sempre conseguido. mas enfim, se quiser reduzir a sua análise social às pessoas que vê em sítios tipo saldanha residence ou maria caxuxa...

Isabel said...

Bernardo

Desculpe-me se o ofendi, não era minha intenção. Como digo no post não distingo as pessoas pelas suas preferências sexuais e sei que há muito mais mundos do que o da "gente bonita" que descrevo. Mas não fora essa gente e esta discussão não teria esta abrangência