23.4.07

Me and the 25 de Abril

No 25 de Abril eu era criança, a vida era-me fácil e tinha a ideia de que ser comunista era assim como uma doença. Não sei porque pensava assim porque não me parece que em casa me passassem essa ideia. Os pais da minha melhor amiga eram comunistas (vim a saber depois) e um ano antes, no 11 de Setembro de 73 estavam muito tristes e explicaram-nos o que tinha acontecido no Chile. Em minha casa o meu pai conversava com os amigos e a minha mãe desabafava: lá estão eles a falar de política. Também me lembro de ver lá por casa o livro do Mário Soares, “Portugal Amordaçado” ainda na edição francesa, trazido por um qualquer amigo viajante e de ter a sensação de que aquilo era algo secreto. Outra memória é a de uma manhã ouvir a vizinha de cima chorar e ouvir qualquer coisa como a polícia ter virado a casa dela do avesso por causa de um filho que estudava em Lisboa, mas ninguém me explicou muito bem o que tinha acontecido – não era conversa de crianças. Muito antes disso, o meu pai cantava-nos uma canção que para mim era uma canção infantil “Se eu fosse carpinteiro casava com uma ceifeira...” e que acabava mais ou menos assim “cinquenta de ditadura
Arre porra que é demais”, o meu avô ficava muito zangado com o meu pai e nós achávamos que era por causa do “arre porra”.



Post originalmente publicado no saudoso Barnabé, em Abril de 2004.

No comments: