28.4.06

Notas de viagens(III)

A Mulher de Porto Pim, António Tabucchi*, meu guia nas minhas viagens açorianas.
Com ele me demorei em frente ao Convento da Esperança, em Ponta Delgada, onde num outro meio-dia Antero pôs fim ao mal de INFINITO de que há muito sabia sofrer. Com ele procurei (em vão, como suspeitava) a mulher, na praia, no Faial.

*Edição da Difel

Da Literatura

Eu sei que aquilo que eu escrevo já foi escrito antes, como tudo aquilo que fazemos, salvo raras excepções, já foi feito há muito tempo, antes de nós. Tudo é assim na vida. Na literatura também.

José Saramago

Do Verão em Abril

O primeiro jantar no parque, a primeira vez que a luz nos enlouquece logo às sete da manhã..

27.4.06

Poesia ao jantar

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


Florbela Espanca



Ontem o meu filho adolescente trouxe-nos este poema para o jantar. Para que não se pense que eles são só bué e “baza daí”. Recordámos o dia em que ele, com sete anos, foi fazer um Curso de Poeta na Faculdade de Letras da UC e tinha um crachat que dizia “Poeta João” e percebeu o que é a escrita criativa quando escreveu:

“A minha mãe é fofinha como uma nuvem”.

24.4.06

Notas de Viagem (II) – Um certo murro no estômago

Harrods, quinta-feira ao fim da tarde

Toda a panóplia do luxo. Uma jovem mulher árabe coloca em cima do balcão espampanantes vestidos YSL enquanto os filhos saltam a pés juntos em cima de um sofá de veludo. As empregadas observam com um sorriso complacente.

Harrods quinta-feira ao fim da tarde

Um grupo de japonesas histéricas junta-se à porta, carregadas de sacos, numa algarviada que deve traduzir a alegria de terem comprado quase tudo o que o dinheiro permite comprar.

Harrods, quinta-feira ao fim da tarde

Uma mulher aninha-se contra uma das paredes exteriores e cobre a vergonha com um casaco de onde sai apenas uma mão com um copo para as moedas. Debaixo do casaco saiem os soluços de quem ainda não acredita no que lhe está a acontecer.

Notas de Viagem (I) - O Modernismo no V&A Museum em Londres

Less is More
Ludwig Mies van der Rohe

Post para uma Segunda-Feira


Estava o homem deitado no areal, o barquito ao lado, os dois aproveitando o sol das onze da manha. Entra o capitalista a olhar para o seu grande e reluzente relógio de pulso.
-Que fazes tu homem que ainda devias estar a pescar?
-Já pesquei o suficiente para hoje e até para amanhã e, por isso, estou aqui a descansar e a aproveitar o solzinho.
-Errado, homem, se pescasses mais do que o que precisas podias vender o excedente. E com o dinheiro que havias de ganhar compravas um barco maior e umas redes maiores. E com um barco maior e umas redes maiores pescavas ainda mais. E podias comprar mais barcos e contratar homens para trabalharem para ti. E podias chegar até a ter uma indústria de conservas e de ultra-congelados.
O homem tentando pôr fim aquele discurso – E depois?
Depois – respondeu o capitalista – podias descansar.
-Oh meu senhor- o homem nunca tinha ouvido coisa mais tola - não vê que isso é o que eu estou justamente a fazer?

21.4.06

O Massacre de 1506 e o Rossio de 2006

Vou aproveitar os meus 15 minutos de hoje para dizer uma coisinha muito politicamente incorrecta. Felizmente para mim quase ninguém chega a este blog e 99,9% das pessoas que por aqui andam estão-se marimbando para o que eu penso ou deixo de pensar.
E o que eu queria dizer é que, respeitando as convicções alheias e não duvidando das excelentes intenções de quem lá esteve, considero aquela coisa das velinhas no Rossio no dia 19 uma treta.
O que me faria acender uma vela? Afirmar a minha civilidade, para que ninguém duvide do repúdio que sinto pela barbárie de 1506? Será necessário?
Gritar a minha solidariedade para com as vítimas do massacre? Então porque não fazê-lo por todas as vítimas de todos os massacres de todos os dias?
Expiar as minhas culpas? Absurdo. Não me sinto minimamente responsável (nem sua herdeira) pelos meus antepassados do Sec XVI nem pelas atrocidades que eles cometeram. Que se assim fosse teria também que arcar com os pecados dos séculos anteriores e com os dos que se lhe seguiram … até ao dia de hoje.
Manifestar a minha humanidade? Mas se tenho oportunidade de o fazer em cada segundo de cada hora da minha vida e na maioria das vezes não o faço…
Ah, a boa consciência …

19.4.06

Alhos, pilas e paus

Pela janela da sala onde escrevo entra uma vozearia ensurdecedora: dezenas de estudantes do ensino superior que gritam uma cantiga cheia de paus, pilas alhos e outras palavras que rimam com estas. Decididamente o futuro hoje não se me afigura promissor.

E felizmente esgotei os 15 minutos.

Do estado das coisas - desabafo

Portugal ainda é uma porcaria dum país. Digo isto quando vejo que em instituições que deveriam ser a vanguarda, falo das universidades, o status quo bafiento ganha quase sempre (está bem, muitas vezes, demasiadas vezes...) à meritocracia.

Da MÚSICA

A MÚSICA começa onde acaba o poder das palavras, terá dito C. Debussy.

Desabituação (II)

Já penei bastante. O meu terapeuta está satisfeito e acha que eu vou conseguir. Tenho por isso agora autorização para 15 minutos diários e, se não fraquejar, poderei vir a ter 30 minutos ao fim de semana.