22.5.06

Dos partos


Eu e os partos,
pelo menos disto posso falar com conhecimento de causa, passei por isso por três vezes. Como sobre muitas coisas tenho ideias muito seguras sobre este assunto, mas admito que haja quem pense ou sinta diferentemente.
De todas as vezes encarei o acto de parir com optimismo acompanhado de algum receio. Por isso tenho a certeza de nunca haveria de aderir ao parto em casa, sinto-me muito bem na segurança de uma boa maternidade, rodeada de enfermeiros, obstetras e pediatras. Aquando do nascimento do meu terceiro filho e já estava ele com a cabeça quase de fora ainda achei forças para perguntar “e o pediatra já está aí?”. Quanto ao resto, considerei quase tudo acessório, o parto dura umas horas, e que verdadeiramente importa é ter um filho saudável para a vida inteira. Enfermeiras antipáticas, o diabo que as carregue, sou muito melhor que elas, enfermarias barulhentas, amanhã estou em casa, médicos insensíveis, ajude-me cá a por o meu filho no mundo em boas condições e depois desapareça...

tive quase sempre a sorte de não encontrar gente assim.

Que não há emoção maior do que aquela que se sente quando o nosso bebé chega ao mundo e berra a plenos pulmões, meu filho, meu querido filho que encheste o mundo de luz. Mas um filho... é para a vida.

A dor: ter filhos dói muito. Pelo menos comigo assim foi. Nunca nasceram sem que eu não desse por isso
(no trabalho de parto do primeiro muitas vezes disse para quem me quis ouvir, não sei como há mulheres que têm mais do que um filho. Mas passado pouco mais de um ano lá estava eu outra vez. Porque aquilo custa, mas se tudo correr bem, é só umas, às vezes muitas, horas e passa, e é imensaaaammmmeeeente recompensador)

e por isso vi como uma benção ter tido epidural no terceiro. Lembro-me que quando nos dois primeiros partos me diziam, faça força agora, eu pensava, faz tu que não deves saber como isto custa… enquanto que com a epidural estava pronta para fazer toda a força do mundo e o menino nascer num instante.

A episioctomia: dizem-me que se pratica demais e eu acredito, dizem-me que muitas vezes se faz só para conforto do médico, também acredito. É desagradável? É, nos primeiros quinze dias, ou por aí. Que causa traumas irreversíveis nas mulheres, horror ao sexo, vergonha, nunca senti nada disso.

A minha ideia final é que se efabula demasiado à volta do tema, o que na maioria das vezes nem sequer é benéfico para as mulheres.

O que eu nunca permitiria: que me levassem o menino para um berçário, parto provocado porque é o dia em que o médico está de serviço, ou porque o médico vai de férias ou… cesariana porque é mais fácil, ou porque… Os meus filhos nasceram no fim do tempo, quando quiseram nascer, nunca foi o meu obstetra assistente que fez o parto porque nunca calhou assim. O que interessa é que me senti em segurança com as pessoas que lá estavam e com o pai dos meninos ali ao lado.



PS só mais uma coisinha, se vivesse em Elvas e achasse que o meu filho nascia melhor em Badajoz, queria lá saber que ele nascesse espanhol.

18.5.06

Da fidelidade






-Foste-me fiel minha senhora?
-Muitas vezes.

16.5.06

fui cantando por dentro

A gente vinha de mãos dadas, sem pressa de nada pela rua. Totoca vinha me ensinando a vida. E eu estava muito contente porque meu irmão mais velho estava me dando a mão e ensinando as coisas. Mas ensinando as coisas fora de casa.
...
Se não estivesse na rua eu começava a cantar. Cantar era bonito. Totoca sabia fazer outra coisa além de cantar, assobiar. Mas eu por mais que imitasse não saía nada. Ele me animou dizendo que era mesmo assim, que eu ainda não tinha boca de soprador. Mas como eu não podia cantar por fora, fui cantando por dentro.


José Mauro de Vasconcelos “ O meu pé de laranja lima”

15.5.06

As cerejas



Chegando a esta época o pai dizia-lhe: Olha que estão a chegar as cerejas. E. sabia ter chegado a hora de abandonar os folguedos e começar a estudar para os exames do fim do ano.

Modos e Maneiras

O meu filho mais novo, que ainda não tem 2 anos e mal fala, diz: "J. (o irmão mais velho) BAZA"
O meu filho mais novo, que ainda não tem 2 anos e mal fala, diz: "Que NOJO".

ainda não diz: BUÉ, a palavra mais utilizada pelos irmãos mais velhos.

Da humidade

damp

adjective slightly wet.
noun moisture in the air, on a surface, or in a solid.
— DERIVATIVES dampish adjective damply adverb dampness noun.
— ORIGIN originally in the sense noxious inhalation: from Germanic

English Oxford Dictionary


"Above all – we were wet.

From October to April the walls of Limerick glistened with the damp. Clothes never dried: tweed and woollen coats housed living things, sometimes sprouted mysterious vegetations. In pubs, steam rose from damp bodies and garments to be inhaled with cigarette and pipe smoke laced with the stale fumes of spilled stout and wiskey and tinged with the odor of piss wafting in from the outdoor jackes where many a man puked up his week’s wages.
The rain drove us into the church – our refuge, our strength, our only dry place."



Frank McCourt , Angela’s Ashes, a memoir of a childhood

Uma infância


When I look back on my childhood I wonder how I managed to survive at all. It was of course, a miserable childhood: the happy childhood is hardly worth your while. Worse than the ordinary miserable childhood is the miserable Irish childhood, and worse yet is the miserable Irish Catholic Childhood.

Frank McCourt, Angela’s Ashes, a memoir of a childhood

12.5.06

As viagens do André e a Costa do Mosquito


Enquanto o André B. anda pelos planaltos da Guatemala, eu viajo mais ao lado, Honduras, a Costa do Mosquito. Até onde a self-estime (a raiar a insanidade) e a obstinação nos podem levar.

Allie Fox is sick of the fast foods, television, crime, bad workmanship, and cheap imports. He is interested in the lifestyle of the Central American migrant workers who work for his boss and thus he decides that the answer is to start a new life in the jungles of Honduras. Fox moves his wife and four children from Hatfield, Massachusetts to a remote overgrown clearing on the Mosquito Coast, which he believes is untainted by the modern world.
The story is told from the view point of his son Charlie, who admires his father for "not settling for any average Crusoe sort of living." Father builds a solid house (by going down to the beach to collect what is washed in from the world), has running water, toilet and laundry. Once this monumental task is complete, he decides to give a gift to the natives - ice. So he builds a monstrous machine out of old pipes to turn "fire into ice." Naturally, Allie Fox's actions are full of contradictions. Never mind his premise that this is a untainted region of the world. He soon finds that the natives know about ice and worse - Christianity. What works so well in this story is that it is told through the eyes of Charlie. Children naturally believe in their parents, but at the same time they have their own inner sense.





The Mosquite Coast, Paul Theroux

11.5.06

Fantástico

Oiço na Antena 1, pela boca da responsável pelo programa para a erradicação do trabalho infantil – PETI-, que esse problema em Portugal está resolvido... por decreto!

9.5.06

É HOJE



De todos os dias do ano, há um, apenas um, em que nos sabemos em casa, de portas e janelas fechadas, felizes por vivermos do outro lado. É HOJE!

8.5.06

Do TEMPO, post para uma Segunda-Feira
















Foi entre as sete e as oito que a sombra dos caixilhos apareceu nos cortinados e eu entrei outra vez no tempo, ao som do despertador. Era do Avô, e quando o Pai mo deu disse dou-te o mausoléu da esperança e do desejo; chega a ser dolorosamente justo que o uses para alcançares o reducto absurdum de toda a experiência humana, que responderá às tuas necessidades individuais tão bem como respondeu às do teu avô ou às do pai dele. Dou-to, não para que te lembres constantemente do tempo, mas para que te possas esquecer dele de vez em quando, sem depois te esfalfares na ânsia de o recuperares. Porque, como ele dizia, nenhuma batalha se pode considerar ganha. Nem sequer travada. O campo de batalha apenas revela ao homem a sua loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos


William Faulkner, O Som e a Fúria , Colecção Mil Folhas

3.5.06

Das Mulheres




















And however one might sentimentalize it, this sex business was one of the most ancient, sordid connexions and subjections. Poets who glorified it were mostly men. Women had always known there was something better, something higher. And now they knew it more definitely than ever. The beautiful pure freedom of a woman was infinitely more wonderful than any sexual love. The only unfortunate thing was that men lagged so far behind women in the matter. They insisted on the sex thing like dogs.
And a woman had to yield. A man was like a child with his appetites. A woman had to yield him what he wanted, or like a child he would probably turn nasty and flounce away and spoil what was a very pleasant connexion. But a woman could yield to a man without yielding her inner, free self. That the poets and talkers about sex did not seem to have taken sufficiently into account. A woman could take a man without really giving herself away. Certainly she could take him without giving herself into his power. Rather she could use this sex thing to have power over him. For she only had to hold herself back in sexual intercourse, and let him finish and expend himself without herself coming to the crisis: and then she could prolong the connexion and achieve her orgasm and her crisis while he was merely her tool.
Both sisters had had their love experience by the time the war came, and they were hurried home. Neither was ever in love with a young man unless he and she were verbally very near: that is unless they were profoundly interested, TALKING to one another. The amazing, the profound, the unbelievable thrill there was in passionately talking to some really clever young man by the hour, resuming day after day for months...this they had never realized till it happened! The paradisal promise: Thou shalt have men to talk to!---had never been uttered. It was fulfilled before they knew what a promise it was.
And if after the roused intimacy of these vivid and soul-enlightened discussions the sex thing became more or less inevitable, then let it. It marked the end of a chapter. It had a thrill of its own too: a queer vibrating thrill inside the body, a final spasm of self-assertion, like the last word, exciting, and very like the row of asterisks that can be put to show the end of a paragraph, and a break in the theme.

Lady Chatterley’s Lover, DH Lawrence, cap 1